Luxo e pobreza

Mr. Miles é chegado em um bom requinte, mas não dispensa um belo sorriso e um abraço caloroso

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

03 Março 2009 | 02h19

A propósito da questão do confisco de guarda-chuvas no consulado americano em São Paulo - à qual nosso grande viajante se referiu na semana passada -, alguns leitores, como Suzana Mello e Carla Miranda, anunciaram que vão se lembrar de levar capas na bolsa quando precisarem atualizar seus vistos para aquele país.

Mr. Miles, que levou sua cadela Trashie para passear na Ilha de Rhodes - onde a primavera começa a dar as caras -, enviou-nos, pouco antes de partir de Londres, a sua colaboração semanal.

Mr. Miles: gosto de ler suas crônicas semanais. Acho, porém, que o senhor não viaja no mesmo nível que eu. Parece-me que o senhor gosta mesmo é de luxo. Estou certo?

Cosimo Nandi, por e-mail

''Well, mio caro Cosimo: desta distância, I believe, fica muito difícil que eu avalie qual é o seu nível de viagem para estabelecer uma comparação confiável. Don't you agree? However, se você vem acompanhando minhas mais que dispensáveis narrativas, há de ter percebido que sou o que se pode chamar de um viajante eclético.

Unfortunately, a fortuna que herdei de uma longínqua contraparente esvaiu-se há muitas décadas. Como você sabe, o que me permite continuar perambulando mundo afora são os amigos que conquistei durante esse tempo, muitos dos quais são meus compadres e afilhados que, felizmente, me convidam a visitá-los com frequência. Além, é claro, dos inúmeros planos de milhagem dos quais me tornei sócio remido enquanto desfrutava do inesquecível (porém finito) legado.

Nowadays, sinto-me igualmente à vontade em uma pequena hospedaria no interior do Peru, dividindo o quarto com galinhas e cuyes (N.da R.: espécie de porquinhos-da-índia, muito apreciados na gastronomia peruana), ou num hotel de sólida reputação e mobiliário refinado em Viena ou Chicago.

Que péssimo hóspede eu seria, by the way, se assim não me comportasse quando confrontado com a generosidade de quem me recebe com um abraço e um sorriso franco.

A meu ver, Cosimo, o nível de uma viagem é resultado direto da qualidade do viajante - muito mais, anyway, que de seu poder de compra. Aqui mesmo, nesta ilha de Queen Elisabeth, vivem inúmeros cidadãos de posse que levam sua empáfia para perambular por terras estrangeiras, hospedam-na em suítes imperiais, servem a ela os melhores vinhos e as mais nobres iguarias mas, my God, são incapazes de lançar um único olhar para as cidades em que se encastelam ou para o povo que carrega suas malas.

São de nível muito superior, in my opinion, os que, com qualquer quantia no bolso, levam a argúcia para viajar. Porque, ao contrário da empáfia, ela lhes revela soberbos detalhes em qualquer situação. Quem conduz a sagacidade em suas jornadas está sempre pronto a farejar um encanto, vislumbrar uma descoberta e adquirir um ensinamento.

Esse é o verdadeiro luxo que me atrai, fellow. O que não significa, of course, que eu seja refratário a hotéis espantosamente requintados, com suítes extraordinariamente amplas, camas vergonhosamente confortáveis, restaurantes gloriosamente apetitosos e outros pequenos prazeres que só muito dinheiro (or great friends) podem proporcionar.''

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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