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Lugar de bebê

Companhias aéreas europeias e americanas não cogitam implantar 'zonas livres de crianças'

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2019 | 17h30

Na semana passada a companhia aérea Japan Airlines, a JAL, lançou um sistema de reserva de assentos que marca com um ícone de carinha de bebê os lugares selecionados por pessoas com crianças de colo. Você compra sua passagem. Vê no mapa de assentos em quais poltronas voarão os bebês. Escolhe a sua o mais longe possível. E torce para que nenhuma família que chegar depois reserve assentos ao seu redor. 

É mais um capítulo do desgastado, mas atual debate sobre um certo direito ao sossego que muitos passageiros de avião juram que têm. Dizem que bebês choram, crianças gritam, chutam poltronas, devoram cérebros com colherzinha. Tudo isso sob os olhares de pais e mães incompetentes, incapazes de conter a fúria de seus pequenos selvagens. 

(Enquanto isso, adultos tiram os sapatos, espalham chulé, exageram no perfume, falam alto, roncam e ninguém reclama. Mas esse é outro assunto, sobre o qual também já escrevi).

A JAL nem é a primeira aérea a tentar acalmar os pobres viajantes estressados pela presença de mini humanos. Ao menos outras quatro companhias têm em seus voos fileiras de poltronas que não aceitam menores de 12 anos. As “zonas livres de crianças” existem na Malaysia Airlines, na AirAsia, na Scoot Airlines e na IndiGo. Todas asiáticas, pouco relevantes para a vida do passageiro brasileiro, como a própria JAL. 

Eu sinto muito por você que vai continuar tendo de suportar essa convivência. E, como não adianta lembrar que crianças são pessoas como todas as outras, com os mesmos direitos (inclusive ao respeito), vou enumerar coisas que talvez ajudem você a se acalmar (ou não). Como se diz: trago verdades.

Não existe isso de área silenciosa. As fileiras podem até rejeitar crianças. Mas não têm isolamento acústico. Se um bebê chorar em algum lugar do avião, você vai escutar. 

Voos sem crianças não vão ocorrer tão cedo. Nenhuma companhia aérea vai encarar esse desgaste de imagem. Pode anotar aí. Os tais discursos “contra o politicamente correto” só encontram adeptos entre políticos falastrões e seus seguidores abobados. O mercado não vai cometer esse erro estratégico. As aéreas americanas e europeias nem sequer se animam a implantar as “zonas livres de crianças”. 

Sua reunião vai dar certo. No mundo todo, todos os dias, pessoas vão trabalhar, fazem reuniões e tomam decisões mortas de cansaço. Não vai ser uma noite mal dormida no avião que vai impedir você de fazer o que deve. Se a questão é trabalhar a bordo, são muitas as distrações que não dependem da presença de crianças: o pega e guarda de gadgets entre decolagem e pouso, a refeição, o acende-apaga de luzes, os avisos da tripulação, o colega de poltrona pedindo licença para ir ao banheiro. Aprenda a lidar.

O sono no avião é sempre ruim. De novo, não por culpa das crianças a bordo. Mesmo na executiva ou na primeira classe, em poltronas que viram cama, o ar é seco, a saliva engrossa, o nariz entope, as turbulências despertam. 

Bebês estão mais incomodados que você. O motivo mais frequente é a pressão nos ouvidos. Também choram de medo do ambiente estranho, de cansaço pela imobilidade. São motivos pelos quais você também choraria, se pudesse. 

Nenhuma criança chora o voo inteiro. Só se for um voo curtinho, 50 minutos até Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba. Em trajetos longos, os pequenos choram e param, voltam a chorar, param de novo. Não é agradável (nem para os pais), mas um pouco de paciência, empatia e seus fones de ouvido resolvem. Cara feia e grosseria, não. 

Ninguém é obrigado. Sabia que, no limite, você pode nunca pegar um avião? Pode procurar outro emprego, só viajar de carro. O que não pode, nas democracias, é querer mais direitos para você e menos para os outros. 

A verborragia contra crianças é discurso de ódio. E a discriminação, para os seres humanos decentes, é inaceitável. 

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