AP
AP

Mais que relógios derretidos: o 'Triângulo de Salvador Dalí' na Espanha

Cidades de Pubol, Figueres e Cadaqués guardam obras do artista surrealista

Dana Schimmel, Associated Press

21 Junho 2018 | 06h00

Se o nome Salvador Dalí te faz lembrar de imagens de relógios derretendo e um bigode chamativo, mas não muito mais do que isso, então a visita pelo "Triângulo de Dalí", na Espanha, não será apenas uma fantástica road trip, mas te mostrará também que há muito mais a saber sobre o trabalho do renomado artista surrealista.

As casas de Dalí, transformadas em museus, estão localizadas ao longo da Costa Brava, uma área costeira de quase 160 quilômetros no nordeste da Catalunha. Planeje uma viagem de carro com paradas em Pubol, Figueres e Portlligat - as três pontas do triângulo - para visitar museus, ver as obras de Dalí e cenários naturais impressionantes que ajudaram a inspirar um dos artistas mais icônicos do mundo.

Pubol: Castelo-museu Gala Dalí

Dalí comprou um castelo medieval na vila de Pubol para a sua esposa Elena Ivanovna Diakonova, mais conhecida como Gala. O casal mudou a construção, e transformou o castelo do século 14 em uma casa onde Gala poderia reinar e relaxar. Seu marido só era permitido visitar se recebesse um convite por escrito. 

Muitas obras de arte, incluindo pinturas que Dalí deu de presente para a esposa, estão em exposição junto a itens pessoais que vão desde talheres de prata com monogramas, vistos em uma gaveta entreaberta na cozinha, até o Datsun laranja de Gala que está estacionado na propriedade. E há este excêntrico artefato: o amado cavalo branco de Dalí, empalhado, próximo aos banheiros do museu.

O último andar tem uma coleção de vestidos de alta-costura de Gala. O porão é hoje a sua morada: seu corpo está em um mausoléu que é vigiado por uma girafa de brinquedo, que, surpreendentemente, é mais comovente do que trivial.  

Figueres: Teatro-museu de Dalí e suas joias

Figueres, que recebeu este nome por causa das figueiras que já foram abundantes na região, é uma cidadezinha agitada a cerca de 40 quilômetros ao norte de Pubol. Você saberá que chegou quando ver uma cúpula gigantesca ou uma coleção de ovos imensos no alto de um prédio. Isso, claro, é o Teatro-Museu de Dalí, que o artista projetou a partir do que sobrou do teatro municipal da cidade. 

Se não fosse pelo fluxo de visitantes que te empurra pela galeria de sentido único, você poderia passar horas, dias ou a vida toda observando e analisando algumas das 1.500 obras de arte de Dalí - pinturas, desenhos, esculturas, gravuras, instalações, hologramas, imagens estereoscópicas e fotografias.

Alguns trabalhos farão você sorrir, como o "Sofá-lábios de Mae West", uma escultura do tamanho de um sofá inspirada nos lábios da famosa atriz. E há o "Táxi Chuvoso", que pelo preço de um euro fará com que chova dentro dele mesmo, molhando seus passageiros-manequins e as plantas e caracóis ao longo do passeio.

Outros trabalhos são silenciosamente bonitas, como o retrato a óleo da irmã de Dalí, Anna Maria, olhando por uma janela para o mar e as falésias de Cadaqués. Mas algumas pinturas são tão violentas, macabras, intensas e complexas que não seria uma má ideia pendurar um aviso dizendo: "Entre por sua conta e risco". Os desenhos de Dalí me lembraram como ele era um mestre nesta arte, e foi bom ver várias pinturas com o familiar relógio que foi um dos motivos mais famosos e presentes na sua obra.

Ao fim de sua jornada pelo museu, talvez parando para pagar tributo à tumba de Dalí - que foi exumada em 2017 para um teste de paternidade (que deu negativo) - você terá visto tanta coisa que poderá parecer um pouco demais para digerir. Mas não deixe de visitar o museu das joias de Dalí! Visitar esta pouco iluminada galeria que parece uma caverna e que abriga 39 obras feitas com joias é como observar um baú de tesouro de um pirata.

Se eu pudesse escolher uma obra para a minha coleção pessoal, eu escolheria os "Lábios de Rubi", feito com ouro 18 quilates e com mais de 100 rubis e com 13 pérolas brancas formando dentes, ou os "Brincos de Telefone", feitos de ouro, diamantes, rubis e esmeraldas. Eles são sublimes e divertidos, mas não bobos.

 

"Estarei satisfeito se meus brincos de telefone com joias provocarem sorrisos", disse Dalí. Um sorriso é uma coisa agradável. Mas estes brincos, assim como todas as minhas joias, são sérias. Os brincos representam um símbolo de harmonia e unidade. A conotação é de velocidade na comunicação moderna, a esperança e o perigo da troca instantânea de pensamento." 

Cadaqués: Casa Portlligat de Salvador Dalí 

A leste de Figueres há a vizinhança montanhosa de cidades costeiras de Cadaqués e Portlligat. Dalí passou férias aqui com sua família quando era menino e, mais tarde, transformou uma cabana de pescadores em uma ampla casa.

Ao entrar na casa, agora um museu, você verá um urso polar empalhado. Então, passando por corredores estreitos e sinuosos, que imitam as estradas que levam até a casa, você chega a um espaço branco ensolarado cheio de surpresas: corredores sem saída e uma sala com cortina rosa que faz eco, mas só se você se posicionar no lugar correto. Carpetes grossos de sisal, ramalhetes de flores secas, mais animais empalhados, conchas e estrelas-do-mar, móveis antigos e fotos de Dalí no seu apogeu enchem o lugar. 

As janelas desniveladas enquadram perfeitamente a paisagem lá fora, que foi tantas vezes reproduzida em seu trabalho. Prateleiras com seu material de pintura podem ser vistas embaixo de uma escada adjacente ao studio. Lá fora, há um terraço murado, uma piscina, um jardim florido, oliveiras e esculturas e instalações. Esta terceira ponta do "Triângulo de Dalí" é cheia de arte por dentro e por fora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.