Museu do Prado
Museu do Prado 200 anos Museu do Prado

Museu do Prado 200 anos Museu do Prado

Museu do Prado 200 anos: passamos um dia no maior centro de arte de Madri

Visita, que exige pelo menos 4 horas para ser feita como se deve, inclui grandes expoentes das artes renascentista e barroca e culmina com 'As Meninas', de Diego Velázquez

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Museu do Prado 200 anos Museu do Prado

Trajando um elegante vestido vermelho, a mulher aponta, de dentro de seus aposentos, para um edifício rosado, com colunas centrais. Na imagem, é possível ver apenas duas pessoas caminhando em direção à construção, sem nada ao redor. Duzentos anos depois dessa cena, protagonizada pela rainha da Espanha Maria Isabel de Bragança (irmã do nosso D. Pedro I) e imortalizada na pintura de Bernardo López Piquer, Maria Isabel de Bragança fundadora do Museu do Prado (1829), a imagem que vi do Museu do Prado era bem diferente. 

Diante dos meus olhos de plebeia, a fotografia mostra o mesmo edifício rosado coberto por um longo pano onde se lê 1819-2019. Ao redor dele, não duas, mas centenas de pessoas agora cruzam de um lado para o outro, apressadas ou contemplativas. Tudo ali é multifacetado, popular e nobre, caótico e organizado. 

Eram 11h da manhã quando me vi frente a frente com a tal fachada rosada do Prado para viver uma experiência única: passar um dia inteiro dentro dele, descobrindo suas principais obras e tantas outras que foram se aconchegando em suas salas, feitas, a princípio, para abrigar o Gabinete de Ciências Naturais. Por insistência da rainha – essa mesma do retrato –, se tornou casa da arte, abrigando 311 pinturas da Coleção Real. Hoje, são 2 mil pinturas e incontáveis esculturas, estampas, desenhos e peças. 

No início da manhã, a fila para comprar ingressos não é tão grande, ao menos até o início das férias escolares. Outro horário mais vazio – e gratuito – é após às 18h. Mas tenha em mente que o Prado exige ao menos 4 horas para ser apreciado como se deve. 

Foram 40 minutos até entrar, passando pela Porta de Velázquez – seu portal de boas-vindas não poderia ter outro nome que não o do pintor de sua principal obra, As Meninas. Estava solteira, mas não sozinha: me acompanhava um bom audioguia em espanhol (não há em português), cuja bateria acabou após oito horas.

MULTIMÍDIA - Navegue por mais de 6 mil obras do Museu do Prado guiado pela inteligência artificial 

TEMPORÁRIA, PERO NO MUCHO

Antes de subir ao primeiro andar, onde está a maioria das pinturas famosas que compõem o acervo permanente, quis conferir as exposições temporárias – em comemoração aos 200 anos, o museu tem organizado várias de altíssima qualidade. No entanto, comecei por uma mostra temporária, mas nem tanto. Fra Angelico e os Inícios do Renascimento em Florença reúne obras que também pertencem ao Prado, mas que, até setembro, estão agrupadas em uma sala especial.

Nada mais justo do que dar mais atenção ao grande contador de histórias religiosas que foi Fra Angelico, florentino que nasceu, viveu e se formou pintor teólogo entre os séculos 14 e 15. É dele o primeiro retábulo conhecido do Renascimento composto de forma retangular (e não em arco) e sem o fundo dourado. Entre tantos detalhes, Anunciação e a Expulsão de Adão e Eva do Éden (1425-1426) possui perspectiva, algo moderno à época.

RENASCIMENTO E BARROCO

Além de Fra Angelico, há outros renascentistas de peso ocupando parte de dois pisos do museu. A coleção começa com obras italianas do século 14, concentradas no térreo, e depois vai se expandindo para outras regiões da Europa (e por andares do museu). Assim, cria-se uma cadência interessante que nos ajuda a compreender as narrativas históricas do continente, que influenciaram e foram influenciadas pela cultura. 

O Cardeal (1510-1511) e as diferentes versões de sagrada família pintadas por Rafael, por exemplo, denunciam o apreço da corte pelos temas religiosos e moralistas – A Sagrada Família, chamada A Perla era a mais apreciada da coleção de Felipe IV (1605-1665), por exemplo. Outra obra-prima com a temática é O Jardim das Delícias Terrenas, do holandês Hieronymus Bosch, ou El Bosco, cujas melhores e mais importantes pinturas estão no Prado.

Italianos, flamengos e holandeses já renderiam roteiros para uma única visita – no site da instituição, há sugestões bem interessantes de trajeto de acordo com o tempo que se tem disponível. Não deixe fora de seu roteiro O Triunfo da Morte (1562-1563), de Bruegel; O Imperador Carlos V a Cavalo em Mulhberg (1548), de Ticiano; O Lava-pés (1548-1549), de Tintoretto; e Cenas da História de Nastagio degli Onesti (1483), de Botticelli.

Mas há ainda ótimos renascentistas de outras regiões, como o alemão Albrecht Dürer e o grego El Greco, que viveu seu auge artístico na Espanha. Deles, meus quadros preferidos são, respectivamente, Autorretrato (1595-1600) e A Mão do Cavaleiro em seu Peito (1580).

UM VELÁZQUEZ, UM CAFÉ

De Fra Angelico e seus retábulos, caí numa sala oval, rodeada por retratos de nobres em estilo barroco. Li na placa de um deles a autoria: “Diego Velázquez”. Virei as costas e encarei – como no Museu do Louvre seria impossível fazer diante da disputada Monalisa – a Infanta Margarida me fitando de esguia, enquanto posava, pomposa, para um pintor bigodudo, rodeada por cortesãs e por seus pais, os reis Felipe IV e Maria Ana de Áustria. 

Sorri, feliz. Era meu esperado encontro com As Meninas (1656), obra mais conhecida de Velázquez e grande responsável pelos quase 3 milhões de visitantes anuais do museu.

Foi um longo caminho pelas obras do mestre espanhol e de seus contemporâneos. Quando me dei conta, eram 15h e eu já havia percorrido dezenas de salas. Como, além de arte, a gente precisa de comida, parei em um dos quiosques espalhados pelo museu e almocei um salgado e um café com leite – se quiser algo com mais sustança, há um restaurante no edifício. De volta às galerias, decidi copiar outro visitante e alongar pernas e braços, sem risco de vergonha. 

Renovada, segui. Fui e voltei às artes renascentista e barroca inúmeras vezes, passando por outros movimentos importantes como o romantismo de Goya, de quem é imperdível a dramática cena de 3 de Maio de 1808 em Madrid (1814).  Mais do que uma separação exata das escolas, a curadoria do Prado se preocupa em mostrar como elas e seus protagonistas foram criando vínculos e inspirações ao longo do tempo.

Assim, quando cheguei a Rubens e Caravaggio, compreendi melhor seus contextos e me emocionei diante de David e Golias (1600), do primeiro, e de As Três Graças (1630-1635), do segundo, censurada pela Inquisição.

E toda a importância de Velázquez à arte mundial fez sentido quando, já perto de ir embora, expulsa pelo alarme de encerramento, parei em frente à Dona Isabel a Católica Ditando seu Testamento (1864), de Eduardo Rosales. Identifiquei na cena o efeito teatral e dramático, tão fundamental em Velázquez, sendo resgatado por um artista do século 19 que, a partir da tradição, conferiu modernidade à pintura espanhola. Perfeita metonímia do que é e propõe, com a autoridade de 200 anos, o Museu do Prado.

3 CURIOSIDADES SOBRE O PRADO

1 - Fundadora do Prado era irmã de D. Pedro I

Filha de Carlota Joaquina e D. João VI, Maria Isabel de Bragança era irmã mais velha de D. Pedro I. Ela viajou com a família real ao Brasil em 1807, mas voltou à Europa em 1816 – mesmo ano em que se casou com o rei Fernando VII da Espanha. Reinou por 2 anos (morreu aos 21, no parto). Mas, amante das artes, deixou como legado o Museu do Prado. Ela se empenhou para transformar em museu de arte o edifício projetado por Juan Villanueva, mas morreu antes da inauguração. A obra ao lado, de Bernardo López Piquer, foi pintada postumamente, em 1829.

2 - Os maiores acervos

135 pinturas de Goya fazem parte do acervo do Prado. Ele, no entanto, não é o pintor com o maior número de obras na coleção do museu. Carlos de Haes, que viveu no século 19, tem um total de 199 quadros. 

3 - Sala reservada à família real em 1819 é remontada 

O Prado manteve, até 1865, um espaço destinado ao rei Fernando VII e à sua família, chamado Gabinete de Descanso de Suas Majestades. Nestes 200 anos, o museu remontou a sala como ela era na época dos fundadores, incluindo quadros originais, como A Família de Felipe V. A sala ficará assim até novembro.

O QUE VER POR PERTO

A saída do Prado é em frente ao Real Jardim Botânico. Seus jardins proporcionam um passeio romântico e ganham pitadas culturais com apresentações musicais e mostras temporárias. Mais: bit.ly/realbotanico. Outro lugar que merece a visita, mesmo que você não chegue ao Prado de metrô, é a Estación del Arte (linha 1 azul). Além de dar acessos aos principais pontos culturais do Passeio do Prado, ela tem reproduções de obras de arte que estão nos museus ao redor.

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