Mistérios à espreita pelas pistas de Agatha Christie

Short-story, ou tale, é como os ingleses designam o gênero literário a que damos o nome de "conto". História curta ou narrativa na qual normalmente não falta suspense, com desfecho lógico ou imprevisto. Nessa linha literária, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie se destacam como praticamente imbatíveis. Os fios condutores de seus enredos são múltiplos. Para Agatha Christie, porém, em sua maioria, eles convivem na cidade de Torquay, onde nasceu, casou, serviu como enfermeira na 1.ª Guerra Mundial e viveu seus últimos 37 anos em sua casa, Greenway.

O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2014 | 02h07

Ao chegar a Torquay, nos instalamos em um hotel que parecia honrar a grandeza das tradições inglesas, o Grand Hotel (www.grandtorquay.co.uk; diárias desde 69 libras ou R$ 272 o casal em quarto duplo), do início do século 19. O que se confirmou, pelo interior clássico e confortável e - supremo privilégio - quando nos deram o quarto em que Agatha (cujo nome de solteira era Miller) e o coronel Archibald Christie passaram a lua de mel, em 1914. Na verdade, ocuparam o apartamento por apenas duas noites, pois o coronel Christie fora convocado e partiu para a guerra.

Uma habitação ampla, com janelões de frente para o Canal da Mancha que exibiam um dia ensolarado, fazendo jus ao nome da região, Riviera Inglesa. Dali,podia-se também admirar todo o promenade que circunda a orla. "Era um desses dias que podem vir a ser lindos, mas para quem tem experiência do tempo na Inglaterra, é quase certo que chova", escreveu Agatha certa vez. Para nós, a previsão da escritora não se concretizou: os três dias que lá passamos foram dignos de uma Riviera ensolarada.

A vivência de Agatha na cidade foi vital para a criação literária. Ali ela encontrou, em um ônibus, um imigrante belga, baixo e meio atarracado, com um bigodinho curvo que, em seus escritos, se transformaria no detetive Hercule Poirot.

Já a experiência no hospital onde atuou como enfermeira foi a via por onde entrou no mundo dos venenos. Aprendeu a distinguir os efeitos mortíferos de arsênico, estricnina ou eserina - esta última, aliás, foi a chave para desvendar o mistério de A Casa Torta.

Conta-se que Agatha era assistente de um médico, Zacarias, que andava sempre com uma ampola de curare na cinta. Quando perguntado sobre a razão, ele respondia sarcasticamente: "Todo mundo precisa de um elemento de surpresa, e este me torna poderoso". Personagens desse tipo, singulares, ajudaram a compor a obra da escritora, aliados a uma boa dose de imaginação.

Há uma rota turística, The Agatha Christie Mile, pelos pontos que instigaram a escritora, onde a realidade ganhou traços de ficção. São 20 paradas - em cada, uma novela, conto ou particularidade da vida da rainha do suspense. É possível fazer o trajeto sozinho (há informações em englishriviera.co.uk/agathachristie), mas estar acompanhado de um guia faz diferença - no nosso caso, Frank Turner, que além de especializado na escritora tem amplo conhecimento sobre Sherlock Holmes. Tudo complementado com toques do mais sutil humor britânico.

"As ideias de Agatha surgiam de chofre", ressalta o guia ao entrarmos no Imperial Hotel, contabilizando três histórias narradas ali: A Casa do Penhasco, Um Corpo na Biblioteca e Um Crime Adormecido. Por uma porta entrei na sua obra-prima O Assassinato de Roger Ackroyd; no Museu de História Natural, foi a vez de O Homem de Terno Marrom.

Último capítulo. Para finalizar, a casa de Agatha Christie, Greenway, cenário de três novelas, dentre elas Punição para Inocência, a mais conhecida. Não é uma dica, mas uma certeza: visitar apenas o recanto da escritora já vale uma viagem para Torquay por si só.

Distante 20 minutos de carro do centro, também pode ser acessada por um tour de barco ou de ônibus da década de 1930 (o mesmo que ela utilizava), que sai duas vezes ao dia do centro da cidade e custa 12 libras (R$ 47).

Pouco antes de comprar a casa, em 1938, Agatha a descreveu como "uma residência georgiana, dos anos 1780, com um bosque descendo suavemente até o Rio Dart e muitas árvores e arbustos - a casa ideal, um sonho de casa". Hoje, Greenway é também um Jardim Botânico, e nele podemos admirar uma espécie de rosa batizada com o nome da antiga proprietária.

Para os fãs da escritora, o interior da residência e grande parte de seu mobiliário, tapetes, porcelanas, peças de arqueologia da coleção de seu segundo marido, esculturas e quadros funcionam como passaporte para dentro de seus livros. Foi fácil perceber também que Agatha não gostava de muita iluminação artificial. Cômodos como biblioteca e sala de jantar eram desprovidos de lustres, enquanto seu lugar preferido, o sitting room, no piso superior, era uma sala plena de luz solar.

Durante a 2.ª Guerra Mundial, tanto o Grand Hotel como a residência da escritora foram requisitados pelo Almirantado Britânico. Em sua autobiografia, Agatha relata: "A guerra começou, não em Londres, nem na costa leste, mas em Devon". Foi ali que ela presenciou os primeiros combates aéreos entre os Messerschmitt alemães contra os Hurricanes e Spitfires britânicos. Não por acaso, várias paredes de Greenway, e algumas do Grand Hotel, ainda guardam desenhos dessas famosas batalhas, pintadas pelos próprios oficias. /HEITOR REALI e SILVIA REALI, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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