Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Melhor morrer em Paris ou Istambul

Se a morte é inevitável, por que não enriquecer a vida com a sabedoria que o mundo traz?

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2018 | 03h00

Circulando por estradas vicinais de países europeus em seu cromado Morgan Plus 1968 Cabriolet – que vive guardado nas estrebarias da finca de Lord Kaisenberg, nos arredores de Málaga – , Mr. Miles repete o velho ritual de fugir do trânsito intenso de agosto em todo o Hemisfério Norte. Com Trashie ao seu lado, seu roteiro inclui residências, hotéis e pousadas de amigos diletos que sempre têm um quarto e uma garrafa para nosso correspondente inglês.

A seguir, a correspondência da semana.

Prezado Mr. Miles: planejava ir ao Caribe, mas tudo o que vejo são ameaças de furacões. Pensei, então, em ir à Turquia, mas a terra anda tremendo demais e a Turquia é muito perigosa. Na Ásia são os tufões; no Egito, a chance de me encrencar entre as facções rivais. Acho que vou acabar ficando mesmo aqui em casa. O mundo é muito inseguro.  Douglas Abujamra, por e-mail

Well, my friend, sou obrigado a concordar com você. To live is dangerous – viver é perigoso. E o que podemos fazer quanto a isso, dear Douglas? Somos o que somos, uma espécie dotada de força limitada e vida finita que, bem ou mal, cumpre um pequeno papel na minúscula quadra de tempo em que isso ocorre. Não vejo por que, however, temos de gastar qualquer segundo dessa cronometragem desconhecida com a preocupação de temer o que já sabemos inevitável. O tamanho de nossos medos é, I’m sorry to say, inversamente proporcional à chance que nos foi dada de entender o mundo e descobrir as pessoas. 

Conheço – e você, I presume, também deve conhecer – pessoas que sentem-se completamente desamparadas além do limite de suas casas, de suas ruas ou de seus bairros. Que desperdício! Tão pouco tempo para viver e tantos horizontes a ultrapassar: rios, mares, montanhas e florestas que, de alguma forma e por alguma razão, foram colocadas ao nosso alcance graças ao interminável progresso dos meios de transporte. 

Well: é claro que há terremotos e vulcões e ventanias etc. Como teria se forjado o nosso planeta, aquele que existe para nos comover, não fosse a ação do tempo e das hecatombes? Nem por isso, Douglas, my friend, vou me recolher a uma pequena cabana na Cornualha como a que vive minha pobre tia Harriet, que só esteve uma vez em Londres durante 87 anos e se recolheu a uma vida sem sonhos, porque nem sequer sabia sobre o que sonhar.

O medo, sempre o medo. O medo que é a marca de nossa fragilidade e da consciência que temos de nossa finitude.

Como escreveu, com grande brilho, o escritor norte-americano Mark Twain (não, esse não tive o prazer de conhecer, I’m sorry to say): “A coragem consiste em resistir ao medo e ter controle sobre ele. Nunca significa a ausência do medo”.

Listen, my friend: a vida há de acabar algum dia, onde quer que você esteja. O chão de sua casa pode se romper, um raio pode fulminá-lo, a escada pode derrubá-lo ou o gás pode provocar uma explosão. Mas que diferença faria se isso ocorresse em sua casa, em Paris ou em Istambul? Além, of course, da certeza de que, somewhere e somehow, você estava querendo enriquecer a sua vida com a sabedoria de quem viveu de outra forma?

De minha parte, dear Douglas, posso lhe assegurar que não perco um instante sequer projetando as circunstâncias que vão interromper essa deliciosa jornada que tenho feito pelo mundo. Como você mesmo anuncia em sua correspondência alarmante, viver é perigoso. Eis porque deve-se fazê-lo da melhor forma possível.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

ENVIE SUA PERGUNTA PARA MILES@ESTADAO.COM. 

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