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Locomotiva desbrava culinária mineira

"Coisas que ficaram muito tempo por dizer / Na canção do vento não se cansam de voar / Você pega o trem azul, o sol na cabeça..." - 'O Trem Azul', Lô Borges e Ronaldo Bastos

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2015 | 04h59

RIO ACIMA - A cada domingo, às 10 horas em ponto, o culto religioso realizado no andar de cima de um sobrado de cores apagadas de Rio Acima é interrompido pelos seguidos apitos de Elizabeth, a maria-fumaça que se prepara para partir. Os maquinistas – que também são bilheteiros e comissários – gritam aos passageiros para não haver atrasos.

“Essa história de que mineiro perde o trem é coisa de paulista”, brinca Flávio Iglesias, idealizador e coordenador do passeio turístico na Maria-Fumaça do Rio Acima, uma simpática cidade de apenas 10 mil habitantes, a uma hora de Belo Horizonte.

O nome é novo. Até setembro, quando embarcamos, a locomotiva, fabricada em 1924 pela empresa alemã Orenstein & Koppel e a única do modelo em atividade no Brasil, ainda era chamada de Trem das Três Cachoeiras, referência ao circuito de cerca de 80 quedas d’água da região – mas às quais não se chega de trem.

Da influência aquífera, restaram os nomes dos vagões: Sansa, Véu da Noiva e Chicadona, que também batizam cachoeiras por lá. Os três foram comprados por Iglesias em uma parceria com a prefeitura, que trouxe a locomotiva da Paraíba em 2009. Antigo maquinista e bilheteiro, a mesma profissão do avô, Iglesias coordenou a restauração da estação construída no fim do século 19, e dos sete quilômetros de trilhos entre os bairros de Matadouro e Labareda de 2007 a 2012, ano de reabertura da estação.

Estrada Real. Mas nem o novo nome, nem os ares frescos da tintura azul e branca da estação nos tiram a sensação de volta no tempo. Seu passado imperial, aliás, está marcado nas horas. Suspenso por uma corrente, um relógio com design antigo, como se fosse de 1890, mostra que, atrás da simplicidade plebeia, Rio Acima tem pompa real.

Parte de uma velha trilha aberta pelos índios guianas e percorrida pelos bandeirantes entre a região mineradora e o litoral, a cidade margeia a Estrada Real, num trecho conhecido como Caminho de Sabarabuçu, que contorna o Rio das Velhas – visto da janela do trem ao longo dos 40 minutos de passeio. Para chegar até ela de ônibus, a partir de Belo Horizonte, consulte os horários em oesta.do/onibusrioacima.

A experiência na Elizabeth é essencialmente interna. Se o lado de fora não oferece vistas de tirar o fôlego, o banquete servido no primeiro vagão compensa. Embarcando às 10 horas, há a opção de incluir ao valor da passagem (a partir de R$ 22) um farto café colonial (R$ 12) com deliciosos bolinhos de feijão, ou optar entre bacalhau ao forno e estrogonofe (R$15) de almoço.

Com sorte, a viagem pode contar com a presença do mestre cervejeiro Alfredo Figueiredo, da VM Beer, que, entre bebericadas animadas, explica o preparo de cada um dos rótulos que nos eram servidos.

A proposta gastronômica que faz jus à fama mineira deu tão certo que Iglesias quer ir além: pretende organizar um jantar depois do último horário do trem, às 16 horas, criar uma noite natalina sobre os trilhos e fazer viagens também às sextas-feiras – hoje, a estação só abre aos fins de semana e feriados. Mais: crat.com.br.

ONDE FICAMOS

No bairro boêmio Savassi, a unidade Lourdes da rede Mercure é uma opção econômica. Tem as facilidades dos grandes hotéis, com sete tipos de quartos (são 379 ao todo), com micro-ondas, Wi-Fi e TV. Na área externa, academia, bar e restaurantes, mas vale dar uma volta noturna pela região, repleta de botecos e pubs movimentados. Desde R$ 184 por pessoa, com café. A 1 hora da estação de Rio Acima. Mais: oesta.do/mercurebh.

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