Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Maiô, protetor solar e democracia

Plural: a praia te respeita seja qual for sua cor, sua classe social, sua orientação sexual, sua ideologia

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2018 | 03h05

Escolhemos uma mesa perto do mar e da sombra, já que nem todos são simpáticos ao sol atiçando a melanina. A praia estava relativamente vazia, mas não havia tantas opções de mesa. O que havia de monte era pombo à procura de alimento. Nosso grupo, por consenso, era a favor daquela recomendação geral de não alimentá-los por motivo de saúde. Mas nem todos naquele espaço compartilhavam daquilo que, achávamos, deveria ser senso comum. 

O grupo ao lado, maior do que o nosso, se divertia justamente alimentando os pombos, o que atraía vários deles até os nossos pés. Tentamos caretas de desaprovação. Pedimos ajuda ao garçom do quiosque. Foi a vez deles fazerem caretas. O mais velho continuou a lançar migalhas. Foi só quando decidimos mudar de mesa que ele, enfim, decidiu parar. 

Noutra ocasião, lembro da frase: “a praia é de todo mundo”. O problema da vez era o som alto que vinha do rádio no guarda-sol ao lado, atrapalhando nossa leitura. Mais uma vez, contamos com o senso comum. Concordamos com a moça que aquele espaço era de todos. E que, por isso, tínhamos igual direito a desfrutar das areias como achássemos melhor, cada um do seu jeito – era só ela reduzir o volume. O que fez, muito provavelmente a contragosto, como quase todos ficamos quando somos obrigados a ceder um pouco.

No litoral da Paraíba rolou algo inédito para mim: estava numa praia nudista pela primeira vez. Funcionava de maneira simples: quem não quisesse tirar a roupa, ficava do lado A; quem quisesse, seguia para o lado B. Ali, o bom senso estava em respeitar as escolhas do outro. Se o frequentador naturista não podia se despir onde todos preferiam estar vestidos, quem optasse por ir ao lado nudista da praia também deveria tirar suas roupas para não constranger quem estava nu.

Não sei quantas histórias tenho para contar desse espaço público chamado praia. Com certeza o leitor também tem muitas, especialmente os que dizem respeito à convivência com outros frequentadores, às vezes pouco amistosa, às vezes tão promissora que até nos brinda com novas amizades. Tudo porque talvez seja ela, a praia, o espaço mais democrático que ainda temos no universo dos lugares onde podemos ir e, consequentemente, das viagens.

Há conflitos e divergências na praia, é verdade. Penso que são exatamente elas, e não tanto as convergências, que a tornam mais democrática. Ainda que haja, pelo mundo, praias privatizadas e socialmente segregadas, sabemos que em suas areias e na imensidão da água sempre caberá mais um, quer a gente goste disso ou não. Por natureza plural, a praia não poderia nunca ser dividida em business class e classe econômica, oferecendo menos espaço para a maioria. A praia não proíbe ninguém de vê-la porque a vestimenta está inadequada, nem exige consumação apenas para se respirar nela. Ela oferece o mesmo acesso a todos e dispensa mensalidade para te deixar dar um mergulho ou jogar voleibol. A praia te respeita seja qual for sua cor, sua fé, seu gênero, sua orientação sexual, sua nacionalidade, sua conta bancária. 

Hannah Arendt, filósofa alemã, pensava como os gregos e dizia que a democracia é feita no espaço público, por intermédio da palavra, não da violência. Diante de um mundo de intolerância, desrespeito à existência do outro e substituição do diálogo pela agressão moral e física, percebo que perdemos a chance de aprender com a praia, onde o coletivo é, sim, mais necessário do que o individual. E que a falta de mais espaços democráticos como o da praia tenha como uma dura consequência o fato de termos, muitos de nós, aprendido mais sobre esbravejar preconceitos totalitários do que sermos, antes de mais nada, cidadãos.

*Escreva para viagem.estadao@estadao.com.

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