Matt 'Frugal' Gross diz até logo

Colunista resume sua experiência de 4 anos à frente de uma das seções mais populares do 'The New York Times'

Matt Gross / NYT, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2010 | 01h51

Seis anos atrás, eu tinha um emprego convencional, num escritório. Ficava lá de 9 a 10 horas por dia, conseguia viver de forma decente e eventualmente achava o trabalho interessante. Mas estava entediado. Talvez muitos de vocês se sintam assim: naquela época, eu vivia só por uma ou duas semanas no ano em que podia explorar o mundo.

Em algum momento, não consegui mais. Economizei US$ 5 mil e pedi demissão para viajar pelo Camboja e pelo Vietnã. Meu plano era passar alguns meses fazendo pesquisas para um romance, depois voltar e... não tinha pensado nesta parte. Mas, por um golpe de sorte, comecei a escrever para o The New York Times e, um ano depois, me ofereceram a coluna Frugal Traveler. O resto é passado. Assim como agora é passado minha carreira como colunista. Após quatro anos, passo a braçadeira de Frugal Traveler. Mas, antes, gostaria de dividir o que aprendi.

O conceito varia. Desde o início, a coluna se debateu com o que é econômico. Quando comecei, publicava opções para viagem de fim de semana por US$ 500, em algum lugar que esse valor não parecesse suficiente.

Em 2006, porém, quando estava planejando minha primeira grande viagem de verão - Volta ao Mundo em 90 dias -, notei que o orçamento teria de mudar. Caso contrário, gastaria US$ 20 mil! Mas o que pode ser considerado econômico para 90 dias em 12 países? Defini US$ 100 por dia. Claro que meus leitores falaram: "Como você pode se achar um viajante econômico?"

Rapidamente, notei que cada viajante tem um conceito diferente de "econômico". Para muitos, isso é sinônimo de albergues e comida de supermercado. Outros acreditavam ser uma busca por cupons de descontos. Para mim, o conceito se dividia em dois. Primeiro, o de valor. Geralmente, reluto em gastar. Se algo tiver uma boa relação custo-benefício, aí abro a carteira. Mas o mais importante é notar que o orçamento não determina a qualidade da experiência de viagem. Para viajar bem, você precisa de mente aberta, energia, paciência e vontade de entrar em contato com o diferente. Nenhum dinheiro compra essas coisas.

Qualquer destino. Sempre me perguntavam quais eram os lugares mais baratos. Claro, países em desenvolvimento - especialmente na América Central, no Sudoeste da Ásia e na Índia - são conhecidos como locais acessíveis em termos de preço. Mas também achei barganhas incríveis em Veneza, Paris e Dubai. O fato é que você pode ser frugal em qualquer lugar. A estratégia para achar barganhas e reduzir custos são as mesmas em Bangcoc ou São Francisco.

Primeiro, priorize: o que é mais importante para você: acomodação, comida, compras ou museus? O.K., separe a maior parte do dinheiro para isso - e não se preocupe muito com os demais itens. Depois, como os cinco-estrelas estão fora de questão, pense em alternativas interessantes. Uma vez em Roma, os hotéis estavam muito caros. Fiquei, então, num convento que encontrei no MonasteryStays.com. Não era perfeito, mas foi fascinante como experiência. Finalmente, não tente fazer muito. Aproveite. Respire.

Amigos são valiosos. Por mais que a internet ajude, nada vai fazer você economizar mais - ou tornar sua experiência de viagem mais gratificante - que amigos. Desde o início, também apostei em amigos de amigos para dicas, conselhos e companhia. Antes de qualquer viagem, enviava e-mails perguntando se os meus conheciam alguém em Punta del Este (ou Mumbai ou Istambul). Na maioria das vezes, conseguia uma resposta positiva, mesmo que um contato de terceiro grau. Atualmente, uso o Facebook para fazer contato. O Twitter não é bom para isso.

Melhor ainda foi o CouchSurfing.org, que me deu os melhores amigos de viagem. Na Romênia, por exemplo, conheci Horia Diaconescu, com quem percorri Bucareste. Após dois anos, continuamos em contato - e ele até me indicou um amigo em Paris. Mas mesmo sem a ajuda do CouchSurfing, do Facebook e de amigos dos amigos, consegui me conectar com as pessoas nos locais mais distintos.

Do que me arrependo. Após tantas viagens, há poucas coisas das quais me arrependo - não as que fiz errado, mas as que não tive a chance de fazer. Como relaxar. Algumas vezes, estava numa praia (França, Grécia, Malta...) e queria ficar por ali mesmo, deitado na areia. Mas logo pensava que, se eu não fizesse algo, não teria sobre o que escrever. Daí eu partia ansioso - e ainda não suficientemente bronzeado.

Mais que tudo, me arrependo dos lugares que nunca visitei. Sim, estive em toda a Europa, em grande parte da Ásia, da América do Norte e do Caribe. Mas da América do Sul, só fui à Argentina e ao Uruguai. E, fora antigas repúblicas soviéticas, como a Geórgia, nunca estive sob influência russa.

Para esse viajante, o Oriente Médio se resume a Dubai. E, a não ser por um dia em Fez, no Marrocos, deixei de ver quase todo o continente africano. E nem passei perto de Austrália e Nova Zelândia. Felizmente, tenho mais algumas décadas a preencher. Apesar de não ser mais o Frugal Traveler, continuarei viajando - e dependendo de seu ponto de vista, um ponto de vista econômico.

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