Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Kyoto

Como uma gueixa

O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 04h30

Fiquei surpresa ao descobrir que Kyoto não era uma cidade pacata, mas repleta de avenidas movimentadas e 1,5 milhão de habitantes. É claro que um lugar que conta com 1.600 templos budistas e 400 xintoístas – incluindo 17 patrimônios da Unesco – não poderia ser exatamente pequena. Mas, no meu imaginário, tudo ali era histórico, distante do caos urbano.

Nada que tire o encanto da cidade, cheia de ilhas de calmaria entre seus templos e parques como o Maruyama, onde fica difícil caminhar na florada das cerejeiras. Além disso, na antiga capital do Japão Imperial (do século 8º a meados do século 19) não há arranha-céus: os edifícios têm limite de 15 metros de altura, o que confere vistas maravilhosas em vários pontos da cidade, especialmente do templo Kiyomizu-dera. Fundado no ano 780, mas reconstruído no século 17, é todo feito de madeira com encaixes, sem uso de pregos.

Chegar a ele, no bairro histórico de Higashiyama, não é difícil. São cerca de 10 minutos de subida, em meio a lojinhas e multidões ávidas por gastar, o que pode deixar o trajeto um pouco mais demorado. O bacana é justamente ir devagar, vendo as vitrines, provando comidinhas e biscoitos, sem deixar de prestar atenção nas placas que indicam o caminho. 

Lá no alto, as folhas coloridas pelo outono parecem buquês. Parte do templo pode ser visto por fora, sem a necessidade de ingresso, mas vale pagar os 400 ienes (US$ 4) para percorrer todo o trajeto, passando pelos jardins e pela fonte de água considerada sagrada, caso tenha tempo. 

Tempo, aliás, é o que você mais vai precisar em Kyoto. Será impossível visitar todos os templos, mas há muitos highlights (leia abaixo) e as distâncias são grandes.

Na entrada dos templos, sempre há comidinhas de rua. “Tudo é confiável, pode comer sem medo”, avisa a guia Yuki. Não resisti aos bolinhos recheados de polvo e salpicados com alga fresquinha, o takoyaki. Seis unidades de felicidade por 500 ienes (US$ 5).

Transformação. Caminhar por Kyoto é se deparar, a todo momento, com mulheres, casais e famílias inteiras vestidas com trajes tradicionais japoneses. Especialmente em Higashiyama, há lojas que oferecem aluguel de trajes, produção de cabelo e maquiagem completa por preços que começam em 3.200 ienes (US$ 32). 

Muito antes de turistas (japoneses e estrangeiros) dominarem as ruas com as tais vestimentas, eram as maikos e geikos (ou gueixas) que se vestiam dessa forma, a partir do século 15. Elas ainda existem – estima-se que cerca de 100 maikos (aprendizes) e outras 100 geikos trabalhem em restaurantes e casas tradicionais da cidade. Não há nada de ilícito no que fazem: são treinadas para se apresentarem, entreterem e servirem.

Gion é considerado o bairro das geikos – com sorte, talvez você veja uma delas no fim de tarde, seguindo apressada para alguma apresentação em um dos restaurantes da região. Fomos ao delicioso Gion Mametora, cuja caixa de sushis delicados (Mame sushi) custa US$ 42. Não espere menu em inglês ali ou nas casas vizinhas. 

Alguns hotéis mais refinados, como o Ritz Carlton, também transformam seus hóspedes em geikos. Para participarmos de um jantar no refinado restaurante Mizuki, todo o grupo – incluindo esta repórter – foram transformados.

As hábeis funcionárias trazem um cardápio de cabelos para você escolher apenas apontando, e uma porção de quimonos. Não é apenas vesti-lo: somos embrulhadas com várias camadas de tecidos para criar o visual. Os tamancos parecem de madeira, mas são mais leves e macios, o que facilitam a caminhada – embora seja necessário andar com mais delicadeza para não desequilibrar.

O jantar foi encantador – um dos pratos elaborados pelo chef Masahiko Miura imita os jardins japoneses: o pedaço de atum vem dentro de uma peça de gelo e descongela com sal e azeite – a ideia é simular o som da água corrente. Infelizmente, só não dá para comer muito com a roupa apertada, o que obriga a manter uma postura sempre ereta e elegante. Que pena devolver o traje.

OUTROS DESTAQUES

Kinkaku-ji 

O templo budista coberto por folhas de ouro é de uma beleza hipnotizante. O Pavilhão Dourado foi construído em 1397, mas incendiado por um monge fanático em 1950. Cinco anos depois, foi totalmente reconstruído segundo o projeto original. Há um caminho demarcado por onde devem seguir os visitantes, já que se trata de um dos lugares mais visitados de Kyoto. A dica – que pode ser estendida para quase todas as atrações da cidade – é chegar bem cedo, antes dos ônibus de excursões. O ingresso custa 400 ienes (US$ 4). Há uma réplica dele em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, que também pode ser visitado; 11-4666-4895.

Bambuzal de Arashiyama

Você saberá que está no caminho certo para o bambuzal conforme aumentam o número de lojinhas tentadoras e opções gastronômicas. Experimente fechar os olhos por alguns momentos – concentre-se nos sons do vento entre os bambus. A Rua Saga-Toriimoto reúne construções preservadas do início do século 20.

Yasaka-jinja

Procurado especialmente para celebrar o ano-novo, o templo fica encostado ao Parque Maruyama. Uma multidão vai agradecer e fazer pedidos tanto próximo à meia-noite de 31 de dezembro quanto nos dias seguintes. Em julho, há o festival Gion Matsuri, que toma as ruas do vizinho bairro de Gion com carros alegóricos e apresentações.

Fushimi-inari 

Um a um, os portões vermelhos (torii) marcam o caminho de 4 km até o topo do Monte Inari. São milhares, alinhados por uma trilha que leva de 2 a 3 horas para ser concluída (não é preciso ir até o final, logicamente). Os portões são oferendas de famílias e empresas a Inari, o deus do arroz para o qual é dedicado o templo xintoísta. Grátis.

Chion-in

O templo serviu de locação para O Último Samurai (2003) e é um dos mais populares do Japão. Com espaços amplos, foi fundado em 1234 – mas as construções atuais mais antigas são do século 17. Destaque para o sino de 1633, o maior do Japão, com 70 toneladas. Na véspera de ano-novo, ele soa 108 vezes. 

 

 

 

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