Luas negras na tela do poente

MR. MILES* - O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO, miles@estadao.com.br,

02 Dezembro 2010 | 10h00

 

Nosso intimorato viajante anuncia que vai intensificar o ritmo de suas viagens nos próximos meses. E não apenas porque o inverno começa a enregelar seu esqueleto no Reino Unido, mas sobretudo em razão das grandes festas que vão retê-lo na Inglaterra em abril. Em telefonema pessoal (que o deixou muito honrado) a rainha Elizabeth II anunciou a nosso correspondente que exige sua participação no casamento do príncipe William com Catherine Middleton. Mr. Miles, é claro, já confirmou sua presença.

 

Confidencialmente, o correspondente inglês nos informa que, dessa vez, Sua Majestade mostra-se entusiasmada com a escolha do neto. A pergunta da semana:

 

Mr. Miles: tendo em vista sua notória longevidade, gostaria de saber se o senhor já viajou em um zepelim.

Marcio Arantes, por e-mail

 

"Well, my friend: não vou aceitar sua provocação porque a minha relação com o tempo é íntima, pessoal e, felizmente, muito harmoniosa. Sobre a questão que você me coloca, lamento informar que essa é uma falha imperdoável no meu currículo de viajante. Ainda pequeno, quando chafurdava nos campos enlameados de meu Condado de Essex, pude ver dirigíveis rompendo as nuvens rumo ao desconhecido. Those dazzling visions - vultos enormes, iluminados e silenciosos como estranhas luas negras na tela do poente - levaram-me a sonhar que, algum dia, eu também pudesse subir às alturas e apontar a proa para o destino que me aprouvesse.

 

Unfortunately, as you know, naquele tempo meu universo era tão limitado quanto os parcos proventos de meu pai. Apenas uma vez eu tinha ido até Londres em sua companhia - e a capital do reino era, então, meu Zanzibar, minha Cochinchina e todos aqueles nomes mágicos que povoavam os livros mais importantes de minha casa.

 

Mais tarde, como se sabe, a morte de uma contraparente longínqua e solitária tornou-me, por motivos de herança, um jovem abastado que, finalmente, ganhou o mundo. À época, o Graf Zeppelin, com seus 213 metros de comprimento e seus cinco motores de propulsão, já era uma lenda, tendo percorrido mais de 500 mil quilômetros em suaves jornadas entre os continentes. E acabava de surgir um novo modelo, o LZ 129 Hindenburg, ainda maior, com 245 metros da proa até a popa e a estonteante velocidade de 135 quilômetros por hora.

 

Não pude, however, embarcar nesse meu sonho de infância. O serviço militar que tive de cumprir, as relações sempre pouco amistosas entre nosso império e o governo nacional-socialista da Alemanha e, por fim, o incêndio do Hindemburg ao pousar em New Jersey encerraram a era dos dirigíveis. Só me restou, oh my God, o consolo de dar uma volta sobre Indianópolis a bordo de um dirigível publicitário fabricado pela Goodyear, uma experiência que se revelou fria e desinteressante.

 

É preciso que eu lhe diga, my friend, que ainda não desisti da ideia. Tenho acompanhado, em publicações especializadas, o esforço de várias empresas ao redor do mundo para produzir novas e modernas versões dos velhos zepelins. Os materiais e a tecnologia disponíveis já são bastante diferentes. O próprio hidrogênio, altamente inflamável, que causou a tragédia do Hindenburg, já foi substituído pelo gás hélio como força de flutuação.

 

Unfortunately, a maior parte da indústria aérea vê esses esforços com desinteresse e, I must say, um pouco de arrogância. Para eles, trata-se de pura nostalgia de uma época já definitivamente encerrada. De minha parte, posso imaginar mil utilidades para dirigíveis na era dos jatos. É dispensável listá-las, mas basta pensar na possibilidade de voos lentos sobre regiões espetaculares para entender onde eu quero chegar. Aos céticos, dear Marcio, sempre faltará o sonho. E, sadly, já é tarde demais para enxergar estranhas luas negras na tela do poente, as I did.

 

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

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