Marcos de Paula/Estadão
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Lugar de (e para) nossa Consciência Negra

Convidamos dois jornalistas e dois historiadores negros a listarem roteiros que contêm mais sobre histórias e culturas afro e afro-brasileira pelo mundo

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 07h00

Há 324 anos, Zumbi dos Palmares morria em Alagoas, assassinado pelo governo português depois de impor a este diversas derrotas na luta que travou pelo fim da escravidão no Brasil. É este evento, ocorrido no dia 20 de novembro de 1695, que marca nosso Dia da Consciência Negra

Felizmente, a lembrança e a herança que carregamos daqueles que nos precederam independem de datas (ainda que a marcação delas seja importante) e estão por todas as partes - a região do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga (Alagoas), está preservada e aberta à visitação, por exemplo. Assim, esta coluna traz, hoje, outros roteiros que contam mais sobre nossas histórias e culturas afro e afro-brasileira, indicados por quatro amigos viajantes negras e negros: os jornalistas Júlia Belas e José Antonio Leme e os historiadores Érika Rocha e Marcus Ecclissi.  

Reflexo do que somos como sociedade, o turismo ainda é um espaço onde o racismo existe e se reproduz, mas não sem resistência. Por isso, como escreveu Marcus ao se deparar com meu convite, os destinos a seguir são “alguns locais importantes para a formação cultural do nosso País. Visitá-los não é apenas uma forma de conhecer novos lugares, mas também uma forma de resgate e resistência”. Uma forma, portanto, de (e para) nossa consciência negra.

Salvador, por Júlia Belas

Como uma mulher negra, acaba sendo mais fácil se sentir pertencente quando você vive em Salvador, uma cidade com 80% da população que se declara de pele preta ou parda. Além de todas as maravilhas naturais, o que eu mais amo é o carnaval. Por mais que ainda seja uma festa segregada, entre camarotes, pipoca e blocos, a energia é indescritível.

Fora dos circuitos tradicionais, a minha dica é: use o sábado para assistir à saída do Ilê. Um programa que qualquer viajante – especialmente se for uma pessoa negra – precisa conhecer. O bloco Ilê Aiyê tem sua sede no Curuzu, na região com a população mais negra da cidade. Nesse dia, turistas e moradores vão até as ruas e ladeiras apertadas do bairro para assistir ao ritual que dá início ao carnaval de um dos blocos mais tradicionais. É um espetáculo religioso, carnavalesco e lindo de se assistir.

Confesso que a última vez que eu vi a saída do Ilê foi há mais de 10 anos. Nesse meio tempo, muita coisa mudou – inclusive a minha percepção. Na época, eu senti a emoção de ouvir os cantos e tambores, vi a beleza de todos os homens e mulheres que desfilavam, mas no ano seguinte resolvi correr atrás dos trios no Campo Grande e na Barra-Ondina. Existe toda uma tradição de blocos afro no Carnaval de Salvador, mas o Ilê é especialíssimo. Hoje em dia, morando em São Paulo - e percebendo como o pertencimento faz falta -, recomendo a todo mundo que aproveite esse momento para começar o ano com muito axé.

Rio de Janeiro, por Marcus Ecclissi

É quase impossível pensar na cultura negra no Brasil sem pensar na história da Zona Portuária do Rio de Janeiro, conhecida como “Pequena África” não apenas por causa da presença física de africanos e descendentes, mas também pela marca cultural que a região carregou por anos, sobretudo a partir do século 19. 

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Entre esses migrantes, estavam as mulheres que seriam conhecidas como as “tias baianas” - a mais famosa delas Tia Ciata - que até hoje são homenageadas pelas Alas das Baianas nos desfiles de escola de samba. Essas senhoras negras foram importantíssimas para o crescimento do samba e das religiões afro-brasileiras, pois abrigavam os praticantes em seus casarões. 

Assim, a Pequena África viveu entre os fins do século 19 e as primeiras décadas do século 20 uma grande efervescência cultural, das rodas e ranchos de samba ao candomblé, o que fez do local um dos mais importantes pontos da história e cultura negra no Brasil. E também de luta, pois, obviamente, foi a região onde a polícia, em tempos da “Lei da Vadiagem”, reprimia a população com maior frequência. Resgatar a história da importância da Pequena África para a sociabilidade da população negra do Rio de Janeiro é também resgatar narrativas e ancestralidade de um povo silenciado pela história oficial. 

Alguns locais da região que carregam toda essa história são: Cais do Valongo, Patrimônio da Humanidade, onde os novos escravizados trazidos ao Brasil - estima-se que entre 500 mil e 1 milhão - foram desembarcados entre 1811 e 1883; o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN), onde, em 1996, foram encontrados fragmentos de ossos humanos, vestígios de cerâmica, vidro e ferro, descobrindo-se ali o “Cemitério de Pretos Novos”, que funcionou entre 1769 e 1830 - hoje, além de projetos educacionais e pesquisas, o IPN tem um museu memorial; a Casa da Tia Ciata, sede da Organização dos Remanescentes da Tia Ciata e que conta com uma exposição permanente, além de diversos projetos culturais e oficinas; e a Pedra do Sal, o centro da Pequena África, onde ocorriam (e ocorrem ainda) muitas rodas de samba e onde a vida cultural da região se desenvolvia - foi tombada como Patrimônio Histórico em 20 de novembro de 1984.

Londres, por José Antonio Leme

Minha indicação é Londres. Antes de tudo foi uma cidade onde, sendo negro, me senti acolhido e não vivi a sensação de preconceito e racismo que vivenciei em outros locais ao redor do mundo e mesmo no Brasil. Há um peso para a comunidade negra, afinal foi a primeira nação a proibir o tráfico de escravos, em 1807, e em 1833, fez a abolição.

A cidade por si só é repleta de história, mas ela ainda tem belos e recheados museus, com todo tipo de história, como o British Museum. Ela pode ser aproveitada no inverno ou no verão, com os seus vários parques, e tem, além de cultura, diversão para quem procura de tudo, gastronomia, bares, balada, festas de todo tipo. É provavelmente minha segunda cidade no mundo, depois de São Paulo.

São Paulo, por Érika Rocha

Estar no mundo envolve uma série de ações e escolhas: onde quero estar? Qual direção seguir? Para qual lugar quero voltar? De qual comunidade faço parte? E o que vamos deixar para as comunidades que virão? Todo lugar é permeado de histórias e, no bairro Penha de França, na zona leste de São Paulo, é possível sentir a história pulsar na sua forma mais orgânica. Como afirma o professor Francisco Folco, “a Penha de França tem uma cultura própria e uma história muito rica”. 

Em minhas andanças pelo Largo do Rosário, tive a oportunidade de conhecer o Centro Cultural Penha, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França e, mais recentemente, o Memorial Penha de França. Três espaços geograficamente próximos e fundamentais para a história do bairro e para a produção e circulação da cultura e dos saberes locais.

De acordo com a noção banta de ubuntu, conceito importante da filosofia africana que orienta o pensamento ético e político, é preciso pensar o caráter relacional e essencialmente coletivo da humanidade, os princípios de ação, a promoção e distribuição de recursos e a ideia de comunidade, ou seja, daquilo que nos aproxima não apenas por habitar uma mesma área. Foi conversando com o historiador Maurício Dias e com os professores Júlio César Marcelino e Francisco Folco, integrantes do Movimento Cultural Penha e da Comunidade do Rosário, que percebi essa ideia de comunidade atua filosoficamente na vida das pessoas dali. “Existem vários motivos para as pessoas pertencerem à Comunidade do Rosário e fazer parte das atividades. Tem a parte litúrgica, mais ligadas às ornamentarias, têm pessoas mais ligadas à parte musical ou à produção. Cada um complementando de alguma forma”.

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