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Memórias de um outro fevereiro

Os anos se passaram, a vida da minha família sempre foi pautada pelo Allah-la Ô; hoje, carnaval de 2020, minha mãe segue o bloco apoiada em uma bengalinha colorida e vou empurrando a cadeira de rodas do meu pai

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2020 | 06h00

Meu cordão umbilical era de serpentina –  dado que fui concebido justamente em uma terça-feira gorda de carnaval. Não fui planejado. Fui improvisado. 

Desde muito novo, fui pirata no colo da mamãe. Meus dedinhos para o alto imitavam os mais velhos e causavam suspiros ao meu redor. Não parece, mas já fui uma fofura. 

No carrinho de bebê, tive uma ligeira insolação durante um bloquinho – coisa que não deixou nenhuma sequela aparente.

O susto maior foi aos 2 anos. No carnaval daquele fevereiro, enchi minha mãozinha de confete e fiz aquilo que as crianças fazem com certa frequência: enfiei na boca. Meu papai precisou aplicar a famosa manobra de Heimlich para me desengasgar.

Mas, visto que batia nas minhas costas como se ela fosse um pandeiro, o que salvou minha vida foi uma manobra batizada de “Mestre Zuza Nota 10 da Bateria”.

Aos 5 anos, ocorreu um fato que marcaria toda a minha existência. No meio da muvuca de um cordão, meus pais me perderam. Era um indiozinho órfão no meio de pernas desconhecidas.

Quando já considerava que o meu destino seria viver nas ruas de São Paulo, fui encontrado por uma Mulher-Maravilha – que me levou para o alto do trio elétrico e me anunciou ao público tal qual um guarda-chuva perdido no meio-fio. Meus pais me buscariam duas horas depois (e pareciam bem alegres).

 Adolescente, tive minha fase de rebeldia, tentei o heavy metal, fui punk e gótico. Minha família  ficou preocupada, chorou muito, queria saber o que tinha feito de errado. Me prometeram um videogame, uma viagem internacional e um aumento de mesada se eu desse uma nova chance ao carnaval.

O problema não era a folia. Mas a sensação de que o carnaval era um território dos meus pais – e não meu. Claro, na época não conseguia elaborar esse pensamento. Foi mais fácil aceitar o aumento da mesada e as outras benesses.

 No carnaval do ano seguinte, meu pai me arrastou para um bloco – e me apresentou a um grupo de amigos do trabalho. Foi quando me apaixonei pela filha de um deles.

Tive minha primeira experiência como pierrô desiludido. Ela, colombina, enamorou-se por um sujeito que nem sequer fantasiado estava. Meu pai, percebendo minha situação, me abraçou, cantarolou As Pastorinhas e me ofereceu aquela que foi minha cerveja inaugural.

 Primeiro amor não correspondido, primeira cerveja e, no ano seguinte, o carnaval me fez sentir, também pela primeira vez, o medo de perder minha mãe.

No aperto de um megabloco, ela foi assaltada. Por não entender o que o bandido pedia acabou fazendo um gesto mais brusco e levando uma facada na barriga. Uma ambulância teve de vencer o mar de gente para atendê-la. Foi grave. Perdeu muito sangue e, por pouco, a tragédia não se consumou.

Acreditei que, a partir daquele susto, meus pais sossegariam. Me enganei. Foi como se aquilo nunca tivesse acontecido. Nos carnavais seguintes, os dois estavam lá, prontos para mais blocos, cordões, desfiles e bailes. O espírito carnavalesco da dupla não arrefeceu em nada. 

Os anos se passaram, a vida da minha família sempre foi pautada pelo Allah-la Ô. Por influência dos meus pais, noivei e me casei em um bloco. Meu filho foi alfabetizado pelas marchinhas e aprendeu a andar durante um desfile de escola de samba.

Hoje, carnaval de 2020, minha mãe segue o bloco apoiada em uma bengalinha colorida. Seus passos são miudinhos e claudicantes, mas ela ainda leva um sorriso contagiante no rosto repleto de glitter. 

Vou empurrando a cadeira de rodas do meu pai. Ele usa um chapéu de caubói como fantasia. Há um ano, não consegue mais me reconhecer. Brinca com o neto sem saber quem ele é. Tem lampejos de lucidez – principalmente quando conversa com mamãe. Ainda assim, quando ouve Bandeira Branca, consegue cantarolar a letra sem errar. 

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