João Laet/Museu do Samba/Divulgação
João Laet/Museu do Samba/Divulgação

Lugares de identidade

Onde as culturas afro-brasileira e afro-americana são desenhadas por seus próprios sujeitos históricos

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2018 | 03h05

O leitor mais afeito a folias de carnaval e atento a sambas-enredo irá se lembrar: “Ê, Calunga / Preto Velho me contou / Onde mora a Senhora Liberdade / Não tem ferro nem feitor”. Elejo este um dos trechos mais bonitos do samba da Paraíso do Tuiuti, escola vice-campeã (e sensação) do carnaval do Rio de Janeiro deste ano. Foi escrito e musicado para recordar os 130 anos da abolição da escravidão no Brasil – 13 de maio de 1888 foi a data de assinatura da Lei Áurea – e para questionar até que ponto o racismo e o “cativeiro social” foram realmente abolidos de nossa sociedade nos últimos séculos.

O leitor que acompanha esta coluna, por sua vez, se recordará do que o último texto, Relatos de viagem e (nem tão) velhos preconceitos, publicado em 31 de julho (leia aqui), havia prometido: uma pequena indicação de lugares onde é possível conhecer mais sobre a história e a cultura negra, protagonizada por africanos, afro-americanos e afro-brasileiros. 

A sugestão veio de um papo com uma amiga sobre o que eu poderia escrever sobre a efeméride e sobre um assunto tão parte de nós. Logo percebi que a ideia de contribuir com roteiros de viagem que explorassem o que foi e vinha sendo feito por negras e negros ia ao encontro do que o escritor moçambicano Mia Couto coloca como essencial: pensarmos sobre nós mesmos como sujeitos históricos, “como lugar de partida e como destino de um sonho”. Sobre a África, diz ele, a dificuldade de tal atitude vem, sobretudo, “de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa própria identidade”.

Os lugares que selecionei aqui – em menor número do que eu gostaria – são aqueles onde as identidades afro-brasileiras e afro-americanas foram desenhadas por seus próprios sujeitos, de tantas formas interessantes quanto um belo samba-enredo pode ser.

Brasil. Já que falei sobre o Cais do Valongo nas pinturas e relatos de Debret do século 19, começo por ele o roteiro. O cais é parte da Pequena África, região portuária onde há duas comunidades remanescentes de quilombos, cuja história e cultura são resgatadas e preservadas por meio de um centro cultural no Jardim Suspenso. Ao lado está a Pedra do Sal, tombada em 1984. Era no entorno dela que se agrupavam as casas coletivas onde moravam os negros, muitos vindos da Bahia, e onde o candomblé e as rodas de samba faziam parte da rotina – até hoje, nas noites de segunda-feira, há bom samba por lá. Dá para percorrer tudo, incluindo o sítio arqueológico do cais, Patrimônio da Unesco, sozinho ou nos tours guiados da Raízes Africanas. E, se você gostar de samba com eu, vá também à Mangueira para conhecer o Museu do Samba

A Bahia, toda ela, é a história afro-brasileira. Mas indico aqui a parada no Museu Afro-brasileiro da Universidade Federal da Bahia, o Mafro. Nele, há mais de mil peças da cultura material africana e da cultural material afro-brasileira, com destaque para a parte religiosa.

Estados Unidos. Entre tantas possibilidades, sugiro percorrer a trajetória do blues, do jazz e do rap. Para os dois primeiros, que tal um roteiro de carro que inclua as cidades de Memphis, Nashville e Nova Orleans? Não faltarão museus dedicados aos estilos nem locais para assistir a bons shows. 

Para o rap, ou melhor, para o hip-hop, Nova York pode oferecer uma viagem completamente diferente do que talvez você já tenha feito. Ir ao Bronx e ao Harlem, sobretudo num domingo ensolarado, é experiência única, cheia de música e cor. Há lugares emblemáticos onde circularam DJs, MCs e grafiteiros percussores do movimento nascido nos anos 1970. Tudo indica que, a partir de 2022, toda a história estará reunida no Universal Hip-Hop Museum.

Da música para a arte, vale compartilhar que o Museu de Arte de Baltimore, em Maryland, tem leiloado quadros de artistas como Andy Warhol para agregar à sua coleção obras de grupos pouco representados em suas salas, sobretudo o formado por mulheres afro-americanas. Uma forma de corrigir preconceitos históricos que levaram (e ainda levam) artistas e o público negro a ficarem de fora de instituições renomadas. 

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