Joias de Limousin

Enquanto o tartare de salmão e o filé de Turbot detalhados no menu fazem o senhor da mesa ao lado salivar com os olhos, sua companheira se concentra nas peças diante dela. Repara no formato de cada louça, cores e brilho, passa o dedo nas bordas decoradas do suplá. Depois, vira o prato sem nenhum constrangimento e confere o carimbo do fabricante. Afinal, em um restaurante de Limoges, capital da região francesa de Limousin, é mais que esperado que seu pedido seja servido em uma bela porcelana Bernardaud, Raynaud ou Haviland.

BRUNA TIUSSU, LIMOGES, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2011 | 03h08

Foi somente em 1925 que a cidade se tornou oficialmente capital mundial da porcelana, apesar de o manejo do chamado "ouro branco de Limousin" ser de domínio das famílias locais desde o século 18. Depois que se descobriu a abundância da argila de caulim na região - principal matéria-prima para as peças - as fábricas dali se tornaram referência internacional. Conhecidas, e sobretudo cobiçadas, no mundo inteiro.

Cada uma delas se mantém até hoje fiel às técnicas de fabricação desenvolvidas pelas próprias famílias, com segredos centenários que justificam e garantem o status artístico da porcelana. Mas também evoluíram, e agora trabalham para manter vivo este patrimônio, combinando tradição e modernidade.

Esforço que se percebe em uma visita às fabricantes - as cinco maiores, Haviland, Raynaud, Bernaudaud, Merdard de Noblat e Royal Limoges recebem turistas. No tour guiado pelo imenso edifício Bernardaud ( 4,50; bernardaud.fr), por exemplo, o visitante acompanha o passo a passo da confecção de um vaso - cada peça chega a ter 30 manipulações. Assim como vê de perto a destreza do artista que, com mão firme, dá pinceladas coloridas em um pequeno anel.

Pode ir mais além e se impressionar com objetos decorativos que levam a assinatura de designers internacionais - o Brasil tem seu espaço, representado pelos irmãos Campana -, e outros enfeites delicados, que brincam com formas geométricas, cores, fios de ouro e mal parecem ser essencialmente porcelanas.

Ares medievais. Toda a dedicação ao novo salta mais aos olhos quando se conhece Limoges. Estamos falando de uma cidade com mais de 2 mil anos de história, fundada pelos romanos, com clima medieval reinante. Seja nas ruelas do bairro antigo, catedral gótica de 1263, fachadas ora de pedra, ora de madeira dos edifícios do século 14 e 15, e jardins romanticamente franceses.

É neste cenário, onde o clássico se sobressai, que toques modernos brigam por espaço. Basta notar os bulevares substituindo as muralhas que antes dividiam a cidade. Ou contar o número de lojas descoladas e restaurantes sofisticados que hoje ocupam a Rua dos Açougueiros. Até mesmo outro orgulho artístico local, o esmalte (leia na pág. 9), entrou na dança: os traços decorativos vistos por lá pouco remetem àqueles exaltados pela nobreza e clero da Idade Média.

A ânsia por valorizar essa evolução cultural culminou na mais nova atração da cidade, o Museu de Belas Artes. Inaugurado no fim de 2010, no antigo Palácio de l'Évêché, reúne pinturas, porcelanas e esmaltes produzidos ali desde o século 12 até os últimos anos. Um acervo suficiente para mostrar que os anos passam, mas Limoges se mantém autêntica.

lPrecisão final

Mão firme e pinceladas certeiras na etapa de decoração das peças

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