Melhor conhecer do que relaxar

Ficar de pernas para o ar ou fazer uma viagem de conhecimento, eis a questão

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2016 | 02h50

Nosso correspondente britânico informa que ficou muito entristecido pelo falecimento de seu velho amigo Heinz Cohen, com quem conviveu em Londres durante um período da Segunda Guerra Mundial. Heinz era natural de Hamburgo, na Alemanha, mas sua vivência nas terras da Rainha (“in fact, eram do Rei, na época”, diz Miles) fez dele um inglês fleugmático, de poucas palavras, muita ação e extensa relação com o cachimbo. “Tive a oportunidade de apresentá-lo às ideias de meu saudoso amigo Powell (N.da R.: Baden Powell, fundador do escotismo), do qual ele se tornaria um entusiasta. Mais tarde, no vosso lindo país, tornou-se o Chefe Henrique, estimulando jovens para uma vida saudável em harmonia com a natureza. A Inglaterra e eu choramos por Heinz”, escreveu-nos Mr. Miles.

A seguir, a pergunta da semana:

Prezado Mr. Miles: as férias que o senhor sugere parecem sempre complicadas. Eu, quando tiro as minhas, gosto ou de ir para a praia tomar um sol e descansar, ou de ir à montanha para tomar um vinho na lareira. Isso é errado?

Beto Tieppoli, por e-mail

“Well, my friend: é claro que não há nada de errado com sua visão de turismo. Ouso dizer que a maior parte das pessoas gosta mesmo de descansar quando tem tempo livre. O que é fair enough, já que, quase sempre, a lida do dia a dia é estressante e não oferece tempo suficiente para quem quer relaxar. Preciso dizer, however, que nesse tempo de comunicações intensivas, aplicativos, mobiles and so on, muitos têm trocado a oportunidade de um momento de paz e reflexão pela falsa emoção de conversar sem falar, de ver sem olhar, de mostrar-se sem ser e, pior, de trabalhar noite e madrugada adentro. Não há paz sequer no sagrado momento das refeições que, pouco tempo atrás – believe me! –, era ocasião de troca de ideias, experiências, conselhos e deliciosas bobagens, mais relaxantes e digestivas do que a própria Chartreuse que se bebia depois ou dos charutos que lançavam nuvens de saber no céu das bibliotecas.

Eis por que, dear Robert, cansávamos-nos menos e, por consequência, nossas férias não eram apenas oportunidades para descansar o corpo e a alma – o que hoje sequer se faz em qualquer local onde haja sinal para celulares.

Oh, my God: como involuímos nesse sentido. Estamos muito mais conectados em temas pouco relevantes e andamos muito mais indignados com assuntos que, for sure, resolveríamos melhor na velha e santa paz. Ao redor de um chá com biscoitos ou de um single malt puro. 

Reconheço, therefore, a necessidade de descanso de sua geração, ainda que o sol tenha mais raios ultra-violetas e as montanhas possuam córregos menos cristalinos.

O que costumo dizer nesse espaço, my friend, é que há uma diferença exponencial entre viajar e optar por períodos de lazer. Toda viagem envolve conhecimento. Viajar não é, nunca, uma proposta específica; isso é turismo. Um roteiro, hotéis, transfers, passeios guiados. Tudo do bom e do melhor, se desenvolvido por um profissional gabaritado do setor. Informações objetivas sobre temperatura, voltagem, câmbio e fuso horário. 

A viagem, however, só faz jus ao nome se ela significar aprendizado. Se você souber que grandes homens (e ladies, of course) nasceram no lugar para onde você vai. Se você dele souber a relevância histórica, econômica, espiritual ou gastronômica. Even better se lhe for possível contextualizá-la na história da humanidade. 

Talvez seja isso que você considere “complicado” nas minhas digressões sobre o tema. E, in fact, não traz bronzeado para a pele — embora isso possa ser um efeito colateral. Talvez seja mesmo ligeiramente cansativo. Mas tome tento: o conhecimento, as lembranças e os novos ângulos que uma viagem real proporciona reduzem a sensação de fadiga. Mas, melhor que isso: dão referências sólidas para que seu relaxamento na praia ou na montanha seja mais belo e profundo. 

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