Medellín, o destino do ano

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2016 | 05h00

A uma atenta plateia de duas centenas de estudantes, nosso bravo viajante ofereceu uma palestra de duas horas no lindo auditório da Universidade Jaguelônica de Cracóvia. O tema lhe caiu como uma luva, O homem universal, pedia o professor Schumsky, com o objetivo de ouvir as viagens de Mr. Miles e, ao mesmo tempo, trazê-lo às considerações sobre os malefícios das fronteiras e das bandeiras. Ovacionado por mais de dez minutos, nosso colaborador foi, em seguida, jantar no bairro de Kazimierz, onde ouviu lindas músicas klezmer.

A seguir, a pergunta da semana: 

Mr. Miles: aproveitando esta edição com os melhores destinos para 2017, o senhor não gostaria de falar sobre o assunto em sua coluna?                      

Adriana Moreira, por e-mail

Well, my dear: honro os votos que dei, já devidamente consignados. Mas o mundo é muito dinâmico, as you know, e agora lhe digo que minha primeira escolha será Medellín, na Colômbia. Tenho vivido longamente, mas há muitos anos não observava nada parecido com o que vi e ouvi logo após a tragédia com o avião da Chapecoense. O envolvimento ativo e emocionado dos medellinenses em uma situação que, por mero acaso, ocorreu em seu território, fez-me refletir sobre o estágio em que estamos na evolução da humanidade.

Isso, of course, não é assunto para um humilde viajante, cuja principal relação com os colombianos são as rosas locais que, ano após ano, encomendo no aniversário de nossa rainha. However, foi espantosa a solidariedade dos conterrâneos de Pablo Escobar. 

Confesso que fiquei pensando em minhas próprias ações – que, na comparação, mostraram-se francamente egoístas. Conversei com amigos de várias partes do mundo e todos eles estavam tão chocados com o acidente quanto emocionados pelo desenrolar dos acontecimentos. Nevertheless, os habitantes da capital da província de Antioquia não se limitaram a chorar como tantos choram face a mortes inaceitáveis. In my opinion, eles criaram um novo patamar de altruísmo e amizade, até então desconhecido. 

Rezaram, foram às ruas, foram ao estádio, fizeram brilhar todas as velas da cidade e, especialmente, ofereceram ao adversário destroçado pela calamidade aquilo que ainda não possuíam: o título de campeão, os prêmios correlatos, uma nova promessa de futuro. Não tenho visto nada parecido por aí. 

Estamos cada vez mais cínicos e ensimesmados. Criticamos e nos indignamos com muito mais avidez e volume do que amparamos a dor de pessoas próximas ou distantes. A bruma pesada das manhãs de outono obnubila nossa visão; vemos apenas o que está muito perto e, para dar um passo, tateamos. Como viajantes com excesso de carga, não conseguimos ir longe. Apequenar-nos-íamos, enfim? (com a licença para usar a mesóclise solicitada ao vosso presidente da República.)

Vou para Medellín as soon as posible. Vou ver as obras de Botero que engordam alegremente a praça que leva o seu nome. Vou à festa das flores que, todos os anos, leva 2,5 milhões de pessoas às ruas com o sentido principal de ver o milagre da natureza antioquenha em suas cores e aromas. Quero conhecer os paisas (naturais de Medellín) que prantearam setenta estranhos de longínquas paragens com um coração que já não se vê.

Medellín não é uma vila, my friends. É uma metrópole com mais de três milhões de habitantes – calejada pelo confronto de traficantes de droga que já transformou suas ruas em rios de sangue. Seu luto impressionante não foi, therefore, a reação de uma pacata província a uma tragédia maior. Yes, my dear Adriana: há lindos lugares no mundo que os leitores podem priorizar na programação de suas viagens – e a seleção feita por este suplemento é uma excelente fonte de inspiração. Mas já entrei em contato com Jaime Ibañez Acuña, que é hoteleiro na Patagônia, cineasta no Paraguai e produtor de rosas em Antioquia. Ele promete que vai me receber em breve, mas, sem qualquer necessidade, adverte: ‘As pessoas seguem muito tristes por aqui’.  Yes, I believe.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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