Bruna Toni/Estadão
A casa onde morou e morreu Lope de Vega é aberta à visitação guiada e gratuita Bruna Toni/Estadão

A casa onde morou e morreu Lope de Vega é aberta à visitação guiada e gratuita

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Madri: teatro e literatura na terra de Cervantes e Lope de Vega

No bairro Las Letras, bem próximo ao Museu do Prado, é possível fazer imersão na literatura espanhola do Século de Ouro

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

A casa onde morou e morreu Lope de Vega é aberta à visitação guiada e gratuita

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CASA MUSEU LOPE DE VEGA (COM PARADA NA CASA CERVANTES)

Distância a partir do Museu do Prado: 500 metros (7 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 1935, 116 anos depois do Museu do Prado. 

O que ver: a casa onde viveu e morreu, no século 17, Lope de Vega, um dos maiores escritores do Século de Ouro espanhol.   Serviço: Calle Cervantes, 11. De terça a domingo, das 10h às 18h. A visita é gratuita e obrigatoriamente guiada, mas é preciso reservar com antecedência. Há tours em espanhol, inglês e português.

A VISITA 

O objetivo era chegar justamente ao Museu do Prado quando o mapa indicou que eu virasse à direita na Calle Cervantes. Dali, bastava descer a rua por cinco minutos e, pronto, estaria no meu destino. Este tempo, contudo, se transformou em meia hora, no mínimo, assim que me deparei com o nome da rua, que leva o de meu escritor favorito entre os clássicos. Num bairro chamado Las Letras e numa rua chamada Cervantes supus que alguma coisa da literatura havia de encontrar ali. E encontrei não uma, mas duas. Ou melhor, dois.

Aqui viveu e morreu Miguel de Cervantes Saavedra, cuja sagacidade admira ao mundo” é o que se lê num edifício amarelo logo no início da rua para quem vai em direção ao Prado. A placa é acompanhada por uma outra com um busto do escritor e ainda uma terceira dizendo se tratar de uma homenagem da Real Academia Espanhola na ocasião do quarto centenário da publicação da primeira parte de Dom Quixote de la Mancha, a obra-prima do novelista. 

Apesar de o edifício estar conservado e, ao lado, o comércio se encher de referências e orgulho de ocupar o mesmo prédio que o mestre espanhol ocupou, não há mais do que a fachada para se ver ali. Quem quiser visitar a Casa-Museu de Cervantes deve reservar um dia para sua cidade-natal, Alcalá de Henares, a meia hora de carro do Museu do Prado. Lá sim é possível adentrar o lugar onde o escritor nasceu, em 1547, e encontrar outras muitas referências dele pela cidade, cujo centro histórico e universidade foram declarados Patrimônio Mundial da Humanidade em 1998. Mais informações em bit.ly/visitaalcala.  

Para quem é fã como eu, o encontro inesperado com a casa de Cervantes já valeu o dia. Mais a frente, contudo, palavras gravadas no chão da rua me fizeram parar novamente. “Nesta casa viveu e morreu, em 26 de agosto de 1635, Lope Félix de Vega e Carpio, chamado ‘a fênix da sabedoria’, cuja fecundidade literária transpassou o limite do crível e cultivou todos os gêneros da literatura”. 

O DRAMATURGO E O NOVELISTA

Para nós, brasileiros do século 21, Miguel de Cervantes é a figura mais famosa da literatura espanhola. Mas, no início do século 17, em pleno Século do Ouro, quem ocupava essa posição de prestígio era o dramaturgo Lope de Vega, cuja casa-museu, essa sim, encontra-se (ironicamente) na Calle Cervantes - mas há uma Calle Lope de Vega também, paralela à Cervantes. Ironicamente porque os dois escritores, apesar de contemporâneos e vizinhos, ficaram também conhecidos pelas alfinetadas que trocaram quando vivos. 

Lope de Vega, que passou por diversos gêneros, do lírico à prosa, ganhou fama sobretudo com suas peças teatrais e, quando conheceu Cervantes, já era um nome aclamado. Os dois até chegaram a ser amigos, dedicando versos um ao outro. Mas a amizade terminou quando Cervantes, que, ao contrário de Vega, vivia na penúria, conseguiu finalmente emplacar uma obra: a primeira parte de Dom Quixote. Vega, não se sabe se por inveja ou por gosto, criticou publicamente o escrito do colega, dando início ao conflito literário espanhol. 

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A CASA DE LOPE DE VEGA

“Dizem que um bom novelista nunca poderá escrever uma boa peça e vice-versa”, explica a guia da Casa-Museu Lope de Vega, respondendo à pergunta sobre a relação dos dois autores feita por um dos visitantes. Com uma outra versão, ela traz uma informação importante para o contexto: Cervantes teria desejado, sem sucesso, ser dramaturgo, pois era o teatro, não as novelas, que dava dinheiro à época. Estava posta a discussão moderna sobre cultura e mercado. 

São os bastidores da vida de Vega, cuja emoção vai muito além da polêmica com Cervantes, que dão vida ao trajeto de cerca de 40 minutos pelo sobrado onde ele viveu por 25 anos. Além da popularidade profissional, foi sacerdote, mas teve diversos casos amorosos e filhos. Morreu aos 72 anos, idade avançada para seu tempo.  

O encontro com o guia é no jardim interno, uma área aberta mesmo a quem não quer conhecer a residência, construída em 1578 como exemplar suntuoso da arquitetura da época e adquirida por Vega em 1610. De lá, vamos às antigas escadas que levam aos cômodos onde viveu o escritor. Antes de subir, preste atenção à maquete de um típico corral de comédia. Eram nesses espaços cênicos - que começaram nos pátios das casas, depois dos palácios e, enfim, se tornaram locais construídos especialmente para o teatro -, cercados por plateia e a céu aberto, que as apresentações ocorriam. 

Depois de tantos anos e muitos donos, os móveis que pertenceram a Vega se perderam, mas os que hoje estão em exposição são originais da época. O mesmo vale para os mais de 1.500 livros que, segundo a guia, ele teve e que acabaram sumindo. “Esses dos armários são do século 17, doação da Biblioteca Nacional”. 

Os armários, por sua vez, compõem a sala que seria seu escritório, com tapeçarias, objetos, roupas de culto e imagem de santo, pinturas procedentes do Museu do Prado e do Convento das Trinitárias. Nesse espaço Lope de Vega produziu muitas de suas obras, como La Dorotea e Fuenteovejuna - segundo ele declarou, foram 1.500 peças de teatro, das quais 500 estão conservadas e 314 com autoria confirmada. “Em uma noite ele era capaz de escrever uma comédia. Acredita-se que foram 800 do gênero”, nos conta a guia, passando para o cômodo seguinte, um estrado de madeira, de estilo oriental e típico no Século de Ouro, considerado feminino: era utilizado por mulheres para bordar, rezar, ler...

Depois seguimos à alcova, um quarto estreito e sem janelas para o exterior. Um pequeno quadrado aberto para o interior da casa dava visão central à capela. Assim, já ancião, Vega conseguia acompanhar as missas da cama. Foi nesse mesmo lugar que ele morreu, em 1635.

No mesmo piso há ainda os quartos das filhas, a cozinha e a sala de jantar. Um andar acima, ficam os quartos dos filhos de Vega - preste atenção a um cinturão utilizado por crianças para espantar a má sorte, que aparece pintado em retratos de infantes no Museu do Prado também. Ali também estão a alcova das funcionárias e um quarto de hóspedes que tem história curiosa.

Como a guia recordou, na época de Vega, todo madrilenho com casa grande era obrigado a receber funcionários reais que viajavam à cidade. Em uma ocasião, Lope teria recebido o popular Capitão Contreras, militar aventureiro que escreveu sua autobiografia, encontrada em 1905, citando os meses vividos com o escritor:  "Sem ter falado com ele em minha vida, ele me levou para sua casa (...) E ele me teve por seu companheiro por mais de oito meses, me dando almoço e jantar, e até o que vestir ele me deu. Deus lhe pague!”.

Visita terminada, ficamos livres para percorrer o jardim, onde Vega gostava de escrever suas poesias, e uma pequena e muito interessante exposição sobre a história do teatro e sua relação com as obras do dramaturgo espanhol, encenadas em diferentes momentos históricos e o países - da Alemanha fascista à União Soviética. Prova da universalidade de seu legado.

PARA SEGUIR NO TEATRO E NA LITERATURA

Há ainda um outro escritor do Século de Ouro espanhol que merece atenção pela vasta produção - e batiza uma estação de metrô madrilenha e o bairro onde ela fica, um mais alternativos de Madri: Tirso de Molina (1581-1648). 

É fruto de sua criatividade um dos personagens mais famosos e sedutores da literatura mundial, Don Juan, que teria aparecido pela primeira vez numa peça atribuída ao autor chamada O Burlador de Sevilha e o Convidado de Pedra ou O Trapaceiro de Sevilha. Nós falamos mais sobre o bairro que leva o nome de Tirso de Molina neste especial, confira aqui.

E para conhecer mais sobre a história do teatro espanhol e dos tradicionais corrales, faça uma visita à Cidade Real de Almagro, a 2 horas de carro de Madri, e visite o Museu Nacional do Teatro.

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