Larapinta, um desafio aos limites

Imprevistos e um belo cenário na trilha de cinco dias no coração do país

Alex Hutchinson, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2009 | 01h12

As dificuldades de encarar um trekking num rochoso e poeirento deserto são recompensadas por certos prazeres - como adormecer contemplando, pelo teto de malha da barraca, um céu manchado pela luz das estrelas. Não é preciso cobertura: as chances de chover nessa região da Austrália são ínfimas.

Estávamos acampados às margens do Rio Hugh, no vazio tingido de óxido de ferro do Austrália Red Center, a dois dias da estrada mais próxima e nove horas à frente de outros caminhantes. Nossa viagem ao centro da Austrália tinha sido motivada pelo desejo de ver Uluru, o icônico monólito anteriormente chamado de Ayers Rock. Rodeado pela maior coleção de nada do mundo, Uluru está a 500 quilômetros de Alice Springs, única cidade digna de nota no interior.

Para ampliar as atrações da região, o governo do Território do Norte passou 12 anos investindo numa trilha de 257 quilômetros, a Larapinta. O crucial era criar uma rede de reservatórios para água de chuva em intervalos de aproximadamente 18 quilômetros - o equivalente a um dia de viagem.

A trilha da Larapinta leva de duas a três semanas para ser percorrida de ponta a ponta, com seções mais curtas a partir de Alice Springs. Planejei uma caminhada de cinco dias por desertos e cumes e deixei outros dois para Uluru.

Saí direto do aeroporto para o ponto de partida em Ellery Creek. Depois de duas horas em uma estrada vazia, nosso motorista nos deixou com algumas palavras de alerta sobre algo chamado spinifex e a promessa de nos buscar em cinco dias em Standley Chasm, a próxima trilha acessível por carro.

Levantamos acampamento antes das 7 horas do dia seguinte. Diante de nós havia uma vasta planície avermelhada pontilhada por arbustos desfolhados e adormecidos até a próxima chuva. Após algumas horas de caminhada por tal cenário, fomos surpreendidos por uma explosão de cores às margens de um córrego seco. A água que escoou ao longo do subsolo foi suficiente para alimentar uma árvore de raízes profundas e uma necessária sombra em sua base.

A única coisa que marcava nosso próximo acampamento, alcançado às 13 horas, era um tanque de metal cheio de água. Exceto pelas moscas que procuravam a umidade de nossas narinas e canais do ouvido, não havia indícios de movimento.

Como parecia que andávamos numa fornalha, a busca por sombra se tornou obsessão. Procurávamos árvores para nos recostar e pensar o que faríamos para sobreviver caso o tanque de água no próximo camping estivesse vazio. Nessa noite, a chuva veio, dando vida à paisagem inerte do deserto.

O terreno mudou radicalmente na segunda metade da caminhada. A trilha se acentuou para seguir uma série de cumes altos acima de 1 mil metros e desafiava nossos limites.

Levantamos às 6 horas para completar o último dia na trilha. E finalmente descobri que o tal spinifex era uma gramínea com tamanho e forma de um porco-espinho que cobria as encostas de pedra. Eles cortavam e tiravam o sangue sem o menor esforço, como pude perceber todas as vezes que estendia a mão para me equilibrar.

Eram 17 horas quando chegamos em Standley Chasm. Naquela noite, mais uma vez, dormi sob as estrelas. Na manhã seguinte, seguiria as hordas de turistas a caminho de Uluru.

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