MAURITSHUIS A volta dos clássicos

Não era uma pré-estreia cinematográfica, mas não deixava de ser. Moça com Brinco de Pérola retornava à sua casa depois de provocar filas homéricas em fãs ocidentais e orientais, gente como o 1,2 milhão de japoneses que replicaram 2,4 milhão de vezes no Facebook a emoção de ver ao vivo a inspiração do filme de Peter Webber.

O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2014 | 02h06

Audioguia em mãos, lá fui eu e mais um tanto de espectadores ao segundo andar do Mauritshuis. Direto ao ponto, direto a Vermeer, direto ao mistério. Ao ver um naco do turbante azul, me emocionei. Meisje met de Parel, seu nome em holandês, me olhava de lado sobre o fundo preto, a boca entreaberta querendo dizer sabe-se lá o quê, um ponto branco em cada junção dos lábios, a sombra na maçã esquerda do rosto e um foco de luz saindo do brinco de gancho. "Parece mais prata que pérola", pensei, meio em dúvida quanto às minhas referências de joalheria. Falando em referências, lembrei de imediato o que tinha lido sobre Vermeer: um dos raros artistas cujo trabalho transcende tempo e espaço.

Transcendeu, por supuesto. Mas o fato de Vermeer voltar a seu país deu outro tom à visita. O pertencimento fez com que tudo se encaixasse, incluindo a reforma de 30 milhões pela qual o museu Mauritshuis passou durante dois anos. O casarão do século 17, no centro de Haia, mudou as janelas e a climatização e transcendeu a sua imexível porta-com-porta com o Parlamento holandês para a porta do vizinho do outro lado, um prédio do princípio do século 20, onde foram acomodadas oficinas e biblioteca e onde ficarão as exposições temporárias.

De acintosamente diferente no prédio original, apenas o elevador transparente que une a rua ao lobby subterrâneo, no qual estão a lojinha, a cafeteria e a nova entrada de acesso aos dois edifícios. Mudanças sutis reavivaram as paredes e o teto, e a iluminação valorizou não só a Moça mas todas as demais obras da Era de Ouro neerlandesa - entre elas Lição de Anatomia, para a qual seguiram os aficionados por Rembrandt, e O Pintassilgo, de Carel Frabitius, cujo interesse tem tudo a ver com o best-seller de Donna Tartt (The Goldfinch), vencedor do prêmio Pulitzer de 2013, que a Companhia das Letras lança em setembro.

No livro, um menino de nome Theo sobrevive ao atentado a um museu no qual morre sua mãe e do qual ele leva uma obra que ela amava - O Pintassilgo. "O quadro o arrastará para o submundo da arte", anuncia a sinopse, sinistramente. Uma curiosidade: tente achar o Pintassilgo no filme de Weeber; ele está lá, contracenando com Scarlet Johannson.

Intimista. Não é à toa que tais pinturas atraem romancistas (o filme de Webber se inspirou no livro de Tracy Chevalier). A diretora do museu, Emilie Gordenker, lembra que muitas obras dessa época não exigem conhecimento religioso nem mitológico. Refletem cenas do cotidiano burguês, o mundo doméstico, uma atmosfera mais íntima que, aliás, o Mauritshuis também cultiva. As salas do museu são pequenas, e você pode chegar perto do seu objeto do desejo sem pito nem apito.

Mas Emilie atina para um problema, se esse sucesso todo transbordar. Antes da reforma, diz ela, a audiência era de 260 mil visitas ao ano. Longe deles chegarem a 1 milhão de pagantes. Esse povo prima pela qualidade, não pela quantidade, pensei. Povo sensato, justo e esperto, o povo de Haia.

Mais: mauritshuis.nl; 14

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