Los Angeles para cinéfilos, muito além da Calçada da Fama

Roteiros abrem as portas de estúdios e mostram bastidores da indústria cinematográfica mais famosa do mundo

Julia Duailibi, de O Estado de S.Paulo,

17 Novembro 2009 | 02h54

Turistas podem escolher programas que incluem conversas com diretores, roteiristas e maquiadores

 

LOS ANGELES - Uma simples passadinha pela Calçada da Fama é muito pouco para os verdadeiramente aficionados por filmes. Ainda mais quando se descobre que os bastidores da indústria cinematográfica mais famosa do mundo podem ser vistos em programas turbinados, que incluem conversas com diretores, roteiristas e maquiadores. E garantem sua presença em gravações e nas mais premiadas empresas de efeitos especiais.

Imagine, por exemplo, ver como foi feito o boneco usado em O Curioso Caso de Benjamim Button ou acompanhar um artista gráfico dando os retoques finais em O Lobisomem, que só será lançado no ano que vem? Com sorte, também dá para participar de uma palestra com Hayao Miyazaki, o mestre das animações japonesas, agraciado com um Oscar, ao lado de John Lasseter, gênio da Pixar.

Fizemos um desses roteiros em Los Angeles. Com direito a ver o passo a passo de uma maquiagem de terror no Drac Studios, que ganhou Oscar por Drácula, e a servir de testemunha para um assassinato a tiros no Full Scale Effects. Mas também percorremos o clássico percurso turístico na cidade (leia mais na página 10), marcado pelas estrelas da Calçada da Fama e pelo glamour do Kodak Theatre, palco da cerimônia do Oscar.

O roteiro upgrade começou no Vale de São Fernando, onde estão os principais estúdios e as milionárias produtoras americanas. Por ali, algo ficou bem claro: modos e tecnologias diferentes para fazer cinema convivem lado a lado. Ainda há espaço - e muito - para aquela turma da antiga, que usa resina para fabricar neve em pleno verão californiano e provoca ventos capazes de mover um elefante com ventiladores dos anos 1940 - esses equipamentos ainda são os melhores do mercado, porque não fazem barulho.

Mas a nova geração está no pedaço para dar vida digitalmente a naves espaciais, monstros terríveis, perseguições de carros e até cidades inteiras. Tudo no computador. É o pessoal da chamada Computer Generated Imagery (CGI).

Como nosso roteiro era para entender as técnicas por trás dos efeitos que vemos na telona, o contato com a antiga e a nova gerações se mostrou perfeito. Um histórico completo sobre o assunto. O programa da empresa brasileira International Film Institute (Infilm), que nós acompanhamos, foi montado por Ana Maria Bahiana, a única representante tupiniquim na restrita Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood.

Puro artesanato

Full Scale Effects, Anatomorphex e Legacy Effects (do premiado Stan Winston, que deixou seu legado em Jurassic Park, Exterminador do Futuro, Edward Mãos de Tesoura e Iron Man) são remanescentes de um jeito mais artesanal de filmar em Hollywood. As equipes reúnem engenheiros - que se empolgam com as explosões que transformam carros em sucata - e artistas capazes de recriar rostos humanos perfeitos e feições de alienígenas, muitos alienígenas.

A Anatomorphex fica num galpão que mais parece uma garagem. Lá estão penduradas mais de 40 máscaras moldadas nos rostos de gente como Tom Cruise e Merrill Streep, perdidas entre monstros, bonecos de borracha e silicone, Estátuas da Liberdade de espuma e centenas de quinquilharias que você tem certeza de que já viu em algum lugar - como o alienígena que aparece na propaganda da cervejaria Skol.

É no meio desse caos criativo que o artista plástico Robert DeVine constrói artesanalmente seus efeitos especiais. "Nós somos os caras da old school", afirma, sem desligar a música cubana que ouve. "Eu não sei se sou inseguro, mas prefiro ver a coisa real. Só que há coisas que não conseguimos fazer como o computador faz."

DeVine conta ainda como preparou Jack Nicholson para receber efeitos especiais que simulavam tentáculos de um ser extraterrestre em Marte Ataca. Disse que Nicholson, simpaticíssimo, só pediu uma cesta de basquete no set de filmagem.

Num raio X do setor, DeVine está bem alinhado com a equipe da Full Scale Effects. A visita ao estúdio é uma grande diversão. Você vê como são preparadas as resinas que simulam neve nas produções hollywoodianas. Há desde neve branca e fofa a gelo barrento, de textura e cor meio nojentas. Tudo biodegradável, claro.

Os funcionários fazem questão de preparar um showzinho para os visitantes: vários tipos de explosões, de acordo com o gosto do cliente. O ponto alto é a simulação de tiros, bem ao estilo Duro de Matar. Prepare-se. Uma pessoa do seu grupo vai receber o gentil convite para ser a assassinada a sangue frio. Vai querer ser vítima ou prefere ficar de testemunha ocular?

Hi-tech

O outro lado da indústria é formado pelos estúdios que trabalham com efeitos visuais digitais, que muitas vezes complementam o trabalho feito pelos efeitos físicos - foi o caso de O Curioso Caso de Benjamin Button. A Digital Domain e a Rhythm and Hues são território de centenas de garotos loirinhos, com cara, jeito e QI de geek. Eles estão de chinelo e bermuda e ouvem iPod enquanto trabalham em seus MACs.

Esses escritórios reúnem todos aqueles clichês sobre empresas politicamente corretas da Califórnia. Os funcionários levam seus cachorros para o trabalho, comem comida orgânica e tiram até quatro meses de férias por ano.

Mais menininhos de 20 e poucos anos no estúdio da Rhythm and Hues, onde vários filmes receberam efeitos especiais por computador. De lá saíram desde o urso polar que estrela o comercial da Coca-Cola até efeitos especiais de Ace Ventura e Scooby-Doo 2.

Ainda no forno

Quer mais? Os visitantes têm acesso a alguns materiais em primeiríssima mão. Caso da finalização dos efeitos de O Lobisomem, filme com Benício Del Toro e Anthony Hopkins que estreia no ano que vem.

Na mesma linha, a Digital Domain, uma gigante de CGI, atrás da Sony Pictures Imageworks e Industrial Ligh and Magic, fundada por George Lucas em 1975. As reuniões na empresa dão inveja a qualquer um: ocorrem dentro de uma sala que é uma escultura de madeira feita pelo arquiteto canadense Frank Gehry, pai do famoso prédio do Guggenheim de Bilbao. Oportunidade e tanto para aproveitar e dar mais uma olhada por trás das cortinas.

Viagem feita a convite da Infilm.

Como ir

Passagem aérea

O trecho SP-Los Angeles-SP custa a partir de US$ 1.036 na American Airlines (0300-789-7778; www.aa.com), US$ 1.067 na Delta (4003-2121; www.delta.com), US$ 1.079 na United Airlines (0--11-3145-4200; www.united.com) e US$ 2.179 na TAM (0--11-4002-5700; www.tam.com.br)

Pacote

Os programas da Infilm (www.infilm.com.br) custam entre US$ 2.450 e US$ 5.900 (preço do The Oscar Experience) - os grupos têm, no máximo, 20 pessoas. Os valores incluem o transporte entre as atividades e a hospedagem num hotel quatro-estrelas. O próximo programa, no começo de dezembro, é sobre sitcoms. Há roteiros prontos até junho de 2010

Atrações clássicas

Grauman"s Chinese Theatre

6.925 Hollywood Blvd. (www.manntheatres.com/chinese)

El Capitan Theatre

6.838 Hollywood Blvd. (www.disney.go.com/disneypictures/el_capitan)

Egyptian Theatre

6.712 Hollywood Blvd. (www.americancinematheque.com)

Kodak Theatre

6.712 Hollywood Blvd. (www.americancinematheque.com)

Griffith Observatory

2.800 East Observatory Road. (www.griffithobs.org)

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