Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Lembranças do sertão

Sempre tive cá para mim que pinturas rupestres fossem como aqueles desenhos que ornam paredes das casas onde moram crianças pequenas. Bonequinhos rústicos, modelo palito, cinco traços e uma bolinha, mais básico impossível. Isso até ficar cara a cara com os murais do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, que exibe a maior concentração de sítios arqueológicos do mundo. E descobrir que "rabiscos" como esses podem emocionar profundamente.

FELIPE MORTARA , SÃO RAIMUNDO NONATO, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2013 | 02h15

Como tatuagens nos delicados arenitos, mais de 40 mil registros eternizaram seu tempo e suas crenças. Nos 1.334 sítios arqueológicos catalogados hoje na área do parque nacional - "a cada dia aparecem mais", afirma Niéde Guidon, diretora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) -, perpetuam-se representações de caça, rituais, sexo e outros desenhos com idades entre 6 mil e 18 mil anos. Espantoso pensar que atravessaram séculos, civilizações e a implacável ação do tempo. A maior parte, quase intactos. O que confere ao lugar o título mais que merecido de Patrimônio Cultural da Unesco.

Não bastassem as artes com óxido de ferro e gordura animal em incontáveis rochas, impressionam os cânions, paredões e falésias escarpados. Paisagens dramáticas. As formações, que há alguns milhões de anos eram fundo de mar e depois de rio, foram esculpidas pelo vento e o tempo. A Pedra Furada, o maior símbolo do parque, é uma prova disso.

Aqui vieram à tona algumas das ossadas humanas mais antigas já registradas nas Américas, apelidadas de Zuzu e Zazá, com cerca de 9 mil anos. "A sensação é a de encontrar pessoas. Estamos atrás de identidades, de grupos. É muito emocionante descobri-las", conta a arqueóloga Gisele Felice. Sem falar nos fascinantes e gigantescos animais da megafauna, como o mastodonte e a preguiça-gigante. Sobra história, portanto.

Estrutura. Para que continue atravessando gerações, o passado deve estar ao alcance de todos. E a boa notícia ali é que, dos 172 pontos de visitação abertos ao público com passarelas e sinalização explicativa, 17 estão adaptados para quem tem dificuldades de mobilidade.

Não apenas dentro do parque a estrutura é convincente. À exceção de um aeroporto mais próximo e talvez de uma hospedagem de padrão elevado, a região parece preparada para triplicar seus atuais 20 mil visitantes anuais. A começar pelos impecáveis 530 quilômetros de estradas que separam a capital Teresina da pacata São Raimundo Nonato e seus 32 mil habitantes. Basta ponderar e considerar que estamos em um dos Estados com pior IDH do País para perceber o quanto essa infraestrutura é razoável.

Na categoria "excepcional" uma atração se sobressai. O Museu do Homem Americano reluz como uma joia na caatinga. Seu tesouro está nas vitrines, que revelam quanto o passado foi generoso com a região.

Três a quatro dias é o período ideal. O suficiente para o olhar de um simples turista ficar treinado a destrinchar os desenhos mais complexos e até mesmo a identificar estilo e período a que pertencem. O que só se consegue, logicamente, na companhia de um guia credenciado (em média, R$ 100 a diária para grupo, de carro ou de moto), e não inclui acesso ao parque (R$ 12,50). A entrada principal está próxima ao vilarejo do Sítio do Mocó, a 20 quilômetros de São Raimundo Nonato, mas ali há apenas uma estrutura básica de camping.

A oportunidade de compreender as rochas, suas formações e variações faz do lugar uma Disneylândia para geólogos. Mas não é preciso ser estudioso para se apaixonar pela Serra da Capivara. Ali, a caatinga revela o mistério de suas árvores, que mudam do cinza-quase-morto para o verde-cheio-de-flores com a chuva, de janeiro a abril. E o cancã, um dos vários pássaros que habitam essas paradas, acompanha sua jornada com um canto característico.

Aqui não há cachoeiras, rios caudalosos ou poço azul cristalino. O calor é implacável e seus melhores amigos na caminhada serão boné, água e barrinhas de cereal. O que a Serra da Capivara propicia está mais para uma viagem visceral às próprias origens, que revela um passado distante e, ao mesmo tempo, tão presente.

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