Ricardo Freire/Estadão
Ricardo Freire/Estadão

Meia porção de problemas

Uma das vantagens de viajar pelo Nordeste é poder dividir pratos. Na maioria dos restaurantes, os pratos servem duas, até três pessoas

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2016 | 04h03

Às vezes a informação está explícita no cardápio. Outras, porém, dá para intuir pelo preço: se você está numa capital de médio porte, tipo João Pessoa ou Natal, e o prato de um restaurante sem luxos tem preço de São Paulo (R$ 70 ou R$ 80), é porque serve um casal. Se tiver preço que até em São Paulo seria caro demais (R$ 120, por exemplo), é porque dá para três ou quatro. 

O problema é quando você vai sozinho a um restaurante desses – ou vai acompanhado de alguém com gostos (ou restrições alimentares) diferentes. A pergunta óbvia – “Vocês fazem meia porção?” – muitas vezes é respondida com um “não”. Dá para entender que paellas, peixes inteiros ou mesmo moquecas não se prestem a versões individuais. Mas a impossibilidade de preparar filés, postas ou pratos de camarão para uma pessoa realmente me escapa. 

A única opção fora o desperdício é procurar, no rabicho do cardápio, a seção de pratos individuais. Quase sempre a oferta é pouca e sem o apelo dos pratos para dois. Quem vai ao Nordeste para comer massa (passada do ponto) ao sugo (malfeito)?

Nas barracas de praia, a solução é ficar nos petiscos. Dia desses, em Tamandaré (PE), para não pagar uma refeição (para três) de R$ 90, pedi um petisquinho de R$ 50. Vieram duas postas gigantes de peixe frito com uma montanha de batata frita. Me senti mal de deixar tanta comida na travessa.

O problema atinge até restaurantes pretensamente chiques. No Coco Bambu, rede cearense com casas em vários estados (incluindo São Paulo) e no Nau, restaurante do momento tanto em João Pessoa quanto em Natal, nem um bilhetinho assinado pelo Papa Francisco convenceria o maître a servir meia porção. O jeito é ficar só na entrada – ou ir ao Camarões, o concorrente natalense do Nau, que prepara porções individuais com um pequeno sobrepreço.

A questão está tão enraizada na cultura nordestina que veja o que me aconteceu em Maragogi. Um restaurante da orla anunciava, num quadro negro, pratos sofisticados (espaguete ao pesto de coentro, polvo à galega com batatas ao murro) a preços abaixo de R$ 50.

Obviamente, eram pratos para um. “Oba, hoje não vai ter desperdício”, pensei comigo. Sentei. O garçom perguntou se eu estava sozinho. Respondi que sim. Então trouxe o cardápio. E já foi se desculpando, como se a informação fosse me ofender: “Olhe, preciso avisar uma coisa: nossos pratos são individuais, tudo bem?”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.