Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Muito prazer, Jozi. Ou uma nova e descolada Joanesburgo

O apelido é carinhosamente usado pelos que se consideram íntimos desse lado jovem da capital da África do Sul. Descubra suas ruas

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2015 | 03h00

JOHANNESBURGO - Querendo soar antenada, e usando os poucos conhecimentos de uma visita-relâmpago anterior, digo “Joburg”. “Jozi”, corrige o francês David Barillot, pulôver sobre os ombros como pede seu estereótipo de origem, sorriso à toa e indicações quentes de quem gosta muito de tudo aquilo. “Diga Jozi, é como falamos”. 

Cristão novo, Barillot mora em Johannesburgo com a mulher e dois filhos pequenos há um par de anos, como gerente de vendas da rede hoteleira Four Seasons, que acaba de abrir uma unidade na cidade. Mostra com empolgação que não apenas o apelido que conheço está datado: há toda uma Johannesburgo para além da conexão no principal aeroporto do país. Uma cidade na qual Mandela é apenas um dos assuntos possíveis, a Copa do Mundo de futebol nem sequer é citada, e onde arte, design, moda e gastronomia apontam para um estilo de vida cosmopolita, bem longe das ideias prontas sobre África do Sul. 

Informo já que uma passadinha não será suficiente. Recomendo pelo menos quatro dias, com um fim de semana inteiro incluído, só para a parte bacana. E ao menos dois dias a mais a quem faz questão de visitar os estádios Soccer City e Ellis Park e de ir ao distrito de Sandton. O bairro suburbano concentrou os investimentos para o Mundial da Fifa e foi transformado em um asséptico shopping center com hotéis e as grifes de sempre, mais a estátua de 6 metros de altura de Mandela na praça que também tem o nome do ex-presidente. 

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Ao que interessa. A outra Johannesburgo, cada vez mais descolada e que dá à cidade predicados de um destino turístico de peso, viceja longe desse legado futebolístico. Vem crescendo nos bairros centrais por meio de um processo contínuo e controverso de requalificação, de investimentos privados e governamentais, e de iniciativas para atrair jovens e gente criativa.

São áreas em que a pesada desigualdade social que ainda define a África do Sul não foi totalmente maquiada. Em meio ao clima artístico e de vida ao ar livre, é possível conversar com moradores sobre assuntos da vida real.

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Proprietária de uma banca de verduras no mercado de produtores dentro do Arts on Main, empreendimento no bairro de Maboneng, Ntombi Gelosi puxou conversa enquanto eu olhava preços na lista escrita a giz. Contou que cultiva sozinha seu sítio de “orgânicos porque é mais barato, você sabe os preços dos defensivos agrícolas?”, cerca de 25 minutos distante dali. E quis saber o que eu achava “da situação dos moçambicanos” – na semana em que eu estava na África do Sul, em abril, eclodiu um conflito xenófobo contra os imigrantes, especialmente os de Moçambique, por causa do desemprego. 

“É muito triste ver pessoas matando semelhantes”, Ntombi respondeu à sua própria questão. “Por outro lado, acho bom escancarar para o mundo a situação desse país, mostrar que não está tudo bem.”

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É verdade que, por prudência, adiamos a visita ao Soweto até ter certeza de que o conflito xenófobo não estava deixando sequelas por lá. Nos demais endereços em que estivemos, a calmaria era absoluta. O Departamento de Polícia Metropolitano admite que crimes como roubos e furtos são um problema na cidade. Mas recomenda: atenção em vez de paranoia. 

Na prática, os cuidados com segurança são aqueles que brasileiros das grandes cidades sabemos de cor. Já as possibilidades de diversão, essas reservam uma surpresa atrás da outra. 

*Viagem a convite da Four Seasons e South Africa Airways, com apoio de South African Tourism. 

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