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Literatura, direito de ir e vir

Não é só na imaginação que os livros nos fazem viajar - eles também podem ser ótimos roteiros de viagem

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 07h00

Nem sei dizer quantas vezes a literatura guiou meus passos em viagens. Algumas porque encontraria no destino o lugar onde viveu um escritor que admiro. Em outras, porque havia em mim o desejo de conhecer os cenários descritos em um livro – e lá fui eu. Isso quando não foi a própria viagem que me apresentou um novo autor incrível. 

Foi à procura do que li em O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, que guiei meus passos pelo bairro de Coyoacán, na Cidade do México. É lá que estão as casas-museu da pintora Frida Kahlo e do revolucionário León Trotsky, ambas na narrativa do escritor cubano, uma ficção com os dois pés na história. 

Também já estive em cenários que não eram reais, mas que a literatura teve tanto sucesso em criá-los que homens de carne e osso trataram de torná-los palpáveis (e rentáveis). Meu melhor exemplo são os parques de diversão com áreas dedicadas ao mundo de Harry Potter em Orlando e em Londres. 

 

Boas companhias

Quando não se pode ir até um lugar, é a literatura que faz o favor de nos levar. Imaginem quantos cantinhos do mundo deixaríamos de conhecer não fossem os livros? Do Rio São Francisco só conheço as margens que passam pela graciosa cidade de Penedo, em Alagoas. Mas, na companhia de Dora, Doralina, de Raquel de Queiroz, percorri um longo trecho de suas águas, do Nordeste ao Sudeste.  

O caminho inverso é verdadeiro. Estive em Chiloé, arquipélago no sul do Chile, sem saber que Isabel Allende se serviu de seu conjunto de ilhas remotas para escrever Cadernos de Maya. Foi apenas na volta que soube que alguns amigos leitores já estavam muitíssimo bem apresentados ao destino pela escritora.

Em Portugal, estive na Casa dos Bicos – Fundação José Saramago. Fui lá pelo museu que reúne histórias, fotografias e exemplares de obras do escritor português. Descobri, contudo, que o edifício, erguido no século 16, também preserva hoje os vestígios de gente que por lá passou em épocas distantes, entre romanos e mouros. Agradeci a Saramago por continuar me apresentando tantas histórias de seu país.

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Trouxe da livraria da Fundação um livro com cartas trocadas entre o Nobel português e nosso Jorge Amado. Jorge Amado/José Saramago – Com o Mar por Meio é bom exemplo de obra que nos faz viajar não só a lugares, mas a tempos outros. Terminei de lê-lo tomada pelo desejo inquietante de pegar o primeiro avião para a Bahia e ir direto para a Casa do Rio Vermelho, em Salvador, onde viveram Jorge e Zélia Gattai, sua companheira. Ela, inclusive, escreveu um livro, batizado com o nome da residência, contando as histórias dos dois no espaço que hoje está aberto ao público. Iria também à Casa de Cultura Jorge Amado, um palacete em Ilhéus onde ele viveu até a adolescência e que se transformou no que melhor podia: espaço cultural e de memória.

Com o casal também trocou cartas Cora Coralina, outra grande escritora que contou sobre seus tempos de infância, esses no interior de Goiás, em páginas como as de Estórias da Casa Velha da Ponte, construção do século 18 onde ela morou e que, atualmente, é um museu dedicado à sua trajetória. 

O fio das lembranças traz à tona minhas passagens pela Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, e pela Casa Mário de Andrade, um querido espaço de arte e cursos gratuitos em São Paulo. Fora daqui, como esquecer das inusitadas casas de Pablo Neruda espalhadas pelo Chile? Ou da alegria de encontrar a de Miguel de Cervantes e Lope de Vega pelas ruas espanholas?  

Agora imaginem vocês, leitores, se fôssemos privados desses e de tantos outros livros que nos fazem viajar, na imaginação e na vida real? Privados, portanto, do direito de pensar e também do de ir e vir? Aliás, essa ideia também já permeou a literatura e insiste em fazer parte da realidade. Normalmente está na cabeça de personagens cujo discurso político do “é para o seu bem” pretende esconder o autoritarismo e a ignorância de suas existências. Mas não há como se confundir, pois em ambas têm o mesmo nome: censura.

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