Russell Contreras/AP
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Museu da Escravidão, em Liverpool, exibe um doloroso legado

International Slavery Museum, em Liverpool, Inglaterra, conta a história dos escravos da África e como a cidade britânica se beneficiou de seu comércio

Russell Contreras, AP

29 de dezembro de 2019 | 08h00

​Correntes vermelhas estão expostas sobre um soturno fundo cinza. Os grilhões agora enferrujados já acorrentaram tornozelos humanos durante viagens do século 18 da África a algum porto europeu e, depois, até o continente americano. Quem acorrentavam é um mistério, mas, como cidadão dos Estados Unidos, provavelmente compartilhei o pão com algum descendente da mulher forçada a usar esses grilhões. Provavelmente meu tio lutou ao lado de um parente seu na guerra. Ou é possível que um de seus familiares distantes seja agora meu parente.

Essas foram algumas das ideias que passaram pela minha mente recentemente enquanto eu visitava o Museu Internacional da Escravidão em Liverpool, na Inglaterra, um local de reflexão. Fundado em 2007, durante o bicentenário da abolição do comércio britânico de escravos, o museu fica a uma curta distância das docas onde os navios eram reparados e equipados para comercializar escravos no século 18.

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Antigamente um importante porto de escravos, Liverpool cresceu graças ao vínculo financeiro dos comerciantes com a escravidão nos Estados Unidos. Hoje, o museu conta a história da escravização de pessoas da África e como essa cidade britânica se beneficiou dela.

O lugar em Liverpool recupera um espaço antes ligado ao sofrimento humano e é semelhante ao Mercado de Escravos, o museu da escravidão de Lagos, em Portugal, onde começou o comércio de escravos na Europa. No entanto, o de Liverpool é muito maior, interativo e ambicioso, sem ser apelativo.

No interior, os visitantes são imediatamente levados a uma experiência dedicada à África antes da chegada dos europeus. Você é recebido por frases de abolicionistas americanos e líderes de direitos humanos gravadas nas paredes de pedra, antes de ver as máscaras tradicionais de Serra Leoa e Mali nos dias atuais. Há coloridos tecidos de Gana, elaborados adornos de Camarões e exemplos de murais de igbo da Nigéria. Você pode ouvir tambores da República do Congo ou uma música de caça do povo mbuti. A mensagem é clara: antes da escravidão, a África era um continente diverso e complexo, com tradições artísticas e religiosas de longa data.

Do comércio triangular à luta pelo direitos civis

Depois, os visitantes entram em uma sala que aborda a escravidão e o brutal comércio triangular, que enviou milhões de africanos para serem escravos nas Américas. Ideologias racistas e o desconhecimento da Europa em relação às culturas da África incentivaram o comércio de escravos, que cresceu quando as potências europeias se expandiram para a América, mostra o museu. Nesta sala, os detalhes da travessia do navio Essex são reconstruídos. Esse navio negreiro partiu de Liverpool em 13 de junho de 1783, apenas nove anos após a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Nessa área sobre o comércio triangular, os visitantes se deparam com algemas e correntes usadas em fortes e castelos ao longo da costa africana para manter os humanos detidos antes de sua terrível jornada. Uma pequena réplica de um navio negreiro ilustra como eles colocavam os prisioneiros em pequenos compartimentos. Ao lado do navio, existem chicotes e ferros de marcação do século 18. Sim, eles eram usados.

Depois, houve resistência, libertação e a longa luta pelos direitos civis. Surpreendentemente, cheguei a uma área dedicada aos heróis afro-americanos, de Harriet Tubman ao reverendo Martin Luther King Jr. e Malcom X. O noticiário das décadas de 1950 e 1960 ilustra como os descendentes daqueles que foram negociados no comércio tringular tiveram de lutar por direitos humanos e contra a violência em meio à supremacia branca. O museu termina com um espaço para exposições temporárias relacionadas à escravidão moderna. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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