Sandra regina Carvalho/AE
Sandra regina Carvalho/AE

Mistério secular

Os símbolos entalhados no complexo de construções maia deixam claro: não, o mundo não vai acabar em 2012. O que o calendário criado pelo povo que dominou a península mexicana de Yucatán revela é apenas o fim de um ciclo de 52 anos - e o início de um novo. Dar início aos próximos 52 anos descobrindo as misteriosas belezas escondidas em Chichén Itzá é uma experiência inesquecível. Não há a menor chance de se arrepender.

SANDRA REGINA CARVALHO , PENÍNSULA DE YUCATÁN, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2012 | 03h10

Dos povos pré-colombianos (antes da chegada de Colombo às Américas), os maias são os mais misteriosos e, provavelmente, os mais antigos. Estudos concluíram que em torno de 2.500 a.C. vivia um povo protomaia na região de Huehuetenango, Guatemala. Hoje, a população maia é estimada em 4 a 6 milhões de pessoas, espalhadas por El Salvador, México, Honduras e Guatemala.

Chichén Itzá, ou "poço sagrado dos bruxos da água", foi uma cidade cerimonial que floresceu no auge da civilização maia-tolteca. Fundada entre os anos 435 a.C e 455 a.C., se transformou em Patrimônio Mundial da Unesco em 1988 e uma das Nova Sete Maravilhas do Mundo Moderno em 2007. Misteriosamente abandonada em 670 d.C., foi reconstruída 300 anos mais tarde. E se tornou o centro da cultura maia de Yucatán.

Logo ali. Tal experiência está a apenas 2h30 da badalada Cancún - há inúmeros pacotes que já incluem a parada no sítio histórico. Mas o passeio também pode ser contratado por intermédio do concierge do hotel (não é a melhor ideia em termos de custo) ou nas agências no centro de Cancún - normalmente, pela metade do preço. Se preferir viajar por conta própria, não é difícil chegar a Chichén Itzá de ônibus. Certifique-se, contudo, de contratar um guia credenciado no sítio arqueológico. Sem ele, a visita não será tão interessante.

No caminho, a cidade colonial maia de Valladolid é parada obrigatória. Na praça central, onde fica a igreja matriz, é comum ver mulheres com os tradicionais trajes coloridos. Algumas passeiam pela praça oferecendo artesanato, mas não se sentem à vontade para conversar. Se você não levou um chapéu, filtro solar ou dinheiro trocado, aproveite a parada em Valladolid.

Mais 45 minutos e estamos em Chichén Itzá. A poucos metros da entrada, em meio à vegetação, surge majestosamente a Pirâmide de Kukulkán ou Castelo. Trata-se da mais importante (e imponente) entre as construções do sítio arqueológico, com 30 metros de altura. E o ponto de partida de sua aventura.

Dali, as atenções se voltam para o campo de jogo de bola, chamado de poc-ta-tok na língua maia. O campo de Chichén Itzá é o maior de todos os conhecidos. Tem 168 metros de comprimento e 70 metros de largura - para se ter uma ideia das proporções, a Fifa exige para partidas oficiais de futebol gramados de no máximo 120x90 metros. O campo maia tem ainda dois arcos, um de cada lado, a seis metros de altura (uma trave de futebol tem em média 2,5 metros de altura). Os jogadores (cinco a sete por equipe) só podiam usar cabeça, cotovelos, quadril e joelhos para acertar a bola em um dos arcos do campo. Mãos e pés eram proibidos.

Participar do jogo era participar da ordem cósmica do universo e regeneração ritual da vida. Mas o prêmio pela vitória era um tanto indigesto. O capitão do time vencedor - e às vezes alguns jogadores - era decapitado. Para os maias, o sacrifício da morte era uma honra.

Deixando o esporte macabro de lado, observe o aspecto acústico das construções: as ondas sonoras não sofrem interferências do vento. Assim, se bater palma em um lado do campo, vai ouvir perfeitamente do outro. Em 1931, o regente inglês Leopold Stokowski passou quatro dias ali tentando desvendar os princípios acústicos usados pelos maias para aplicá-los em um concerto a céu aberto. Stokowski não teve sucesso. Até hoje, tais princípios não foram explicados. Apenas mais um entre os muitos mistérios da cidade maia.

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