Zeca Wittner/ Estadão
Zeca Wittner/ Estadão

Lembranças sem memória

Tenho me sentido muito upset com essa nova realidade globalizada que permite às pessoas realizarem seus sonhos sem jamais tê-los, de fato, realizado

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2018 | 03h00

Leitor e amigo de nosso correspondente, Gunter Kaisenberg, está, por esses dias, em Utah. Segundo Mr. Miles, Gunter parece, cada dia mais, com Robert Redford, criador do festival de cinema de Sundance, no estado de muitas neves, areias e mórmons. Aliás, ambos têm a mesma idade. O viajante britânico faz esse introito para agradecer a sempre amável, instrutiva e carinhosa correspondência desse leitor e de sua esposa Sandy. A seguir, a correspondência da semana:

Querido Mr. Miles: estive, recentemente, em um restaurante decorado com dezenas de máscaras africanas, uma mais linda do que a outra. Fiquei imaginando que o proprietário devia ser um aventureiro e as máscaras eram lembranças de suas incursões pelas nações do grande continente negro. Pois não é que um conhecido me disse que o dono do lugar jamais saiu do Brasil! Que decepção!                   

Maria Julia Ardiles, por e-mail

Well, my dear. Não me surpreendo com sua decepção. E, unfortunately, surpreendo-me ainda menos com essa nova modalidade que gosto de chamar de lembranças sem memória.

O cidadão nunca foi a algum lugar; nunca viu seus habitantes; nunca provou de sua comida, nem sentiu os aromas das plantas que nascem em sua terra. Provavelmente – o que é pior – nem sabe no que as pessoas do lugar nunca visitado acreditam, sonham, odeiam ou sacralizam. Nem sequer viram como chegar lá. Se por moderníssimas highways, ou caminhos estreitos, cortados por rios, com animais perigosos em toda a parte. Nada disso importa: uma viagem nunca feita vai para a parede na forma de um objeto bonito, curioso ou nada disso.

A coisa, darling, pode até piorar. Em grande parte dos casos, a lembrança não corresponde a nada. Lugar nenhum, povo nenhum, tradição alguma. Um souvenir de coisa alguma, obra de algum artesão chinês, malaio ou indonésio que cria viagens não realizadas para um site de vendas de qualquer lugar.

Tenho me sentido muito upset com essa nova realidade globalizada que permite às pessoas realizarem seus sonhos sem jamais tê-los, de fato, realizado. E não importa se o sonho é bom ou ruim. Em minha humilde opinião, é preciso provar para avaliar. Lembranças sem memória são como aquelas awful prateleiras de livros sem conteúdo, inúteis caixas com lombadas coloridas, títulos pomposos e nada a acrescentar. Histórias que jamais serão contadas, porque nunca foram lidas. Don’t you agree?

O exemplo pode não ser o melhor, mas ouso dizer que a lembrança sem memória tem algo em comum com os extraordinários mock-ups que os restaurantes japoneses exibem em suas vitrines, para mostrar os pratos que, de outra maneira, seriam inexplicáveis. Quem os vê, by the way, costuma salivar antecipadamente. Nesse sentido, sua existência é nobre. Como alimentos, porém, eles representam tanto quanto as falsas máscaras do restaurante em que você esteve. Não têm gosto, não matam a fome, não têm proteínas ou carboidratos. Não são nada, enfim. Não são lembranças, mas oblívios.

“Não há que fazer nada na véspera de não partir nunca”, disse meu velho amigo Fernando Pessoa, na ocasião travestido de Álvaro de Campos. Foi em 1934, época em que tomávamos ginjinhas na Leitaria do senhor Trindade, uma das tascas que Pessoa frequentava, produzindo obras-primas entre as fumaças dos seis a oito maços de cigarro que fumava por dia. Com ele e muitos outros aprendi, my dear, que a virtude passa longe da abstinência – ainda que a morte possa passar mais perto.

Well: o mundo de hoje é cada dia mais indicado para quem não quer fazer nada, na véspera de não partir nunca. Para quem não quer ler Pessoa, não quer tomar ginjinha e não quer ir à África. Sempre haverá lembranças, mesmo se não houver nenhuma memória.

 

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