Flavia Alemi/ Estadão
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Adriana Moreira
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Limitar, um mal necessário

Machu Picchu anunciou o fechamento de três áreas da cidadela em nome da preservação e a paradisíaca praia de Maya Bay, na Tailândia, segue fechada há um ano

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 04h35

Semana passada, o Peru anunciou que limitará o acesso de visitantes a determinadas áreas de Machu Picchu, a princípio até 28 de maio. Os visitantes terão horários específicos em que poderão visitar o Templo do Sol, o Templo do Condor e a Pirâmide de Intihuatana. Será um experimento piloto, que pode se tornar permanente a partir de 1.º de junho.

Quando visitei Machu Picchu pela primeira vez, em 2006, a única restrição era para a subida a Huayna Picchu, a montanha mais alta que se vê nas clássicas fotos da cidadela. Hoje, a cidadela trabalha com o limite máximo de 4 mil visitantes por dia, que se dividem em dois turnos de visita, manhã e tarde.

Nos últimos tempos, notícias sobre restrições a monumentos turísticos, em nome da preservação deles, têm se tornado comuns. Conforme uma atração se populariza e o número de visitantes cresce muito acima de sua capacidade, certas medidas se tornam inevitáveis.

Maya Bay, o cenário paradisíaco do filme A Praia, com Leonardo Di Caprio, segue fechada aos turistas ao menos até junho de 2021. Antes da interdição, a praia na ilha de Koh Phi Phi Leh, na Tailândia, recebia cerca de 4 mil visitantes por dia. O Departamento Nacional de Parques e Vida Selvagem da Tailândia reintroduziu corais e vem estudando possibilidades para que, quando reaberta, a praia receba no máximo 1.200 pessoas diariamente. 

Outro lugar que discute limitar o acesso de turistas é Cinque Terre, na Itália. Patrimônio da Unesco, a área do parque nacional conta com apenas 5 mil moradores – mas recebe mais de 2 milhões de turistas por ano, especialmente durante o verão. Por enquanto, a solução encontrada foi a venda de bilhetes de entrada em determinados trechos do parque. Para dar mais praticidade aos turistas, é possível comprar um cartão especial para as viagens de trem na região e outro para fazer trilhas.

O caminho é similar ao adotado no Brasil, em Fernando de Noronha. Além da taxa ambiental (R$ 73,52 no primeiro dia, R$ 467,54 por uma semana), quem vai à ilha também precisa pagar para entrar na área do Parque Nacional, onde estão os principais atrativos do arquipélago brasileiro. 

Limitar financeiramente o acesso a um lugar pode ser interessante para investir em melhorias e ações de preservação do local em questão. Por outro lado, é questionável deixar de fora quem tem vontade de conhecer um lugar por questões financeiras. Afinal, fazer uma viagem, por si só, já é um privilégio – ainda mais em tempos em que o dólar turismo andou batendo os R$ 4,60. 

Há outras formas impopulares de diminuir o fluxo de turistas, mas de maneira mais, digamos, democrática. Amsterdã, por exemplo, decidiu retirar o letreiro que atraía os visitantes para selfies na Praça dos Museus. Há algumas semanas, também proibiu os tours guiados na região do Red Light District para preservar a privacidade das garotas que trabalham nas casas de prostituição. A cidade vem se armando contra o overturismo, à exemplo de Barcelona e Veneza.

Não há dúvidas de que o turismo é uma faca de dois gumes, que precisa ser tratado com responsabilidade. Desordenado, pode destruir ecossistemas, deslocar populações nativas, desgastar monumentos históricos. 

Mas, feito do jeito certo, vira sinônimo de preservação, renda para a população local e crescimento econômico para um país. Afinal, trata-se de uma das maiores economias do planeta, responsável por 10% dos empregos do mundo, segundo a Organização Mundial do Turismo (Untwo). 

Assistindo ao programa Pedro pelo Mundo, da GNT, sobre a Croácia, a frase de um barqueiro local me marcou. Ex-pescador em Dubrovnik, ele passou a levar turistas em passeios de barco pelas ilhas próximas. Questionado pelo apresentador sobre o excesso de turistas – um problema enfrentado pela cidade depois do boom causado pelas gravações de Game of Thrones –, ele respondeu que não vê o turismo como vilão. “Graças a ele, pudemos preservar toda essa natureza e nossos monumentos históricos”, disse, mostrando a beleza do entorno. 

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