Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Maboneng, síntese da Johannesburgo jovem e criativa

Projetos de vida reunidos em área antes degradada compõem a alma de Maboneng, projeto imobiliário e urbanístico controverso

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2015 | 03h00

JOHANNESBURGO - Com seu vestido quadriculado customizável e tênis amarelos de estampa camuflada, a estilista tanzaniana Anisa Mpungwe é a cara de Maboneng. Sócia da loja Morphé, onde vende suas próprias criações e as da também estilista Marize Malan, ela vai desfiando, na conversa, seu novelo de talentos. 

O tapete de flores no piso ela confeccionou por conta própria porque não encontrava nada de que gostasse de fato. “E também era mais barato.” O tipo de roupa que gosta de criar e usar é “confortável e multifuncional, para vestir qualquer tipo de corpo”, diz, enquanto amarra e desamarra o vestido, ilustrando a fala com as muitas formas de usar a peça. Tudo descomplicado. E original. 
Maboneng é mais um bairro da safra dos ex-abandonados, hoje descolados no centro de Johannesburgo. O mais expressivo deles, pelo tamanho e pela diversidade. Alvo do projeto imobiliário e urbanístico Maboneng Precinct, que abrange vários quarteirões. Começou quando parte da área foi comprada por uma certa família Lieberman, que, junto com obras estruturais, barateou aluguéis para artistas e pequenos lojistas. A partir daí, mais e mais construções, novas e reformadas, ganharam uso misto, residencial e comercial. 
“Serei positiva, mas realista”, começa Jo Buitendach, guia da empresa Past Experience, que promove tours a pé desde 200 rands (R$ 50). “Claro que nem todos os moradores gostam desse processo, e houve expulsão dos mais pobres.” Apesar de reconhecer os problemas, ela se diz uma moradora apaixonada da área. Acaba de defender dissertação de mestrado sobre o bairro e conhece tudo e todos por ali. 
O epicentro do movimento é o conjunto de galpões Arts on Main, que tem nas galerias de arte o seu carro-chefe, e nos empreendimentos nascidos das vocações pessoais e dos projetos de vida a sua razão de ser. O que fica claro logo na primeira parada do tour, a galeria da organização sem fins lucrativos I Was Shot in Joburg.


Trata-se de uma iniciativa para ensinar fotografia a ex-crianças de rua de Johannesburgo, com nome de dupla interpretação (pode significar “fui alvejado em Joburg” ou “fui flagrado em Joburg”). Pelo espaço, estão expostos pôsteres, almofadas, camisetas (desde 280 rands, R$ 70 cada) e muitas, muitas fotos nas paredes pintadas de preto. “Ensinamos os meninos a encontrarem beleza por meio da fotografia, mesmo nos lugares mais duros da cidade”, conta Bernard Viljoen, idealizador do projeto.

Muitos dos alunos estão por ali. Dois deles operam uma Polaroid disfarçada dentro de uma caixa à moda dos antigos daguerreótipos, tirando fotos instantâneas dos visitantes, por 30 rands (R$ 7,50) cada. Um empolgado Bernard me chama para uma foto juntos. Ganho a cópia impressa de presente.

Sempre assim. Domingo é o grande dia no Arts on Main. Subindo e descendo escadas, entrando e saindo de galpões, esbarra-se a todo tempo com artesanato vendido em bancas, esculturas ao ar livre, mostras individuais dentro das galerias, verduras, frutas, pães e doces caseiros de pequenos produtores. 

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Barracas de comida ocupam o pátio central, onde as mesas estão instaladas sob as árvores. O terraço em cima do restaurante Canteen recebe o projeto Rooftop Salsa, criado pelo músico e jornalista Samson Mulugeta, ícone do ritmo na cidade. A juventude local dança com vista para as copas das árvores e os telhados do centro. A festa começa no fim da manhã e segue pela tarde afora, entre rodopios e um pouco de descanso nos sofás do espaço. Ali, gasto bastante tempo apenas observando, na companhia de uma cerveja Swagga Country Ale, artesanal, feita em Johannesburgo.

O clima artístico e cultural se esparrama pelas ruas fora do Arts on Main. Lojas enfileiram itens decorativos, cosméticos artesanais, tecelagem africana, roupas que não se pode encontrar em outros endereços. Há bicicletaria e estúdio de tatuagem. Grifes internacionais passam bem longe, enquanto um mercadinho antiquado resiste como se fosse um contraponto, o atendente conversando com vizinhos na porta. 

Na Rua Kruger há uma fileira de lojas instaladas em contêineres, e um varal de letras que formam o nome do bairro. Na Main Street, o novo restaurante House of Baobab cobra 110 rands (R$ 27) aos domingos para você se servir do quanto quiser de pratos africanos do bufê – ensopado de cordeiro, cuscuz, peixes, espinafre e outros. Ao lado, a Boutique Joburg vende os souvenirs mais bacanas do bairro, de toalhas e almofadas bordadas ou pintadas com frases espertas a bonecas feitas a partir de desenhos de crianças, com renda revertida para organizações não-governamentais.

Por perto, um ambulante assava num latão e vendia na calçada duvidosos espetinhos de churrasco, esfumaçando a vista de um dos vários painéis da artista Hannelie Coetzee espalhados pelo bairro. Em Maboneng, afinal, o negócio é ser criativo. 


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Entre artes e antiguidades, bares para descontrair

Era manhã de segunda-feira, algo que não tem a menor importância quando se está viajando, mas que me foi lembrado pela movimentação de trabalhadores na frente da Amatuli. A loja, enorme nos seus quatro andares, vai crescer mais com o acréscimo de um bar na entrada – obra que estava na fase de empilhar e cimentar tijolos naquele dia. 
Outros dois bares já existem ali. O da cobertura abriga uma festa diurna no primeiro domingo do mês, com vista para um vale verde e a silhueta do bairro de Sandton, o primeiro quando se olha para o sul. O do piso intermediário abre às quartas-feiras servindo champanhe e vinho (35 rands, R$ 8,80 a taça), mojito e as cervejas artesanais que estiverem disponíveis. 
Em comum, os dois têm a cara do tipo de produto que se vende na Amatuli: móveis, antiguidades, bibelôs e quinquilharias africanas em geral. Um achado, lugar ótimo para comprar antiguidades originais e réplicas, presentinhos de baixo custo como bijuterias, e aquisições mais pretensiosas para levar para casa como “a” lembrança da viagem. 
“Coleciono arte africana há anos”, conta o proprietário Mark Valentine. Para ele, “todo lugar neste país é decorado em estilo europeu, como se não tivéssemos identidade”, e é por isso que apresenta pacientemente seu acervo aos compradores. Muitos hotéis e lodges de safári vão ali em busca de itens para decorar seus espaços. A Amatuli fica no bairro de Krammerville, bem no norte – do centro, leva quase uma hora. Site: amatuli.co.za.

*Viagem a convite da Four Seasons e South Africa Airways, com apoio de South African Tourism. 

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