Lembranças do paraíso

Rio, montanhas e foie gras na desconhecida Charlevoix

Jim Atkinson, The New york Times

27 Outubro 2009 | 02h40

As estreitas e sinuosas estradinhas de Charlevoix sobem e descem tendo de um lado as Montanhas Laurentian e do outro o profundo Rio Saint Lawrence. O vale está coberto de casas pintadas de azul, cinza e amarelo. Fontes de água e pequenas cascatas seguem o fluxo natural dos montes para o rio.

 

Durante a viagem, poucos meses atrás, senti uma sensação de déjà vu. Isso até eu compreender que aquele cenário era parecido com a imagem que eu fazia do paraíso quando criança. Minha imaginação, notei, nem era assim tão fora de propósito.

Charlevoix, a 80 quilômetros de Quebec, onde o Rio Saint Lawrence começa sua jornada até dar origem ao golfo homônimo, foi criada por um acidente celeste. Há 350 milhões de anos, um meteorito caiu nesta região do Canadá, dando origem aos vales e às encostas onde hoje vivem 30 mil pessoas. A cratera, coberta e recoberta por vários glaciares, também desenvolveu um tipo de solo especialmente bom para a agricultura. Charlevoix tem reputação de produzir vegetais e frutas de qualidade. E se tornou famosa pela cerveja, pelo queijo e pelo foie gras. Sem falar que a região tem um charme apreciado há muito tempo.

Mas como o acesso a Charlevoix é difícil, assim como os percursos por lá, esses atrativos permaneceram pouco conhecidos. Quem desembarca em Montreal, por exemplo, precisa dirigir 400 quilômetros até Charlevoix. Uma vez lá, cada destino parece estar distante não mais que 30 quilômetros.

Desde o século 18 nobres escoceses passavam férias na região, que ganhou esse nome em homenagem ao jesuíta e historiador François Xavier Charlevoix. Perto do século 20, uma de suas cidades principais, La Malbaie, virou um segredo bem guardado por americanos ricos.

A fama de playground de endinheirados permaneceu até 1988, quando a área virou reserva da biosfera da Unesco - e passou a atrair ecoturistas. Mesmo assim, o número de visitantes continua modesto, não mais que 700 mil por ano, se você não incluir o total de 1 milhão de pessoas que vão ali apenas por um dia, para apostar no cassino Fairmont Le Manoir Richelieu in La Malbaie. O Richelieu, com 400 quartos, spa e três restaurantes, é o melhor hotel da região. Fiquei no La Pinsonniere, hospedaria luxuosa a dez minutos de La Malbaie, numa área chamada Cap-a-l"Aigle, com bons restaurantes. Além de produtores de foie gras, blue cheese e salmão defumado.

A primeira parada foi na queijaria St.-Fidèle (http://www.fromageriestfidele.net/), em La Malbaie, notória pelo cheddar. Segui, então, para La Ferme Basque de Charlevoix (http://www.lafermebasque.ca/), em St.-Urbain, para provar foie gras e patês variados, feitos com receitas bascas. Para adoçar o paladar, a Chocolaterie Cynthia, em Baie-St.-Paul (Rue St.-Jean-Baptiste 66-3) , com as mais saborosas versões da iguaria. Depois de tudo isso, quase não sobrou ânimo para o jantar no La Pinsonniere. Fazendo jus à sua reputação, o restaurante serviu salada de aspargo com queijo pecorino, medalhões de cordeiro e purê com alho.

Seria esse paraíso particular melhor que o da minha visão infantil? Vou precisar de pelo menos mais uma visita a Charlevoix para decidir.

 

BALEIAS E FLORESTAS À VISTA

Não é preciso ir muito longe de La Malbaie para entender porque Charlevoix virou patrimônio natural da Unesco. Basta 1h30 de carro para ver o mais belo espetáculo da região, protagonizado pelas baleias.

 

PURO LUXO – Fairmont Le Manoir Richelieu (acima) e a vista deslumbrante do St. Lawrence

Em dez minutos, cruzamos em um ferry o Rio Saguenay, no ponto de confluência com o Rio Saint Lawrence, e aportamos no povoado de Tadoussac. Lá, embarcamos em um bote inflável da empresa Croisieres AML (http://www.croisieresaml.com/; desde 58 dólares canadenses ou R$ 97), que nos levou para fora do Rio Saint Lawrence, onde sete espécies de baleias aproveitam as águas profundas e salgadas do Canal Laurentian, que corre do golfo para o rio.

Apesar de ser meados de julho, a temperatura era de 4 graus, e uma chuva fina se materializou, o que, junto com as águas agitadas, adicionou autenticidade à aventura. O capitão havia prometido "muitas baleias" e não tinha exagerado. Perto de um farol abandonado, o bote foi repentinamente rodeado pelas gigantes - algumas, ele estimou, com 6 metros de comprimento - e por grupos de leões marinhos que brincavam nas águas agitadas. Foi a melhor observação de baleias que já experimentei. O barco inflável chegava tão perto dos animais que nossas palavras eram interrompidos pelos esguichos no rosto. O cruzeiro pelas águas profundas, cinzentas e tumultuadas, afinal, valeu o esforço.

Para quem prefere ficar em terra, a opção é o Parque Nacional Haute Gorges de la Riviere Malbaie. Dirigimos uma hora, a partir de La Malbaie, mas a Acropole, trilha mais famosa da reserva de 362 quilômetros quadrados, estava interditada devido às chuvas sazonais. Optamos por três caminhos mais curtos.

Haute Gorges mostrou-se um lugar resplandecente, com as águas muito claras do Rio Malbaie-Colorado serpenteando em meio a profundas gargantas verdes e vales cobertos de mata densa. Tudo ao som do deslocamento das águas, dos ventos e do gorjeio dos pássaros. Do cume de uma montanha de 244 metros de altura, tivemos uma vista parecida com o que se veria de um helicóptero. Lá embaixo, o rio cintilante.

Outra caminhada levou, entre subidas e descidas pela densa floresta, a um pequeno lago muito verde. Renas, veados e castores nos espiavam de seus abrigos sob as árvores. Ocasionalmente, um olhar para o céu renderia o deslumbre de uma águia em pleno voo.

PARA ANOTAR

COMO IR

A passagem aérea SP- Montreal-São Paulo custa a partir de R$ 1.562,62 na Continental (0--11-2122-7500), R$ 1,689,93 na United (0--11-3145-4200), R$ 1.737,02 na Air Canada (0--11-3254-6630) e R$ 1.784,11 na American Airlines (4502-4000). Voos com conexão

A região de Charlevoix fica a cerca de 400 quilômetros. Alugar um carro é a melhor opção

ONDE FICAR

Fairmont La Manoir Richelieu: diária desde 189 dólares canadenses (R$ 316), para duas pessoas; 00-1-866-540-4464; www.fairmont.com/richelieu

La Pinsonniere: diária para duas pessoas a partir de 295 dólares canadenses (R$ 495); 00-1-800-387-4431; http://www.lapinsonniere.com/

ONDE COMER

La Pinsonniere: cardápio francês, para duas pessoas, por 250 dólares canadenses (R$ 420)

Café Chez-Nous: sopas, saladas, omeletes e espetos bovinos por 30 dólares canadenses (R$ 50), para duas pessoas; 00--1-418-665-3080; http://www.cafecheznous.com/).

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