A beleza dos maus momentos

Nosso intrépido viajante recorda a importância de saber olhar com sabedoria para as adversidades durante as viagens

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2015 | 01h25

De Bergen, no litoral oeste da Noruega, um lugar onde “chove tanto que as pessoas nem usam mais o guarda-chuvas”, mr. Miles manda sua correspondência da semana:    

Como o senhor está se saindo na Grécia se nem nos caixas eletrônicos há dinheiro para sacar? O senhor está se vendo “grego” para pagar os passeios ou, mais uma vez, seus amigos lhe propiciam tudo? Como está vendo a “tragédia grega” se desenrolar bem à frente de seu nariz? Confesso que estou preocupada e, sem querer entrar na política, acho que quem está neste momento em férias na Grécia deve estar com um sentimento de aventura porque está assistindo à História ao vivo. A Europa está à beira dum ataque de nervos. Assistir a um momento tão histórico e conturbado é algo fascinante. Creio que é por isso que o senhor ainda não regressou. Am I right?  

Maria do Carmo Guerra, por e-mail

“Well, well, my dear Maria do Carmo, uma leitora que tem guerra até no sobrenome deve estar mesmo excited testemunhando a correspondência que enviei, semana passada, da ilha grega de Corfu. Devo lhe dizer, however, que não há nenhum sinal de beligerância no ar – pelo menos no de Corfu – e os viajantes que dividiam comigo as praias de Paleokastritsa aparentavam se divertir.

Referindo-me à questão monetária, peço que você não se preocupe. Lugares em grave crise econômica adoram moedas estrangeiras. Com um par de libras esterlinas na mão, o viajante é tratado como um rei. Em outras palavras: eu não faço parte das filas formadas na frente dos caixas eletrônicos. Eu sou o próprio caixa eletrônico – e os locais me procuram para conquistar, de um modo ou de outro, o que resta de minhas divisas.

Unfortunately, deixei a Grécia alguns dias atrás para atender ao convite de uma celebração do rei Harald V, da Noruega. E, indeed, adoro participar do que você chamou de ‘aventuras’, ou seja, de estar envolvido com a História no justo momento em que ela está ocorrendo. Vou até puxar um pouco pela memória, para contar-lhe momentos que tive a honra de testemunhar.

Estive em Petrogrado em 1917 e acompanhei o operário Lenin liderando a revolução bolchevique, que – à época não me ocorreu – iria pautar os acontecimentos do século 20. Vi um concerto de Enrico Caruso, em Milão, com sua preciosa performance de Una Furtiva Lacrima de Gaetano Donizetti, poucos anos antes dele contrair a pleurisia que o calaria.

Ouvi, assustado, os primeiros discursos de Adolf Hitler na Hofbräuhaus e, unfortunately, estava em Pearl Harbour durante o ataque de 7 de dezembro de 1941.Como já lhes disse anteriormente, cheguei atrasado à viagem inaugural do Titanic, fato pelo qual não me perdoei até hoje. Shame on me! Comemorei a criação de vários países, vibrando de alegria com os que conseguiam sua liberdade.

De Alto Volta a Rodésia, de Montenegro ao Sudão do Sul, estive em quase todas essas situações – e raramente por acaso. And you know why? Porque há um tipo de emoção embutida nesses acontecimentos, uma alegria espontânea e irresponsável que o torna testemunha ocular da explosão – de alegria, de dor ou de alívio – do momento mágico de uma civilização. Daquele do qual as futuras gerações aprenderão nas escolas ou em um desses horripilantes gadgets que sobreviverem ao irremediável andar da História.

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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