Gilmar Gomes/Divulgação
Gilmar Gomes/Divulgação

Mão na taça

O dialeto italiano da região do Vêneto e o ofício de fazer vinho são os dois maiores orgulhos dos moradores da Serra Gaúcha. O primeiro está cada vez menos fluente na boca dos netos e bisnetos de imigrantes que chegaram à Região Sul do País no século 19. Já a vitivinicultura ganha profissionalismo, atraindo centenas de milhares de turistas todos os anos para o Vale dos Vinhedos, que abrange Bento Gonçalves e arredores.

ARTUR RODRIGUES , BENTO GONÇALVES, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2012 | 02h11

Em setembro, a região realizou um feito inédito no País. O vinho produzido ali recebeu oficialmente a primeira denominação de origem (DO), a mais alta normatização da categoria, comum em várias regiões da Europa, como as francesas Borgonha e Bordeaux. O selo garante, entre outras coisas, que as bebidas foram feitas com uvas locais e que carregam uma identidade comum - o chamado terroir, como os franceses designam o conjunto de características geográficas, como o tipo de terra e o clima, e culturais de uma região.

Além do vinho, o visitante também pode se deliciar com a paisagem de colinas tomadas por vinhedos, casinhas de madeira com chaminés e ovelhas pastando. Ao longo das estradas estreitas, há vinícolas de todos os tamanhos. A maioria delas não cobra pela degustação. As visitas guiadas incluem passeios pelos vinhedos e incursões às frias caves subterrâneas, onde os vinhos são envelhecidos.

Terceira geração de uma das famílias locais que vivem da uva, o presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), Rogério Valduga, se orgulha de ser o dono da menor vinícola da região, a Torcello. Lá, apenas três barris de carvalho são usados para envelhecer parte das 10 mil garrafas anuais produzidas artesanalmente. Algumas das bebidas vêm de videiras de 102 anos de idade, plantadas pelo avô quando chegou da Itália. Para ele, o ambiente carregado de tradição familiar é o principal atrativo para os visitantes. "Queremos que as pessoas venham fazer parte da nossa rotina, que andem com a gente no parreiral."

A alta estação é o inverno, quando muita gente usa a região como roteiro complementar da badalada Gramado. De janeiro a março, no entanto, os turistas podem vivenciar o maior acontecimento da cultura do vinho: a vindima, a colheita da uva. Período ideal para experimentar o produto com maior aceitação da região, o espumante. Na Pizzato, por R$ 165, além de colher e pisar as uvas como se costumava fazer antes da industrialização do processo, os visitantes participam de uma refeição harmonizada com vinhos.

Nas lojas das vinícolas é possível pedir dicas para o próprio produtor da bebida. Na Dom Cândido, Cândido Valduga, de 81 anos, patriarca da família que dá nome aos vinhos, ainda atende a clientela e fala de sua longa paixão pelo cultivo da uva. Mesmo tendo nascido no Brasil, seu sotaque italiano e sua boina lembram os colonos que chegaram à região no fim do século 19. "Comecei a ajudar meu pai com oito anos. A gente trabalhava muito. Só parava quando escurecia e só descansava no domingo", lembra.

Quem quiser voltar ao passado tem como opções o passeio de Maria Fumaça e o espetáculo Epopeia Italiana, que mostra a saga dos primeiros colonos. Já para ter ideia de como se produz vinho em larga escala, a moderníssima fábrica da Miolo é uma das maiores do Vale dos Vinhedos.

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