Bruna Toni/Estadão
Grafites cobre parte dos muros de La Tabacalera, um projeto que começou em 2014 Bruna Toni/Estadão

Grafites cobre parte dos muros de La Tabacalera, um projeto que começou em 2014

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Madri: grafites em bairro multiétnico

Atmosfera multicultural transcende os grafites e contempla outras artes, educação, diversidade, crítica social e preservação de tradições

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Grafites cobre parte dos muros de La Tabacalera, um projeto que começou em 2014

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LA TABACALERA E ARREDORES

Distância a partir do Museu do Prado: 1,7 km (20 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 2010, 191 anos depois do Museu do Prado.

O que ver: além do centro cultural, grafites, teatro e arquitetura tradicional espanhola.

Em um diálogo com Salva (Antonio Banderas), Federico (Leonardo Sbaraglia) conta sobre como encontrou, no bairro Embajadores, a peça teatral que contava a história dos dois, ex-namorados, escrita pelo primeiro, um consagrado cineasta em fim de carreira. A cena é do mais novo longa do espanhol Pedro Almodóvar, Dor e Glória.

O filme, um projeto autobiográfico de Almodóvar, é ambientado em Madri e traz entre seus cenários Embajadores, um dos lugares mais autênticos e interessantes para se entender a dinâmica da capital para além de seus trajetos turísticos. Tendo passado por lá, fará todo sentido a você que os dois personagens tenham vivido seus dias de amor - dor e glória - na região e que ela ainda concentre espaços culturais como o pequeno teatro onde a peça é montada.

De onde estava hospedada, num apartamento de temporada do Airbnb, em frente ao Cine Doré, foram 12 minutos de caminhada até o bairro, vizinho a outro com a mesma atmosfera cultural, Lavapiés. Até chegar lá, meu interesse eram os grafites que, sabia, dominavam muitos de seus muros. No entanto, quando me vi subindo e descendo suas ladeiras estreitas e medievais, percebi uma atmosfera multicultural que extrapola a arte da tinta sobre concreto e, ao mesmo tempo, a incorpora como parte de uma proposta mais ampla e moderna de cultura, educação, diversidade, crítica social e preservação de tradições.

Um bom ponto de referência para começar o roteiro a pé - só assim você conseguirá absorver o fascinante clima local - pode ser La Tabacalera. Com 9 mil metros quadrados, o centro cultural autogerido ocupa parte do que um dia foi a Real Fábrica de Tabaco de Madri. 

Criada por Carlos III no século 18, ela fazia parte de uma série de fábricas reais que produziam diversos produtos, de bebidas a tapetes. Muitas delas estavam reunidas justamente nos bairros Lavapiés e Embajadores, já com tradição operária. Encerrou suas atividades no local em 2000, após sua privatização, deixando o enorme prédio de um quarteirão inteiro desocupado. 

O abandono do espaço durou 10 anos até que, depois de um longo processo, passou às mãos do poder público (atrelado ao Ministério da Cultura) e virou patrimônio histórico e Bem de Interesse Cultural. Hoje, a antiga fábrica de tabacos atende pelo nome Centro Social Autogestionado La Tabacalera e se define como “um centro integral que inclui linguagens e modos de expressão, mas também complexidade demográfica, cultural, étnica, de registros e modos de habitar o território e o tempo presente”. Ou seja, está aberta a todo tipo de manifestação cultural e possui programação ampla - consulte em latabacalera.net.  

E mesmo que você não entre no centro cultural - abre diariamente partir do meio-dia -, será possível perceber facilmente a vibe jovem do bairro. À frente da fábrica, por exemplo, está uma escola pública secundária chamada Cervantes, o que faz o entorno ser também de estudantes. E se você der uma voltinha pelo quarteirão da La Tabacalera, vai encontrar nas ruas Miguel Servet e Mesón de Paredes e na Praça Glorieta de Embajadores grafites temporários de diversos artistas. 

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É o projeto Muros Tabacalera, que recupera o exterior do edifício, o convertendo em museu a céu aberto. Quando passei por lá, contudo, dei azar: apenas as extremidades do muro ainda estavam pintadas. Dois homens cobriam de cinza toda a parte central, cena triste não fosse pelo motivo. 

Depois das edições de 2014 e de 2016, chegava a vez de uma terceira leva de 25 artistas mostrar ali sua arte. Bom, azar o meu, mas sorte de quem viajou a Madri depois de mim? Mais ou menos: é que a temática dos grafites deste ano é justamente o… Azar! Para conhecer os artistas e as pinturas desta edição, acesse murostabacalera.com/muros-2019.

Entre os que consegui ver, ainda da edição de 2016, gostei da garota colorida de Julieta XLF; do motivo azulejal assinado por Add Fuel; das formas geométricas intensas de Rubén Sanchez; e dos florais clarinhos de DOA OA - confira todos em murostabacalera.com/artistas2016.

OUTROS MUROS, MUITAS ETNIAS

Antes de chegar ao La Tabacalera, fui parando para contemplar cenas e cenários bastante diversos do que havia encontrado por Madri até então. Embajadores e Lavapiés são bairros fora do centro turístico convencional da cidade, o que ajuda a preservar o aspecto residencial e original de suas ruas e de suas pessoas.

Foi subindo uma de suas ladeiras estreitas, por exemplo, que me deparei com dezenas de homens vestidos de thobe, traje masculino muçulmano. Estavam em grupos, espalhados, circulando por todas as partes. Reparei na arquitetura dos prédios baixos, coloridos, desordenados e preservados. No cheiro de sujeira abandonada de algumas ruas. No comércio que de tudo vendia, a preços mais em conta.

Quando alcancei a rua Mesón de Paredes, um nome de rua francês em plena Espanha, encontrei uma maioria de moradores negros que também não havia encontrado no centro comercial e turístico de Madri. Alguns, com trajes africanos coloridos e tradicionais. Olhei o nome da praça onde havia parado: Nelson Mandela. Estava numa região de imigrantes de muitas partes e diferentes etnias, que chegaram a partir de um processo migratório que começou com a instalação de espanhóis vindos de outras Ccidades do país e, na segunda metade do século 20, seguiu com a de estrangeiros.

A multiculturalidade está em um dia comum na e ao redor desta Praça Nelson Mandela, tranquila e cercada por cafés e bares antigos, frequentada pelo senhorzinho espanhol com seu jornal ao mesmo tempo que por jovens rapazes imigrantes em descanso. Entre eles, há um muro com grafites de temáticas mais políticas e de crítica social - como a de policiais recolhendo pedaços em sangue de uma pessoa no chão ao lado do escrito “corrupção policial” - e uma placa meio apagada indicando que ali é um marco histórico. 

O marco não é o muro grafitado, mas a Corrala de Sombrete, o conjunto de prédios de apartamentos que está atrás dos desenhos e que chama a atenção pela quantidade de portas e janelas incrustados nas paredes amarelas e pelas roupas penduradas nos varais externos. Ela é um exemplo típico das corralas, conjuntos habitacionais populares que foram construídos na região no século passado e que têm como característica arquitetônica edifícios de diferentes tamanhos e um pátio interno comum. Por isso, se tornou Bem de Interesse Cultural em Madri.

Também encontrei uma quadra pública de futsal e basquete onde se lê, em grafite colorido e garrafal, “Lavapiés” e, na Praça Lavapiés, o Teatro Vallle-Inclán, sede do Centro Dramático Nacional, com duas salas de espetáculo. Tivesse eu mais dias, certamente voltaria ali para explorar tantos outros lugares da região, apaixonante na ficção de Almodóvar e na vida real. 

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