Mais perto de Poseidon do que da Comunidade Europeia

A caixa postal do homem mais viajado do mundo anda entupida de questões relacionadas às crises econômicas de algumas nações, inclusive o Brasil. Infelizmente, o tom dessas cartas é abertamente pessimista - veem as coisas a partir de um único ponto de vista. "Não os condeno de agirem dessa forma, my friends. Mas, como sempre digo, a energia ruim é um ótimo combustível para produzir mais energia ruim. E só!", comenta mr. Miles.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2015 | 02h04

A seguir, nosso correspondente responde a uma dessas missivas:

Querido mr. Miles: crises por aqui, crises na Grécia, crises em muitos lugares... Não fica difícil viajar nessas circunstâncias?

Cintia Orlandi, por e-mail

"Well, my dear Cintia: sempre que ocorre algum mal-estar, de pequenas ou grandes proporções, na economia de um país, diz-se que é preciso fazer da crise uma oportunidade. In fact, nem é preciso fazê-lo: os fornecedores de nossos sonhos, atentos aos números ruins, já o fazem por nós.

Alguns ótimos amigos que tenho no Brasil - e que pretendo visitar em breve - têm-me contado sobre alguns preços disponíveis no mercado de viagem, que é, of course, o que nos interessa. Os destinos brasileiros, animados pelo aumento do dólar, já estão começando a perder suas vantagens relativas porque têm ido com muita sede ao pote.

Já as passagens aéreas internacionais, as they told me, despencaram de preços com a velocidade e o fulgor de estrelas cadentes. A tal ponto que a desvalorização do real diante do dólar americano já se tornou, in fact, um ganho genuíno para quem sai mundo afora.

Dê uma olhada nos planos que você fazia para o futuro, já que ainda não era a hora. Aquelas ideias que aparentemente ficaram ainda mais remotas com a crise econômica. I dare to say que o presente crítico, in some cases, antecipou o futuro promissor. É, indeed, um ótimo momento para viajar.

O raciocínio que, humbly, lhes apresentei, é o mesmo que se aplica a países que, por motivos diversos, aparecem sem parar na mídia mundial por fragilidades temporárias, curtas ou longas. A Grécia, for instance. Acompanho seus problemas e já cheguei a abrir uma velha caixa de dracmas, just in case. Mas supor que a pátria da democracia e dos deuses mitológicos tenha que ser provisoriamente banida do universo de suas aspirações é como negar que foi ali que nasceram os Jogos Olímpicos.

Vejamos: a crise não afetou os olivais, o que é garantia de azeites de qualidade. O Parthenon segue em ruínas - e ninguém, nowadays, terá esdrúxulos planos de restaurá-lo, como já se fez, unfortunately, com o Palácio de Knossos, em Creta. O mar Egeu segue profundamente azul e cristalino, suas milhares de ilhas vivem mais perto de Poseidon do que da Comunidade Europeia e a escassez de viajantes abaixou os preços de forma geral. O ouzo - um destilado local à base de anis - segue traiçoeiro e o tema de Zorba, O Grego, continua tocando nos restaurantes até a saciedade. Os helênicos, que já cultivavam uma certa rispidez em relação ao turistas germânicos, não devem mudar para melhor sua atitude. E, com essa crise, ninguém ousará pintar de cores berrantes os lindos povoados brancos que existem por toda a parte. Em outras palavras, dear Cintia: viajar para a Grécia, agora, é uma decisão tão sábia quanto as de Platão - e ainda é a melhor maneira de ajudar em sua recuperação. Don't you agree?"

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos

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