Bruna Toni|Estadão
Sala Equis Bruna Toni|Estadão

Sala Equis Bruna Toni|Estadão

Madri: cinemas tradicionais e modernos

Antigos cinemas de rua são revitalizados e dão origem a espaços descolados onde dá para comer e beber, comprar livros, participar de debates e até assistir a filmes

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Sala Equis Bruna Toni|Estadão

SALA EQUIS

Distância a partir do Museu do Prado: 1,4 km (18 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 2017, 198 anos depois do Museu do Prado.

O que fazer: assistir a filmes que mudam de acordo com ciclos temáticos mensalmente, participar de eventos e debates, comer e beber e encontrar amigos para um bate-papo. 

Serviço: Calle Duque de Alba, 4. Domingo a quinta, das 12h à 1h; sextas e sábados até as 2h30. 

A VISITA

Uma das dicas que recebi de amigos antes da viagem a Madri era visitar Malasaña, bairro boêmio e animado da capital. Nas minhas andanças, porém, acabei por descobrir uma outra região com características semelhantes: bares antigos e descolados, muita gente na rua, bancas de flores (que lembram o Largo do Machado, no Rio de Janeiro), lojas de roupa vintage, faixas de movimentos sociais e um nome que, compreenderia depois, tinha tudo a ver com o universo cultural madrilenho: Tirso de Molina

No centro da cidade, o bairro leva o nome de um dos mais importantes escritores espanhóis, contemporâneo de Lope de Vega e Miguel de Cervantes durante o Século de Ouro - ele viveu entre 1579 e 1648. É fruto de sua criatividade um dos personagens mais famosos e sedutores da literatura mundial, Don Juan, que teria aparecido pela primeira vez numa peça atribuída ao autor chamada O Burlador de Sevilha e o Convidado de Pedra ou O Trapaceiro de Sevilha

Passei pelo bairro Tirso de Molina mais de uma vez durante a semana em Madri - no centro da praça, além de uma estátua do escritor, fica também a estação da linha 1-Azul do metrô que leva o mesmo nome - e, em todas, meu desejo foi parar e curtir a movimentação interessante de suas ruas. Foi numa dessas passagens, em direção à Feira do Rastro (leia abaixo), que decidi encontrar pelo caminho um cinema-bar e uma livraria-restaurante indicados por sites espanhóis. 

E os encontrei com facilidade na Rua Duque de Alba. Mas o lugar do cinema não parecia tão convidativo assim: como um comprido espaço de garagem sem carros, ao fundo se lia, num letreiro típico dos antigos cinemas de rua, "Sala Equis". Entrei sem motivo, achando que à frente haveria apenas uma bilheteria e, quando muito, um carrinho de pipoca. Mas a curiosidade de ver como era o lugar para depois da porta preta abaixo do letreiro, mesmo sem expectativas, falou mais alto. Ainda bem. 

Estava lá, de fato, a pequena bilheteria do cinema. Mas, passando por ela, abriu-se um enorme galpão iluminado por luz natural, com plantas correndo as paredes de concreto, cadeiras de praia e guarda-sóis, sofás e um bar-restaurante. 

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Aberta no fim de 2017, a Sala Equis se define, muito precisamente, como “praça coberta de cultura”. Isso porque, além das salas de cinema que exibem filmes selecionados de acordo com cada ciclo mensal de debate e reflexão, possui essa área inusitada e moderna para encontros e eventos, comes e bebes.  

Mas a ideia de cinema naquele endereço é muito anterior à Sala Equis. Tudo começou em 1913, com o jornal El Imparcial ocupando o edifício que, hoje, está dividido em vários empreendimentos. Foi sede da publicação até 1933, para depois, em 1941, se tornar o popular Cine Alba. E foram várias as fases do cinema espanhol: primeiro, filmes do momento; depois, descobertas cinematográficas; e, de 1979 a 2015, cinema pornô. Ficou dois anos fechado até se tornar a Sala Equis, que revive o passado com um olhar do presente. 

Para conferir a programação dos ciclos - que trazem lançamentos -, acesse salaequis.es/ciclos. No site também há o cardápio de drinques e comidas: tapas (pratos para compartilhar), saladas e lanches desde 5 euros. 

O QUE TEM POR PERTO

A Sala Equis está próxima à Feira do Rastro (Rua de la Ribera de Curtidores), um mercado de rua dominical com antiguidades, roupas, brinquedos e outros muitos itens interessantes - começa cedo e vai até 15h mais ou menos. Também está próxima ao bairro boêmio La Latina, onde, entre muitos bares e restaurantes, fica o Mercado de la Cebada (Plaza de la Cebada, s/n), com muros grafitados, comidas frescas, arte e artesanato à venda.

CINE DORÉ

Distância a partir do Museu do Prado: 900 metros (13 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 1912, 93 anos depois do Museu do Prado. 

O que fazer: assistir a filmes da Filmoteca Espanhola, espanhóis e estrangeiros originais.

Serviço: Calle Santa Isabel, 3. De terça a domingo; 3 euros inteira, 2 a meia e grátis para menores de 18 anos. 

A VISITA

Houve uma época em que grandes salões eram o espaço de lazer da alta sociedade. Salões para, entre tantas atividades, assistir a filmes. Um desses salões era o Cine Doré, aberto em dezembro de 1912 na Rua Santa Isabel, com uma sala teatral para 1.250 pessoas e arquitetura modernista do início do século passado.

No centro de Madri, bem próximo à estação Antón Martín, sua fachada em tom rosa alaranjado de 1923, fruto de uma reforma posterior à inauguração, chama a atenção de quem passa pela movimentada rua, com mercadinhos, bares e outros tipos de comércio, além de apartamentos como o que eu me hospedei, reservado pela plataforma Airbnb e bem em frente ao Cine Doré. Foi assim, sendo sua vizinha por alguns dias, que descobri esse importante ponto da cultura madrilenha, com exibição de películas históricas a preços vantajosos (não passa dos 3 euros).

Hoje o local faz o tipo alternativo, voltado a um público específico, mais cinéfilo e fã de longas antigos, mas segue movimentado inclusive em dias de semana. Seu prestígio foi recuperado quando, em 1989, o Estado assumiu o edifício e sua programação, que, entre 1930 e 1960, por conta da decadência da região, acabou perdendo força, se dedicando a relançamentos.  

Atualmente, conta com três espaços de exibição de filmes espanhóis e estrangeiros originais da Filmoteca Espanhola: a sala suntuosa do início do século, reformada; uma sala com a cara dos tempos modernos; e o terraço onde, durante o verão, há sessões ao ar livre. O antigo espaço para fumantes, no entanto, deu lugar a uma livraria e uma cafeteria. Combo perfeito para os amantes de roteiros culturais. 

A programação do Cine Doré está fixada na fachada e pode ser vista também em bit.ly/agendacinedore.  

O QUE TEM POR PERTO Ao lado do Cine Doré está o Mercado Anton Martin, com lugares para comer. Está também na metade do caminho entre o Museu Reina Sofía (8 minutos de caminhada) e a Calle Cervantes (7 minutos), onde fica a casa onde Miguel de Cervantes viveu e morreu e a Casa-Museu Lope de Vega, aberta à visitação. 

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