Navesh Chitrakar/Reuters
Navesh Chitrakar/Reuters

Monte Everest esvazia e covid-19 atinge o turismo no Nepal

A pandemia acabou com as levadas de visitantes. No ano passado, o turismo levou US$ 2 bilhões ao país, um dos mais pobres países da Ásia

Bhadra Sharma e Jeffrey Gettleman, The New York Times

09 de novembro de 2020 | 17h32

No ano passado, o Nepal atraiu centenas de alpinistas, com suas jaquetas infladas e esbaforidos no caminho para chegar ao topo do Monte Everest. As multidões eram prova do quão rápido – muito rápido, alguns disseram – cresceu o setor de turismo alpino no Nepal e se tornou uma tábua de salvação para a economia do país. No ano passado, o turismo trouxe mais de US$ 2 bilhões para um país dos mais pobres países da Ásia, com um milhão de pessoas empregadas, de carregadores a guias. A pandemia acabou com tudo isso.

Os caminhos sinuosos das montanhas do Himalaia estão desertos, incluindo os que levam aos acampamentos-base do Everest. Menos de 150 alpinistas chegaram à região neste outono, disseram as autoridades, uma queda em relação aos milhares que apareceram no ano passado. Um número incontável de sherpas e outros guias experientes ficaram sem trabalho, com muitos agora plantando cevada ou criando iaques nas encostas vazias para sobreviverem.

No ano passado, o país chegou a ser criticado por emtir muitas permissões de escalada ao Monte Everest, o que estava levando a congestionamentos no alto da montanha e mais riscos aos alpinistas. À espera para o momento de descer etapa a etapa a montanha, sofriam com a altitude, a exaustão e possíveis avalanches. Com iso, cresceu o número de mortes em 2019.

Guias desempregados e comércio fechado

Muitos nepaleses temem que o efeito combinado do novo coronavírus e o forte impacto sobre a economia será um retrocesso que vai durar anos. “Penso sempre que vou morrer de fome antes que o novo coronavírus me mate”, disse Upendra Lama, um guia e carregador que agora depende de doações de uma pequena organização de ajuda para se alimentar e aos seus filhos. “Quanto tempo isso vai durar?”

Embora o mundo inteiro faça as mesmas perguntas, o Nepal tem poucos recursos para auxiliar as pessoas a enfrentarem a situação. Os casos de covid-19 vêm aumentando constantemente e com apenas mil leitos em unidades de terapia intensiva para uma população de 30 milhões, as autoridades orientam as pessoas doentes a permanecerem em casa, salvo se a sua condição piorar. Um número desconhecido de pessoas pode morrer sem que se tome conhecimento.

O estrago econômico está bem adiante. Hotéis e casas de chá ao lado das montanhas estão fechados. Restaurantes, lojas e mesmo os mais populares locais para os turistas se abastecerem em Kathmandu não funcionam, incluindo o pub Tom and Jerry, que durante décadas serviu como um farol para os mochileiros.

Crise da covid-19 no Nepal

O dinheiro enviado para suas famílias por nepaleses que vivem no exterior também diminuiu. Quando os tempos eram bons, milhões de nepaleses remetiam dinheiro de toda a Ásia, especialmente dos países do Golfo Pérsico. No ano passado, essas remessas chegaram a US$ 9 bilhões, e o Nepal depende delas mais do que qualquer outro país.

A economia sofre e os hospitais ficam repletos. Médicos afirmam que os ricos e aqueles que têm contato com os políticos monopolizam os leitos dos hospitais e os pobres que adoecem não têm para onde ir. “Nosso sistema de saúde é frágil e o mecanismo de monitoramento mais frágil ainda”, disse o médico Rabindra Pandey, que trabalha para a Nepal Arogya Kendra, organização independente de especialistas em saúde pública. “Pessoas bem relacionadas e ricas facilmente conseguem entrada em hospitais particulares e têm recursos para cobrir os custos, mas muitos pobres estão morrendo.”

Com o inverno se aproximando e a temporada do festival hindu a todo vapor, especialistas em saúde pública alertam que a crise da covid-19 vai piorar. O país já reportou 175 mil infecções, aproximadamente a mesma taxa per capita da Índia. E embora as mortes informadas sejam menos de mil, os testes continuam escassos e o consenso entre os médicos do Nepal é de que o número de infecções e mortes em consequência do vírus é muitas vezes mais alto.

O vírus já chegou a áreas rurais e cidades remotas que há pouco tempo não tinham nenhum ou poucos casos da infecção. Autoridades do governo são acusadas de explorar a pandemia para lucrar. Uma comissão parlamentar investiga acusações de que funcionários próximos do primeiro ministro K.P. Sharma Oli inflaram os custos dos suprimentos médicos. Eles negam as acusações.

Especialistas na área da saúde afirmam que muitas infecções têm relação com o retorno de trabalhadores nepaleses da Índia, que hoje é o segundo país no mundo em número de casos de covid-19 – em torno de oito milhões – depois dos Estados Unidos. O Nepal vive à sombra da Índia. Sua economia, assuntos estratégicos e saúde no geral são constantemente reorganizadas de acordo com o que ocorre no imenso vizinho do sul.

Em parte por causa do impulso dado pelo turismo, a economia do Nepal vinha crescendo mais rápido do que a da China, chegando a quase 6% em 2019. Normalmente nesta época do ano, um avião atrás do outro chega ao aeroporto internacional de Katmandu com milhares de turistas com dinheiro, incluindo indianos, entusiasmados para passear pela montanha de Annapurna ou subir até o acampamento base do Monte Everest.

Segundo autoridades de turismo, 800 mil pessoas empregadas no setor perderão seus empregos. Entre os primeiros a ficarem desempregados estão os cerca de 50 mil guias que conduzem os turistas até altas altitudes, os sherpas e outros que trabalham com excursões.

Alguns começaram a protestar nas ruas da capital, pedindo que o governo lhes conceda empréstimos para conseguirem alimentar suas famílias, ameaçando depredar a sede das autoridades encarregadas de turismo se não obtiverem ajuda. “Os guias, antes conhecidos como os reais agentes do turismo, foram abandonados à sua sorte”, disse Prakash Rai, que participou dos protestos. “Não temos nenhum recurso para sobreviver a esta crise.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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