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Memórias de Santos

Lugares próximos a nós podem ajudar a resgatar memórias pessoais

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2019 | 03h05

Há dois anos estava com uma promessa pendente, promessa com gente que não se pode vacilar. Falo das avós, as maternas, as paternas, as de consideração. Falo aqui de Dona Amélia Ribeiro Toni, minha avó e aquela para quem eu devia uma viagem a Santos.

Descer para a Baixada não é tarefa assim tão custosa para que eu demorasse tanto para levá-la. Mas, tenho certeza, a maioria dos leitores, assim como eu, é tocada pelo horroroso hábito – ou seria uma síndrome? – de deixar para o amanhã o (re)conhecimento do próprio território. Viajamos quilômetros de distância, apertamos o orçamento para atravessar mares, mas nosso próprio quadrado, que até sairia mais em conta e sacrificaria menos dias de nosso tempo corrido, fica quase sempre para um outro momento – que nunca chega.

Outro dia, diante de meu olhar impressionado sobre a cidade medieval de Toledo, comentei com um amigo que achava incrível que um professor, espanhol no caso, tivesse a possibilidade de tomar um trem (rápido e de custo acessível) com seus alunos para um bate-volta a um lugar onde boa parte da história permanece viva. 

 

O amigo, sabiamente, me listou lugares que, tanto quanto Madri de Toledo, são próximos a São Paulo e guardam nossa história regional e nacional. Discutimos as más condições de preservação de alguns desses pontos e as dificuldades de acesso (preço, comodidade, rapidez). Mas, ainda assim, chegamos à conclusão que há muitas opções que desperdiçamos por conta do tal hábito. Universal, aliás. 

Uma dessas opções é justamente Santos, que eu conhecia e para onde, descobri lá, minha avó também já havia ido. Mas há muito tempo, quando os avós dela, “que tinham um pouco mais de dinheiro”, a levavam nas férias. Do centro histórico, ela pouco lembrava. Suas recordações eram, com justiça, da Praia do Gonzaga, ainda sem os prédios que acompanham a orla hoje. 

Dedicamos, assim, boa parte da viagem de um dia caminhando pela região central, com suas construções do século 19 cujas fachadas, tantas vezes descascadas e apagadas, denunciam os anos de construção e o estilo entre o neoclássico e o colonial que marcou a fase mais promissora da produção cafeeira do País. 

Dona Amélia também observou com atenção o caminho que surgia na moldura da janela do antigo bonde onde estávamos embarcadas. Nascida em 1945, ela não chegou a andar naqueles que circularam pela cidade até a década de 1970. Sorte que dois elétricos de 1911 foram restaurados para lembrar a época. Neles, percorremos 5 quilômetros do centro, acompanhados por um guia que ia nos contando sobre lugares, personagens e eventos que tiveram Santos como cenário desde a fundação, em 1545 - exatos quatro séculos antes de Amélia vir ao mundo, portanto. 

O próprio ponto de embarque, a Estação do Valongo, de 1867, de onde partiam os trens da primeira ferrovia paulista, Santos-Jundiaí, nos faz parar, admirar e aprender. Bem ali, em plena zona portuária, você vai encontrar construções mais antigas, como a bonita Igreja de Santo Antônio, do século 17, e poderá ir caminhando até outro lugar emblemático e importante para se compreender Santos (e o Brasil): o Museu do Café, antiga Bolsa Oficial do Café.

“Pouca gente vive aqui, parece que muita coisa está abandonada”, comentou Dona Amélia, ainda no bonde. Pouco depois, o guia comentou sobre o processo de migração da população para a orla da praia ao longo do século 20, deixando ao centro, outrora morada de aristocratas, funções mais comerciais e um certo ar de decadência – algo que um projeto municipal de revitalização, em ação desde o ano 2000, pode mudar. 

Nos lugares próximos a nós, a história também permanece viva e merece atenção. E não só porque eles nos contam a história do lugar comum que compartilhamos. Percebi, viajando ao lado de minha avó, que (re)conhecer nossos espaços é a chance que temos de salvar do esquecimento memórias pessoais às vezes quase apagadas pelo tempo. Memórias como a de uma Amélia criança brincando nas areias da praia num tempo outro da vida, da vida dela, da de Santos, do Brasil. Promessa cumprida.

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