Susana Vera/Reuters
Susana Vera/Reuters

Leitão à mesa e outros pecados de Segovia

À medida que o carro se aproxima pela estrada que vem de Madri, em um percurso de quase uma hora, os contornos das opulentas construções medievais que fazem de Segovia um patrimônio da humanidade da Unesco ficam mais e mais próximos. Reza a lenda que o próprio Hércules teria fundado a cidade, ocupada pelos romanos em 80 a.C.. Ao longo dos anos, foi palco de invasões e batalhas entre tribos bárbaras e muçulmanos, até ser reconquistada por católicos no século 12.

Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

A história da cidade se mantém preservada em seu legado arquitetônico e cultural. Motivo de orgulho local, o aqueduto romano de mais de 2 mil anos surpreende pela preservação. São 20.400 pedras sobrepostas sem qualquer material para firmá-las, a 28 metros de altura. Segundo uma das lendas locais, coisa do diabo: dizem que uma menina, cansada de ter de carregar água do poço, se dispôs a vender a alma em troca de uma solução. O coisa-ruim trabalhou à noite, enquanto a garota, arrependida, rogava a Deus por seu perdão. Deu certo: Deus fez o sol nascer mais cedo e pegou o diabo desprevenido, que partiu apressado sem levar a alma da menina – e antes de encaixar a última pedra do aqueduto.

A obra é um bom ponto de partida para conhecer os atrativos da cidade. Andar pelas ruas de pedra em meio aos prédios baixos e se deixar surpreender por restaurantes e bares de tapas que surgem a cada esquina é uma bênção. Só preste atenção aos pés: nada de se autoflagelar com saltos ou sapatos apertados. Invista no conforto para aguentar o sobe e desce das ladeiras.

Nesse flanar, repare nos edifícios: em alguns deles, está incrustada parte da antiga muralha da cidade, erguida no século 11. Hoje, há apenas dois de seus cinco portões preservados. Com um perímetro original de mais de 3 quilômetros, o muro perdeu importância em tempos de paz e acabou sendo incorporado ao desenvolvimento urbanístico. 

Os trechos preservados e podem ser visitados a partir do Centro Informativo da Muralha, no portão de San Andrés. Ali se conhece a história e localização original de seus portões. A visita para os pontos mais altos da estrutura custa 1 euro e dispensa guia (oesta.do/muralla).

Fortaleza. É circulando pela muralha que se chega a uma das obras mais impressionantes da cidade: o Alcázar de Segovia. Não se sabe ao certo quando a fortaleza teria sido construída – as primeiras citações sobre o local são do século 11. Incendiado em 1862, o que se vê hoje é uma versão da construção original. 

Embora o Castelo de Neuschwanstein, na Alemanha, seja a mais conhecida inspiração de Walt Disney para o Castelo da Cinderela de sua Disneylândia, os espanhóis garantem que ele se baseou no Alcázar. Há, de fato, semelhança, mas nenhuma prova concreta. Certo mesmo é que o local serviu como residência de reis e Colégio Real de Artilharia, no século 17. A entrada de 7 euros dá direito a visitar o museu, o palácio e a Torre de Juan. São 162 degraus de penitência até o topo, onde se encontra a recompensa: a vista da cidade.

Gula. A fome aparece entre as andanças, e a efeméride de Santa Teresa deu munição para os chefs locais. Vinte restaurantes da cidade oferecem, até outubro, o menu carmelitano, inspirado nas refeições da ordem das carmelitas. Não espere humildade ou jejum: as opções, a partir de 10 euros, incluem entrada, prato principal e sobremesa – e, em alguns casos, uma taça de vinho. Veja os participantes: oesta.do/menucarmelita.

Outra opção para se fartar é o leitão assado, chamado de cochinillo e levado bem a sério na região – tem até denominação de origem. Um dos responsáveis pela busca da garantia de qualidade, o chef José Maria, dono do restaurante que leva seu nome, conta que um dos critérios é que o animal seja abatido com apenas 15 dias de vida, quando se alimenta ainda só de leite. 

Dá pena, mas a consciência se livra de qualquer peso quando chega à mesa a carne macia e suculenta, assada por pelo menos 2h30. Para provar a qualidade do produto (26 euros, para dois; restaurantejosemaria.com), o próprio chef leva o assado à mesa e o parte apenas passando as bordas do prato pelo animal. 

ROTEIRO SAGRADO

“También entre los pucheros anda Diós.” A frase de Santa Teresa – algo como “também entre as panelas anda Deus” – motivou restaurantes e hotéis da cidade a criar um festival gastronômico baseado na culinária teresiana e carmelita, o DegustÁvila. Quinze restaurantes participam do evento, que conta com receitas históricas adaptadas ao gosto atual. O menu inclui entrada, prato principal e sobremesa e custa 35 euros, para duas pessoas.

Além da gastronomia, outros eventos comemorativos ao aniversário de Santa Teresa tomam conta de Ávila até novembro, como visitas guiadas a vários pontos da cidade, exposições, concertos e cinema. Veja a programação: avilaturismo.com

Mais conteúdo sobre:
Espanha Segovia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.