Jeenah Moon/Reuters
Jeenah Moon/Reuters

Mulheres contemporâneas inspiram roteiros turísticos

Icônicas e inspiradoras: siga os passos de Meghan Markle, Madonna, Lia de Itamaracá, Nina Pandolfo e Michelle Obama

Talita Marchao, Especial para o Estado

06 de março de 2020 | 06h00

Pensar em roteiros inspirados em mulheres fortes logo traz à tona memórias sobre Frida Kahlo, Anne Frank, Cora Coralina, entre outras. Mas não é só no passado que é possível encontrar inspiração para percorrer o mundo. A proposta aqui é conhecer lugares por onde passaram (e passam) mulheres contemporâneas, que seguem transformando os espaços por onde passam e empoderando outras mulheres.

Lia de Itamaracá tornou a ciranda tão famosa no Brasil que não é mais preciso ir a Pernambuco para ver suas apresentações: há shows no Brasil todo. No entanto, viajar coloca o visitante em contato com a cultura local, a entrar na roda com os moradores e a dançar, como Lia explica, “com o pé esquerdo”. 

Nina Pandolfo conquistou espaço na arte de rua – área dominada por homens – e exibe obras impressionantes no mundo todo. Meghan Markle e Michelle Obama, ambas americanas e negras, enfrentam o racismo e inspiram meninas e mulheres, cada uma à sua maneira: como ex-primeira dama e atual influenciadora ou rompendo com a realeza. E a sempre contestadora Madonna, que aos 61 anos mostra que sempre é possível aprender – e ensinar – algo novo. Dá até para cruzar com ela curtindo um fado em Lisboa.

Lia e a ciranda de Itamaracá

Aos 76 anos, Lia de Itamaracá, ou Maria Madalena Correia do Nascimento, é a mais famosa cirandeira do Brasil. A dançarina, cantora e compositora pernambucana é a rainha da ciranda e considerada Patrimônio Vivo de Pernambuco. Nos cinemas, apareceu como Dona Carmelita, a matriarca de Bacurau, que é velada no começo do filme. Lia segue ativa: lançou seu último álbum, Ciranda Sem Fim, no ano passado.

Para entender a ciranda, vale passar pela terra natal de Lia, a Ilha de Itamaracá, a 56 km do Recife. Itamaracá, aliás, significa “pedra que canta” em tupi. Foi badalada na década de 1980, e hoje já não tem o mesmo brilho. Mas a Praia de Jaguaribe vale a visita: o lugar é o favorito de Lia, onde ela cresceu e vive até hoje. Ali, as rodas de ciranda costumam ocorrer no Centro Cultural Estrela de Lia, uma espécie de grande tenda – ela espera apoio estatal para melhorar a infraestrutura do local. 

As rodas de Lia costumam ser anunciadas em suas redes sociais. Mas, como a ciranda é parte da cultura local, não se espante se esbarrar em um grupo cirandando por ali. Se quiser entrar na roda, Lia dá a dica: “Se dança com o pé esquerdo, como se estivesse acompanhando o balanço do mar, que vai e vem, seguindo a pancada do surdo, que dita a marcação no pé”. Ela conta que as rodas juntam as pessoas da comunidade e visitantes, “e todo mundo dança”, sem hierarquia ou liderança.

Lia deu outras dicas de lugares que merecem ser visitados na ilha. “A Praia do Sossego e o Forte Orange são muito bonitos”, conta. Ela se refere ao Forte de Santa Cruz de Itamaracá, construído por holandeses em 1631, posteriormente ocupado por portugueses, que deram o nome que é adotado até hoje. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Para ver e dançar ciranda no Recife, Lia indica o Pátio de São Pedro, onde são realizados eventos de música e dança. O espaço tem bares e restaurantes para comer e tomar cerveja – ali ficam também os memoriais para Chico Science e Luiz Gonzaga. 

Em Pernambuco, ciranda é coisa séria e tem até data comemorativa: 10 de maio. E como a ciranda se transformou em algo orgânico, é comum que qualquer show se transforme, em algum momento, em uma ciranda imensa. É lindo de ver. 

Madonna e sua versão lisboeta

Ícone do feminismo, da sexualidade e da diversidade, Madonna vive mais uma fase de sua carreira como cantora desde que se mudou para Portugal. Ela passou a viver em Lisboa em 2017 por causa do filho, David Banda, que joga no time de base do Benfica, e agora está em turnê pela Europa. Ainda não se sabe se a diva manterá o lar na volta dos shows. Mas o último álbum dela, o Madame X, tem influências da música portuguesa e de Cabo Verde, e seu show exibe referências do fado ao batuque cabo-verdense. Ela ainda canta em inglês, espanhol e português.

Se Portugal mudou Madonna, a cantora também deixou sua marca nas terras lusitanas. Ela é vista frequentemente no Tejo Bar, no coração da boemia de Alfama, o bairro mais antigo da cidade. Madonna já foi vista ali tocando piano, por exemplo. A região é um reduto tradicional do fado, e o passeio pelas ladeiras ajuda a entender a inspiração musical da musa. É onde fica também a Casa de Linhares, famosa pelos jantares acompanhados pela canção popular portuguesa. O bairro é sede ainda do Museu do Fado, no caminho do Tejo Bar, e foi cenário de um ensaio da cantora para a revista Vogue italiana.

Cenário do documentário sobre o novo disco, o Miradouro Panorâmico de Monsanto tem uma vista de 360 graus para a cidade. Quando esteve lá, Madonna recomendou a “arte urbana” do local, que é todo grafitado. Foi construído para abrigar um restaurante que faliu. Por ser distante do centro, o lugar não era tão frequentado por turistas – agora virou parada obrigatória para os fãs da cantora. Mas tenha atenção redobrada para chegar até o mirante, já que o caminho não é bem sinalizado. Se bater dúvida, peça informações para os militares que ficam na área onde começa o caminho até o local – é possível subir andando ou de carro.

Madonna era figura carimbada no Estádio da Luz, do time do filho. É possível visitar o estádio e o museu do Benfica (€ 12,25 ou R$ 61). Entre os lugares mais tradicionais, Madonna também fez questão de postar no Instagram seus passeios pelo Mosteiro dos Jerônimos (€ 10 ou R$ 50), onde ficam túmulos de figuras históricas portuguesas como Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa. 

A Chicago de Michelle Obama

Se você deseja conhecer a trajetória da ex-primeira-dama Michelle Obama, Chicago é essencial. Ainda que o casal tenha ficado em Washington após deixar a Casa Branca, Chicago, onde a família cresceu, receberá o legado presidencial. Será a sede da Biblioteca Presidencial Obama, localizada em Jackson Park, no sul da cidade, ainda sem data de abertura. A própria Michelle define-se como a “garota do sul” de Chicago. 

Para entender como Michelle LaVaughn Robinson tornou-se Obama, vale assistir uma de suas palestras pelo mundo – dá para acompanhar em seu perfil no Instagram, @michelleobama. Em Chicago, o ponto de partida é visitar os arredores da Chase Tower, o arranha-céu de 259 metros em que a advogada conheceu o marido – ela foi a mentora dele. Na região, aproveite para tomar um sorvete na Baskin-Robbins, mesmo lugar em que o casal deu o primeiro beijo após o flerte de Obama. 

Casados, depois que o marido foi eleito senador, viveram em uma casa de tijolos vermelhos em Hyde Park, na South Greenwood Avenue. Enquanto ele trabalhava em Washington, Michelle ficou com as duas filhas pequenas em Chicago. É fácil achar a casa: onde estão concentrados os seguranças.

Outro lugar é a Universidade de Chicago, onde Michelle trabalhou até a campanha presidencial exigir a sua presença. O câmpus com arquitetura neogótica é a sede do Museu Oriental (US$ 10 ou R$ 4,50), com vasta coleção de artefatos da história antiga, e do Museu da Ciência e da Indústria (US$ 19,95 ou R$ 102), com seus experimentos. Vale conhecer ainda a biblioteca.

Além disso, os retratos de Obama e Michelle, feitos respectivamente por Kehinde Wiley e Amy Sherald, que estão expostos na National Portrait Gallery, no Smithsonian Institution, serão expostos este ano em Chicago a partir de junho.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Os olhares de Nina Pandolfo

As bonecas com grandes olhos expressivos pintadas pela artista brasileira Nina Pandolfo estão espalhadas em grandes murais em vários continentes e, claro, na cidade de São Paulo. Além disso, a paulista (que não gosta de ser chamada de grafiteira, já que transita por todas as artes) expôs suas telas em muitas galerias.

O universo lúdico e delicado de Nina está mais perto do que você pensa. Na capital paulista, basta passar com mais atenção pelas meninas grafitadas nos murais da Ligação Leste-Oeste, no centro. O grande desenho foi feito em parceria com artistas como os OsGemeos, Gustavo e Otávio Pandolfo (com quem Nina foi casada), além de Zefix e Finok. O gato gigante na entrada do Museu de Arte Contemporânea (MAC) também é dela.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Ainda em parceria com OsGemeos, Nina pintou na americana Miami uma das obras da Wynwood Walls, a galeria de murais a céu aberto na Flórida; fizeram juntos ainda a impressionante fachada do Castelo de Kelburn, em Largs, próximo a a Glasgow, na Escócia. A lista inclui ainda um mural famoso em Nova York, parte do Rivington Street Wall, o Melhores Amigas, além de paredes pintadas em cidades como Tóquio e Los Angeles.

Perguntamos a Nina como seria o roteiro ideal por suas obras pelo mundo, caso ela pudesse levar um grupo com ela. “Começaria com um pequeno tour em São Paulo. Passaria por Tóquio, Glasgow, Nova York e terminaria em Baku, no Azerbaijão, onde farei a partir de 10 de abril a minha próxima exposição individual, no Museu Heydar Aliyev Center. Uma das salas terá todas as paredes grafitadas”, antecipa a artista.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Nina descobriu as pinturas em muros enquanto fazia um curso de teatro de rua. “Assim como o teatro de rua interferia de forma positiva na rotina das pessoas que passavam pelo local, vi a oportunidade de colocar minhas pinturas nas ruas”, conta a artista. 

“Em alguns locais, pude ver, como telespectadora, motoristas que estavam entediados com o trânsito, sorrirem ao ver um mural meu. Isso para mim foi o melhor retorno que tive. Poder ver que a alegria tocou alguém em seu percurso, ou até mesmo ver que alguém deseja registrar aquela pintura é uma satisfação enorme”, conta a grafiteira.

Meghan e a nova realeza

Agora que o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle se preparam oficialmente para deixar de representar a realeza britânica e passar a bancar seus gastos, a família planeja viver entre o Reino Unido e o Canadá

A primeira mulher negra a integrar a família real britânica é americana, mas viveu em Toronto nos últimos sete anos enquanto gravava a série Suits, na qual interpretou a advogada Rachel Zane, e onde ela conheceu Harry. Em um passeio pelos bairros arborizados e residenciais de Annex e Seaton Village, onde Meghan morava, é possível encontrar bons cafés e restaurantes, especialmente na Bloor Street.

Um de seus lugares favoritos era o bairro de Kensington Market, alguns quarteirões com lugares para comer, beber e comprar frutas e alimentos, com eventos de rua no fim de semana e ares descolados. Outra opção é uma caminhada no Trinity Bellwoods Park, onde Meghan costumava passear com seus cães. O local, tranquilo e pouco procurado por turistas, é perfeito para piqueniques e para curtir um dia com a família, principalmente para crianças. Para comer em um dos restaurantes favoritos da atriz americana, peça uma massa no italiano Terroni (a tábua de frios que ela postou em seu extinto Instagram custa 24 dólares canadenses, ou cerca de R$ 80).

No Canadá, Harry e Meghan estão morando temporariamente em Vitória, na Ilha de Vancouver. Já no Reino Unido, o casal viverá em Windsor, onde fica a Frogmore Cottage, que foi reformada para eles – o dinheiro da obra será devolvido, garantem.

Antes de virar a casa de Harry, Meghan e Archie, a Frogmore Cottage teve moradores ilustres, como o criado indiano Abdul Karim, confidente e professor da rainha Vitória (a história é contada no filme Victoria e Abdul), e a duquesa Xenia Alexandrovna, irmã do czar russo Nicolau II, executado na Revolução Russa. Mas, enquanto a casa do futuro casal “ex-real” não pode ser visitada, seu arredores rendem um passeio com ares da realeza.

A cerca de uma hora de Londres de trem, o Castelo de Windsor é a residência de fim de semana da rainha Elizabeth II. É possível fazer o tour nas instalações (23,50 libras ou R$ 135) até mesmo quando sua proprietária está presente (mas você não vai cruzar com a rainha pelos corredores).

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