Farrell/Estadão
Farrell/Estadão

Lições de um velho amigo

Nosso infatigável viajante confessou estar "absolutely delighted" ao constatar o alcance da página no Facebook que ele levou anos para aceitar como uma ferramenta.

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2013 | 02h09

"Tenho de admitir, my friends, que, as a tool, é tão útil como um martelo ou uma serra tico-tico. Mal fiz minhas primeiras tímidas aproximações com os improváveis interlocutores e, my God, mais de 3 mil pessoas manifestaram seu agrado. A última vez que reuni tanta gente foi em uma palestra que proferi en Xangai. However, dada a espantosa densidade demográfica da China, acho que isso equivale a juntar seis pessoas em Bruxelas. Don't you agree? Sem contar que meu mandarim é apenas um pouco melhor do que o português de pé quebrado que uso para minhas crônicas semanais."

A seguir, a correspondência da semana:

Prezado mr. Miles: observo que, em muitos de seus relatos, o senhor se refere à amizade que manteve com o estadista Winston Churchill. Como era ele? E como posso aprender mais a seu respeito?

Anselmo Grosflug, por e-mail

"Well, my friend: essa é uma amizade de que me orgulho muito, indeed. Um homem de estatura física e moral como a dele na verdade não tinha muitos amigos. Lamento que seu principal defeito era gostar mais de suas piadas e sacadas do que de seus amigos. Lembro-me que, certa vez, ao constatar que seu interlocutor estava certo durante um debate no Parlamento, Winston calou-se, ofereceu um silêncio de poucos segundos e capitulou: 'A maior lição da vida é que, às vezes, até os tolos têm razão.' Disse isso para um plenário que caiu às gargalhadas. Não consigo me lembrar do nome do tolo em questão, mas o fato é que se tratava de um amigo de infância, dos tempos do Palácio de Blenheim, em Oxford, em fins do século 19.

A amizade, of course, ruiu, mas Churchill deu um jeito de continuar fazendo e desfazendo desafetos pelo mundo.

Voltando à sua questão, dear Anselmo, eis que já existem dois endereços para você lembrar de nosso melhor WC: o Parlamento, que tem visitas guiadas de 75 minutos, as quais terminam justamente no Hall de Westminster, onde Churchill repousa e onde 300 mil britânicos enlutados prestaram-lhe a derradeira homenagem em 1965. Também é possível visitar o Palácio de Blenheim (há ônibus que partem de Oxford) e visitar o quarto onde ele nasceu - ainda sem fumar charutos e tomar martínis.

Não deixe de ir, as well, para Chartwell, a uma hora de carro de Londres. Aquela foi a verdadeira casa da família Churchill - lugar onde discutimos muitos assuntos, de mulheres à Operação Overlord, que ficou mais conhecida como Dia D. Você vai ficar espantado, my friend: Chartwell tem uma coleção de 130 quadros nada medíocres pintados pelo próprio Winston. Na verdade, entre um drinque, duas guerras, diversos livros e um Prêmio Nobel de Literatura, ainda lhe sobrava tempo para pintar de forma diletante. Isn't it amazing?

Há, também, os Cabinet War Rooms, em Londres, onde meu velho amigo permaneceu durante a guerra e proferiu a famosa frase: 'Tudo o que tenho a oferecer é sangue, esforço, suor e lágrimas'. A frase, by the way, está estampada na nova nota de 5 pounds, que celebra o querido english bulldog.

E há mais uma coisa, dear Anselmo: conheça o Churchill Bar and Terrace que fica no Hotel Hyatt Regency (também em Londres, of course), que é repleto de simpáticas referências a um amigo que, antes de mais nada, amava a vida. Sente-se ao lado da estátua dele e ouça o que ouvi de sua própria boca há um punhado de décadas: 'A minha regra de vida, Miles, inclui um ritual totalmente sagrado de fumar charutos e beber álcool antes, depois e, se necessário, durante e também nos intervalos entre as refeições.'

Ainda bem que você não está mais aqui, old captain!"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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