Walker Simon/Reuters
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Cultura e história se misturam no México colonial

Em San Miguel de Allende e Guanajuato, o casario histórico, a cultura e a alegria contagiante mostram o lado mais tradicional do país – que nem sempre faz parte do roteiro turístico de praxe

Luciana Dyniewicz, San Miguel de Allende

27 Março 2018 | 05h00

San Miguel de Allende e Guanajuato. Distantes 100 quilômetros uma da outra, elas compartilham características como o casario colorido em estilo colonial, a fundação no século 16 e o título de patrimônio da humanidade concedido pela Unesco. As semelhanças entre essas duas cidades mexicanas, porém, ficam por aí. Apesar de ambas serem deslumbrantes e ensolaradas, a primeira é mais asséptica – com ruelas extremamente limpas para receberem os milhares de turistas americanos que costumam lotá-las –, enquanto a segunda exala autenticidade mexicana.

Essa assepsia de San Miguel de Allende, entretanto, não a torna menos encantadora que sua vizinha Guanajuato. A cidade é um charme, com dezenas de hotéis-butique e galerias de arte entre suas ruas de pedra. O clima árido e a arquitetura das casas remeteriam aos famosos “pueblos blancos” andaluzes – vilarejos no sul da Espanha cujo casario é todo branco –, não fosse justamente pelas cores dos edifícios. Como na Andaluzia, em San Miguel as cores das casas também são padronizadas pela prefeitura, mas, no caso mexicano, não podem fugir do amarelo, do laranja, do vermelho e do marrom, o que forma uma paleta de cores harmônica e agradável aos olhos.

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A organização das cores de San Miguel destoa da anarquia multicolorida de Guanajuato, onde o rosa das casas se mistura ao azul, que se mistura ao roxo e, por que não, ao verde-limão. Essa bagunça denuncia a atmosfera da cidade: mais barulhenta, mais agitada e menos “gringa”. Foram justamente as cores de Guanajuato e as casas praticamente penduradas em morros e encostas que inspiraram o cenário da Terra dos Mortos do filme Viva – A Vida é uma Festa, produzido pela Pixar e ganhador do Oscar de melhor filme de animação neste ano.

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Se San Miguel se mostra mais harmônica e Guanajuato, mais caótica, juntas elas formam uma combinação perfeita para uma visita ao México, que vá além da dupla CancúnCidade do México. Revelam um lado ainda mais vibrante do país – e também cheio de história.

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Como chegar: São Miguel de Allende e Guanajuato estão a cerca de 4 horas da Cidade do México. Há ônibus de primeira classe que fazem o trajeto, com escala em Quétaro. Algumas empresas: Omnibus de México, Pegasso Plus, Primera Plus, ETN. Será preciso pegar táxi para o centro. 

 

Site: visitmexico.com.

++ Em julho, o Festival de Cinema de Guanajuato (GIFF) espalha cinema pelas ruas de San Miguel de Allende e Guanajuato, com exibições ao ar livre. Este ano, será entre os dias 20 e 29 e homenageará o diretor Ingmar Bergman. Site: giff.mx

++ A época mais quente na região é entre março e outubro, quando as temperaturas chegam a 33 graus. À noite é comum esfriar e os termomêtros podem marcar mínimas de 15 graus — leve ao menos um casaquinho. Chove pouco o ano todo. 

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Luciana Dyniewicz, San Miguel de Allende

27 Março 2018 | 04h55

O som vibrante de um violino rápido, acompanhado de uma corneta e de um violão, ecoa pelas ruas estreitas do centro histórico de San Miguel de Allende. É só seguir o barulho para encontrar a festa ambulante animada por mariachis vestidos com seus trajes típicos – chapéu de abas gigantes, calça e jaqueta justas, além de um lenço com laço no pescoço.

Um mexicano puxa pela corda um burro que usa óculos de arame, e outros dois sustentam bonecos gigantes como os do carnaval de Olinda. Há ainda os noivos e um garçom servindo tequila em copinhos de cerâmica pendurados nos pescoços dos convidados dessa festa de casamento a céu aberto.

Assim é uma tarde de sábado nessa cidade localizada a cerca de 300 quilômetros ao norte da Cidade do México. Se estiver por lá, inevitavelmente você vai se deparar com uma dessas tradicionais festas (as já citadas callejoneadas) e se dar conta de que San Miguel é o imaginário perfeito que se tem do México: casas coloridas, clima árido, música e pessoas calorosas.

A limpeza das ruas e a ausência de camelôs, no entanto, difere do resto do país, mais pobre do que San Miguel. Esse contraste se explica pelo fato de a cidade ser um chamariz de turistas e moradores americanos – há estimativas de que 12 mil estrangeiros vivam no município de 60 mil habitantes.

Cidade-ostentação. O elevado número de turistas faz com que a cidade não seja barata – uma viagem para o destino pode sair mais cara do que uma visita à badalada praia de Tulum, próxima a Cancún. Praticamente não há opções de acomodação econômica em San Miguel, mas é possível economizar na alimentação.

Voltando à festa de casamento: após encontrá-la, siga o cortejo, porque com certeza ele passará pelas principais vias do centro e, em algum momento, chegará à praça principal da cidade, o Jardín Allende. Ali, um pequeno coreto é rodeado por grandes árvores, cujas copas são impecavelmente podadas em formato circular. Diante da praça, a catedral se impõe de modo soberano. De tom rosado e projetada no fim do século 19, é a única grande construção no centro de San Miguel. Seu interior é sóbrio e não chega a se destacar entre as milhares de outras igrejas mexicanas, em grande parte tão imponentes como as italianas e espanholas.

Comida típica. Do lado oposto à catedral, o restaurante Los Milagros não decepciona. Tem mesinhas nas janelas abertas para a praça e oferece um prato criado em sua própria cozinha: o Molcajete Especial (335 pesos, cerca de R$ 60), que é servido em uma panela de pedra vulcânica (chamada molcajete) e leva a talvez estranha, mas saborosa mistura de camarão, carne de vaca e de frango, além de queijo, muita pimenta e nopal (tipo de cacto quase sem gosto, mas extremamente saudável). O Molcajete Especial serve de duas a três pessoas e vai bem acompanhado de uma tradicional Michelada (cerveja com suco de tomate, pimenta, limão e molho inglês). Acredite, os mexicanos bebem mais “michelada” do que tequila, mescal ou cerveja pura.

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Deixando o Los Milagros e a praça principal, na Rua Relox fica a charmosa e chique Dôce-18, uma loja com livros, joias, objetos de decoração e bordados artesanais. Para compras mais simples, há ainda o Mercado de Artesanías, com lembrancinhas locais feitas à mão, além de frutas e verduras típicas. Ao lado do mercado, está a Plaza de la Soledad, mais aberta que a principal, com menos turistas e também rodeada por casas coloridas coloniais que carregam, sobre o teto, lindos vasos com plantas.

Desça pelas ruas Juárez e Recreo, caso queira conhecer a Plaza de Toros (as touradas são tão populares no México como na Espanha), e depois suba pela Huertas para, finalmente, chegar ao mirante da cidade. De lá, tem-se uma vista deslumbrante  das casas coloridas, iluminadas por uma luz perfeita para fotógrafos e pintores – San Miguel já foi centro de peregrinação de artistas por volta de 1940, após a fundação da Escola de Bellas Artes, onde o muralista David Siqueiros lecionou.

Espécies locais no suculento jardim

 A 1,5 quilômetro do centro de San Miguel de Allende, o jardim botânico Charco del Ingenio reúne uma variedade inimaginável de suculentas e cactos, com espécies típicas de todas as regiões do México. Há desde as mais tradicionais – verticais e altas – às mais diferentes, redondas e baixinhas. Algumas ainda carregam flores avermelhadas nas pontas. O jardim botânico fica à beira de um rio represado, de onde não se escuta barulho algum que não seja da natureza.

No local, há visitas guiadas às 10h nas terças e quintas-feiras. O passeio dura 2 horas. Para chegar lá, as melhores opções são a van gratuita do próprio jardim (horários em elcharco.org.mx) ou táxi – a corrida custa cerca de 70 pesos ou R$ 12. Para retornar, peça na lojinha para chamarem o táxi. O caminho a pé é quase todo subida; há opções melhores. 

Antes de chegar ao jardim, repare nas mansões de cor ocre e fachadas floridas, onde vivem os ricos estrangeiros da cidade.

Onde ficamos

Casaliza Hotel Boutique

O hotel Casaliza fica em frente ao local de fundação de San Miguel de Allende – o Chorro, uma nascente de água onde até hoje há espaço para os moradores lavarem suas roupas. A rua do hotel é uma espécie de escadaria que se mistura a uma pequena praça. Dentro desse pequeno e charmoso hotel, os quartos contornam um jardim com mesinhas, bancos e chafariz, num cenário bucólico e romântico – o quarto em que ficamos tinha uma sacada no melhor estilo Romeu e Julieta, com sua parede externa coberta por trepadeiras. Site: casaliza.mx; diárias a partir de 1.050 pesos (R$ 185). 

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Luciana Dyniewicz, San Miguel de Allende

27 Março 2018 | 04h50

Universitária e tida como um dos principais centros culturais do México – em grande parte, em razão da realização anual do Festival Internacional Cervantino, que reúne diferentes tipos de arte –, Guanajuato vibra como as cores das fachadas de seu casario colonial. Suas calçadas estão repletas de mexicanos e turistas; suas ruas, carregadas de trânsito; e seus morros, tomados por vielas que se desencontram.

Essas ruas de Guanajuato, iluminadas pelo sol quente e margeadas por casas alaranjadas, roxas e verdes, contrastam com as dezenas de túneis escuros que cortam essa cidade que já foi o maior centro de mineração de prata do mundo. Os túneis, entretanto, não têm a ver com a história de mineração: foram construídos a partir do século 19 para que a água de um rio escoasse, evitando inundações

Do passado mineiro, sobrou a mina San Ramón, já desativada, aberta a visitação – é possível adentrar cerca de 60 metros. Quase ao lado está a igreja La Valenciana, construída a partir de 1765 no alto de um dos morros da cidade (o melhor é ir de táxi). O altar do templo é decorado com ouro, recordando o tempo áureo da mineração.

No centro, prédios coloniais lembram a parte histórica da baiana Salvador e rodeiam uma diminuta praça com um chafariz e a catedral. A uma quadra da igreja, o imenso prédio da Universidade de Guanajuato se espreme entre ruas estreitas. O edifício excêntrico – apesar de ter apenas 65 anos, seus traços remetem a um castelo – estampa a nota de mil pesos mexicanos e é símbolo da cidade, com sua escadaria que recebe sessões de cinema ao ar livre durante o Festival Cervantino, em outubro.

‘Callejonear’

As tradições culturais e estudantis de Guanajuato também aparecem na forma de “callejoneadas”, passeios pelas ruas históricas acompanhados de músicos com vestes europeias medievais. O costume nasceu nos anos 1960, quando estudantes da universidade montaram um grupo para tocar música antiga espanhola, com bandolim e baixo acústico. A brincadeira se espalhou e, hoje, profissionais organizam o passeio para entreter turistas. O ponto de encontro é diante do Teatro Juárez (um dos mais impressionantes do México), ao anoitecer.

Imponente e de estilo eclético, o teatro foi construído ao longo de 31 anos no fim do século 19. Sua fachada é neoclássica, mas o interior remete ao estilo mudéjar (movimento arquitetônico espanhol com influência árabe). Preste atenção nos detalhes do lustre em formato de estrela e nos pórticos dos camarotes.

O teatro fica quase em frente a uma praça cercada de árvores, cujas copas enormes se aglutinam e quase não permitem que você veja seu interior. As praças são justamente outro ponto alto de Guanajuato. A de San Fernando, por exemplo, reúne restaurantes e cafés com mesinhas na calçada, que se destacam mais pelo ambiente agradável e pela arquitetura do que pela comida em si. Já a de Los Ángeles conta com casinhas coloridas e lances de escadas em que os locais costumam descansar.

Beco do Beijo

Próxima às duas praças fica o Callejón del Beso (Beco do Beijo, em português), a via mais estreita da cidade e um dos pontos turísticos mais visitados. A rua é, na verdade, uma escada, e as sacadas das casas que são separadas por ela praticamente se encostam. Segundo a lenda, o beco foi cenário de uma versão Romeu e Julieta local. Em uma dessas casas vivia uma família afortunada cuja filha se apaixonou por um mineiro. Proibido de ver sua amada, o jovem alugou a casa da frente e, como elas estão tão próximas, eles podiam se beijar sem saírem de suas sacadas.

Diego Rivera

Guanajuato é ainda a cidade natal do muralista Diego Rivera, um dos principais artistas mexicanos do século 20. A casa onde ele nasceu foi transformada em museu e exibe alguns de seus trabalhos e esboços, além de recriar a decoração da casa da família no fim do século 19. É um bom passeio para fãs de Rivera ou para aqueles que queiram sentir ainda mais a atmosfera cultural dessa cidade de menos de 200 mil habitantes, que vibra como se fosse bem maior.

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Não perca

Casa del Mayorazgo de La Canal

Construído entre o final do século 17 e o início do século 19 em estilo barroco, o palacete que pertenceu à família La Canal é patrimônio da humanidade da Unesco. Ali já funcionou um hotel e, hoje, trata-se de um centro cultural, no centro de San Miguel de Allende. Veja a programação: casasdeculturabanamex.com/casadelacanal.

Museus 

Em San Miguel de Allende, confira os murais de David Siqueiros no Instituto de Bellas Artes – no local, há ainda exposições de artistas locais, já que a cidade é conhecida por suas artes. Em Guanajuato, o Museu das Múmias guarda 111 múmias de moradores da cidade, que tiveram os corpos preservados por causa das características do solo da região. Mais: momiasdeguanajuato.gob.mx.

Santuário de Atotonilco

Considerado como uma espécie de “Capela Sistina mexicana”, o Santuário do século 16 também é patrimônio da Unesco e fica a 14 quilômetros de San Miguel de Allende. Repare nas pinturas do teto, por Rodriguez Juárez, e os murais de Miguel Antonio Martínez de Pocasangre. As celebrações da Semana Santa se destacam.

Perto de Cancún, Mérida mantém clima colonial

San Miguel de Allende e Guanajuato são apenas duas das dezenas de cidades coloniais do México. Há várias outras opções que valem conhecer espalhadas pelo país. Próxima à badalada Cancún, por exemplo, Mérida foi fundada no século 16 pelos espanhóis, em uma região que havia sido dominada pela civilização maia. Mérida enriqueceu no fim do século 19 graças à exploração do agave, planta usada na fabricação de cordas e tapetes.  Durante o rico período do “ouro verde”, foi criado o Paseo de Montejo, uma rua que corta a cidade, construída para ser uma espécie de Champs-Elysées local. Os casarões, inspirados na arquitetura europeia, resistiram ao tempo e hoje abrigam desde Starbucks a estabelecimentos mais sofisticados, como a Casa T’ho, um espaço compartilhado por marcas de moda local e restaurantes.

Aos domingos, o Paseo de Montejo é fechado ao trânsito e moradores e turistas tomam a via, num clima bastante interiorano. Na praça central, a Casa de Montejo é outro exemplo do período áureo da cidade. A 10 quilômetros dali, no fim da Calle 60, fica o Grande Museu do Mundo Maia, que em sua exibição de 1.100 peças revela uma faceta completamente diferente dessa região em seu edifício contemporâneo.

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