Me leva na mala?
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Gilberto Amendola
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Me leva na mala?

Para Gilda, essa pergunta não era apenas uma força de expressão. Ela levava a frase literalmente

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 07h00

“Me leva na mala?” Como todo mundo sabe, essa pergunta é apenas uma forma de demonstrar certo interesse pela viagem alheia, um jeito de dizer algo como “poxa, queria muito ir com você”. 

A situação era ligeiramente diferente quando quem fazia esse tipo de pergunta era a personagem que você vai conhecer a seguir.

 Gilda foi artista circense. No circo, já fez de tudo um pouco. Foi mágica, domadora de leões (em uma época que ainda era aceitável usar animais para esses fins), atiradora de facas, falsa mulher barbada e contorcionista.

Nesta última função, Gilda sempre foi a melhor. Gilda era maleável, dobrável, feita para caber nos lugares mais insólitos que se possa imaginar.  

Sabe-se lá se o que Gilda tinha no corpo eram de fato ossos. O mais provável era que fosse algo molenga, uma geleca (ou slime, para entrar na onda do momento), canudinhos de plástico ou algum similar ecologicamente correto.

Gilda era quase como um origami.

Tanta maleabilidade despertou o interesse do palhaço Braduque. Não falo aqui de interesse estritamente profissional. Não, não, senhores. O que Braduque queria era saber se a mulher sem ossos também era capaz de se desdobrar em situações, digamos, muito mais carnais.

Braduque, o palhaço xavequeiro, cascateiro, galã do baixo clero, encheu a cabeça de Gilda de salamaleques e de poemas de duplo sentido.

Não demorou, e ela estava se dobrando e redobrando nos braços do palhaço.Virou paixão. Virou leão. Virou bagunça.

Mas, sabe como é, palhaço não curte compromisso. Depois de seis meses de travessuras e dobraduras resolveu dar no pé. Subiu em um ônibus e foi ganhar a vida em outra cidade.

Ao chegar no muquifo, jogou a mala sobre a cama e, de dentro dela, viu pular plena e poderosa a nossa Gilda.

Seguiu-se uma discussão acalorada sobre responsabilidades, amores líquidos e excludente de ilicitude. Que tenham, ao fim e ao cabo da discussão, terminado nos braços um do outro é sabido apenas por orelhada – mas os lençóis dessas espeluncas não costumam repassar fake news.

Na manhã seguinte, Braduque pôs os pés na estrada outra vez. Ao chegar no próximo destino, notou que trazia consigo, dobradinha na mala, a própria Gilda. Brigaram outra vez. Amaram-se outra vez. 

Gilda deu um ultimato: ou me ama ou eu (“me” ou “te”) mato. Há relatos dessa mesma história com as duas versões. 

Braduque não se emendou. Depois de três dias, pegou outro trem para não sei onde. Ao se instalar em um hotel pulguento notou que dentro da mala estava ela, a nossa Gilda.

A situação se repetiu muitas e muitas vezes. Tornando-se, com certeza, um joguinho sensual entre Braduque e Gilda. 

Mas um dia, um dia em que, dizem os astrólogos, Netuno estava retrógrado, Gilda acordou decidida: “Agora quem vai na mala é o senhor”.

Ave Maria, Braduque riu de se esbugalhar: “Quero ver me colocar dentro da mala...”.

Pois é...Detalhes do acontecido ninguém sabe ao certo. O único registro conhecido é um boletim lavrado na delegacia da última cidade em que Braduque foi visto por inteiro. 

Ele coube na mala.

Desmontado.

Gilda foi presa, mas não puxou muito tempo de cadeia.

Fugiu na mala de uma carcereira. 

E nunca mais foi vista. 

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