Beto Barata/Estadão
Beto Barata/Estadão

Chiloé: o maior arquipélago do Chile é paraíso remoto no Pacífico

A atmosfera bucólica do arquipélago de Chiloé, no Chile, convida a desacelerar, ouvir os sons da natureza e descobrir as particularidades de uma cultura que se manteve autêntica ao longo dos anos

Bruna Toni, Ilha Grande de Chiloé

06 Novembro 2018 | 05h00

Há milhares de anos, duas serpentes travaram um duro confronto no Pacífico Sul, na costa de um território que viria a ser o Chile. Caicavilú, serpente da água, desejosa por incorporar a seus domínios marinhos aquele trecho de terra, o inundou. Por sua vez, Tentenvilú, serpente da terra e da fecundidade, tentou proteger o território, ajudando seus habitantes a escalar montanhas para escapar das inundações ou atribuindo-lhes dotes de aves e peixes para que não se afogassem. Enquanto Caicavilú subia o nível do mar, Tentenvilú fazia crescer as montanhas. Enfim, a serpente terrestre triunfou, dando origem a um arquipélago de cerca de 40 ilhas: Chiloé. 

“Lugar de pássaros” na língua mapuche, Chiloé não é um destino tão conhecido dos brasileiros, apesar de estar a apenas 1h30 de voo da capital Santiago. É, no entanto, o maior arquipélago chileno, onde está a quinta maior ilha da América do Sul: a Ilha Grande de Chiloé. Sua riqueza, porém, não está em seu tamanho, mas em sua autenticidade. Os anos se passaram ali sem que a essência do povo chilote, entre o passado indígena e a presença dos espanhóis, se perdesse completamente: seus campos que sobem montanhas e suas as águas gélidas continuam sendo a base do sustento e da beleza natural; e suas narrativas mitológicas ainda fazem parte do cotidiano e de suas visões de mundo.

Cores. Os ares bucólicos estão na arquitetura e nos vastos campos cobertos de uma planta amarelo-gema que está por toda parte. “É o espinillo. É bonita, mas nós, chilotes, não gostamos muito dela”, me diz rindo Javier Mozó, guia turístico do hotel Tierra Chiloé, onde me hospedei. “Ela cresce que nem praga e é difícil de arrancar depois, dificulta o plantio.” 

Entendo Javier. Mas, seguindo critérios estéticos, ela fica linda diante do colorido das casas de madeira, erguidas sobre blocos de concreto ou palafitas. As construções mais antigas, de madeira tejuela, mostram as marcas do tempo no marrom escuro uniforme; as mais novas, de madeira vertical lisa, costumam ser pintadas e mais descoladas. Às vezes estão isoladas; noutras, compõem uma avenida mais agitada onde também há comércio. Pergunto a Javier se não há nada de tijolo e concreto. “Há algumas construções em Castro”, diz ele, se referindo à capital do arquipélago, onde vive a maior parte de seus 140 mil habitantes e onde está o aeroporto com voos de e para Santiago. 

A madeira é também o material de suas famosas igrejas, construídas a partir do século 17 com a chegada das missões jesuíticas. São dezenas, das quais 16 se tornaram Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Ali, a evangelização ocorreu sem a presença constante de figuras do clero: os franciscanos chegavam, ensinavam preceitos e partiam, deixando a cargo de um leigo a tarefa de pregar a palavra católica na comunidade. Esse leigo, chamado fiscal, existe até hoje e é ele o responsável pelos ritos religiosos. 

E se não há padre, também não há padrão europeu nas igrejas: para erguê-las, os chilotes se inspiraram nas construções de seus barcos, com algumas referências espanholas. Assim, as igrejas têm apenas uma torre central, por exemplo.

Cheguei a Chiloé numa terça chuvosa e logo aprendi que, por lá, as chuvas fazem parte da rotina. “Aqui, quando não está chovendo é porque vai começar a chover”, me disse uma funcionária do hotel. Mas não se preocupe: se a chuva vem em questão de minutos, ela também desaparece rapidamente. De outubro a março é alta temporada: as máximas podem chegar a 20 graus e o frio diminui – eu peguei 8 graus, mas as mínimas chegam a 2 graus negativos ao longo do ano. É nesse período que chegam aos pantanais da região as aves migratórias, entre elas o zarapito de bico reto, vindo do Alasca, e os pinguins de Magalhães e Humboldt – para vê-los, programe sua viagem a partir de novembro.

Todo esse ar bucólico é perfeito para o combo conexão com a natureza (e desconexão com a internet), vinhos e mariscos frescos à mesa e roupas de lã quentinhas, algo que faz parte da confecção e do artesanato local. Ideal para sossegar, tanto para mochileiros (há hospedagens simples nas aldeias maiores), quanto para adeptos do luxo rústico. Irresistível para quem quer descobrir a beleza que o duelo das serpentes acabou por conferir a esse pedaço do Pacífico. 

*A jornalista viajou a convite do Hotel Tierra Chiloé.

 

 

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