Multidões pela ensolarada Dubrovnik

Natasha mostra as unhas sobre o mármore da Stradun. Pintou-as todas à francesinha. Mas, em vez do branco tradicional, usou um maravilha na base. Queria utilizar as mãos de modelo para comprar um adereço do seu casamento. Era grande a ansiedade da nossa guia. O matrimônio estava perto e ela ali, a caminhar com mais um grupo pela grande muralha da cidade, fugindo do sol para não marcar a pele, economizando seu português lusitano para poupar a voz, mas encantada por saber que chamamos de venezianas as janelas que marcam Dubrovnik. "Venezianas? Que bonito!"

DUBROVNIK, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2012 | 03h12

Bonito e coincidentemente perfeito para uma cidade que esteve sob o domínio de Veneza de 1205 a 1358. É fácil perceber a influência italiana na arquitetura, nos gelatos, nos varais que enlaçam a cidade de pedra. Veneza resolveu se apossar de Dubrovnik por astúcia comercial. A cidade havia se tornado, no final do século 12, um influente centro na costa adriática, fazendo a ponte entre o Mediterrâneo e os Bálcãs. Depois de livre, Dubrovnik investiu mais ainda na frota marítima e na diplomacia. Falava a língua da paz, queria era prosperar.

O terremoto de 1667, porém, abalou sua estrutura, deixou a cidade aos pedaços, só sobreviveram o Palácio de Sponza e o Palácio do Reitor. Ao mesmo tempo surgiam novas potências marítimas, o declínio estava à vista. Napoleão deu o golpe de misericórdia em 1808, e em 1815 Dubrovnik passou para as mãos do império Austro-húngaro, do qual só se livrou em 1918.

A partir de então a cidade foi guinando para o turismo. Hoje é tamanho o "despejo" de visitantes por conta dos cruzeiros - chegam a oito por dia na alta temporada -, que já se pensa em restringir o footing na cidade velha, onde pelo menos não entram carros. A atração-mor, sem dúvida, são os quase 2 quilômetros de muralhas de até 25 metros de altura, uma coisa vertiginosa à beira-mar, praticamente intacta, com 16 torres, 130 canhões e 15 fortes.

Um dos mais famosos, o Lovrjenac, o Gibraltar de Dubrovnik, foi cenário da segunda temporada de Games of Thrones, série da HBO. Na entrada do forte cinematográfico, uma frase de Quixote: "Non bene pro Toto libertas venditur Auro". A liberdade não será vendida por nenhum ouro do mundo.

Já no rés do chão, como diz Natasha, entra-se na cidade pelo Portão de Pile, uma ponte levadiça datada de 1537. Depois passa-se ao portão interno, de 1460, e então lá está ela, a Stradun marmorizada, ladeada de lojas de souvenirs, onde ouvi mais de um sotaque brasileiro - não a comprar, mas comprando camisetas, porta-comprimidos, azeites, brinquedos, o que desse para carregar. Peças delicadas, de pouco peso e nem tão caras assim, sãs as joias feitas por ourives da região.

Na parte mais baixa da Stradun ficam então o Palácio do Reitor, de inspiração renascentista e gótica, com o escritório do próprio, as dependências íntimas, museus restaurados. O Sponza, ali do lado, guarda os Arquivos do Estado, documentos históricos da cidade e seus princípios de liberdade a qualquer custo. Há também uma galeria de fotos dos terríveis tempos da guerra contra a Sérvia, que abateu Dubrovnik quando ela já era Patrimônio da Humanidade. Pegado ao palácio, outro marco local: a torre do sino da cidade. O marcador em forma de polvo (ou seria um sol escaldante?) é belíssimo. Embaixo dele, uma esfera de cobre mostra as fases da lua.

De repente, de uma das arcadas, surge um casal de noivos. Estão ali para engrossar a estatística de que Dubrovnik é o grande roteiro de charme matrimonial do continente. O site dubrovnikluxuryweddings.com dá seus motivos para o sucesso da proposta: o cenário cultural, locações incríveis à beira do Adriático, vinhos e cozinha mediterrânea extraordinários, um destino ensolarado a maior parte do ano, custos razoáveis, a famosa hospitalidade dubrovnikiana, poucos obstáculos burocráticos e legais.

Natasha não diz, mas leva uma vantagem sobre os estrangeiros: todos os seus rituais de união fazem ainda mais sentido porque sua família sobreviveu à guerra e ajudou a recriar a cidade. Como diz uma frase colhida num livro, "a diversidade da herança croata é imensa e rica de obras do espírito humano e das mãos aplicadas. Deixem os rastros nestas terras, guardem-nas na sua memória e regressem!" Em tempo: Natasha enviou a foto de seu feliz casamento, que você vê acima./ MÔNICA MANIR

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