Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía
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Museu Reina Sofía, a casa de 'Guernica' e de outras grandes obras do século 20

Museu de Madri dá continuidade, de certa forma, à coleção do Prado, com acervo que começa a ser produzido no início do século 20

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía

Distância a partir do Museu do Prado: 750 metros (10 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 1990, 171 anos depois do Museu do Prado.

O que ver: o Reina Sofía continua, de certa forma, a linha cronológica do Prado, com obras produzidas a partir do século 20 (as expostas no Museu do Prado vão até o século 19).

Site: museoreinasofia.es

Serviços

Museu principal 

Rua de Santa Isabel, 52. Fecha às terças; abre das 10h às 21h de segunda a sábado; aos domingos, abre das 10h às 19h, com a bilheteria fechando às 14h e entrada gratuita para a exposição principal do museu a partir das 13h30. Ingressos: 10 euros (8 euros online); 14,50 euros com áudio guia (não tem em português).  

Palácio Velázquez e Palácio de Cristal

Parque El Retiro, Plaza de la Independencia. Abre diariamente; das 10h às 22h de abril a setembro; das 10h às 19h outubro e março; das 10h às 18h de novembro a fevereiro. Grátis.  

A VISITA

“Comprei um livro, Der Blaue Reiter, sobre a arte mais avançada: a dos ‘fauves’, dos ‘futuristas’ e ‘cubistas’. Neles, há muitas coisas que chocam os burgueses: quadros sem natureza, apenas cores e linhas, por exemplo… Coisas que não gosto muito, é verdade, mas não estou insatisfeito, porque vejo, por um lado, como eu, por mim mesmo, sem influências externas, tenho trabalhado seguindo a tendência que será a que dominará a arte mais elevada no futuro”. 

Quando o artista Xul Solar escreveu, numa carta ao pai, as palavras acima, o ano era 1912 e o local, San Fernando, na Argentina. Antenado com as tendências artísticas que rompiam o novo século, Xul mergulhou na arte geométrica que quebrava a ordem das figuras em seus respectivos contornos. Era chegada a vez de o cubismo, ou das várias facetas do cubismo, ganhar as telas e fazer história com nomes que viriam a se consagrar ao longo da primeira metade do século 20. 

A mais famosa dessas facetas está em Guernica (1937), obra-prima de Pablo Picasso que, desde 1992, está no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía depois de uma temporada no Museu do Prado. Mas, antes de chegar a ela, numa seção da sala 206 (e, neste texto, daqui a alguns parágrafos), encontramos pelo caminho outras pinturas e artistas que têm muito a nos contar e que nos ajudam a entender todo o contexto de Guernica. Além de Picasso, nomes como Georges Braque, Juan Gris, Fernand Léger, Robert e Sonia Delaunay assinam boa parte das obras mais atraentes museu. 

Tanto quanto sua coleção, o Reina Sofía tem uma disposição espacial mais atual do que a do Prado - são, afinal, 170 anos de diferença etária. Na fachada já se nota: à frente da construção do século 18, projetada a mando de Carlos III por Francisco Sabatini para ser Hospital Geral, dois elevadores com paredes de vidro realçam tempos modernos com o passado clássico.

Suas 53 salas se espalham por quatro andares, dois dedicados à coleção permanente e dois às temporárias. Para ir direto ao ponto ou para seguir uma ordem cronológica, comece pelo segundo andar, onde estão importantes exemplares do cubismo e do surrealismo. Ali, na sala 201, Cabeça de Mulher (Fernande), de 1909, em que Picasso retrata uma de suas amantes, foi responsável pelo meu ótimo início de passeio pelo museu. 

Neste mesmo espaço, encontrei o depoimento de Xul Solar e outras obras diante das quais passei longos minutos, admirando. É o caso de Composição Cubista (1916-1919), da espanhola María Blanchard, que chamou minha atenção pela estética, e de A Garrafa de Anis (1914), do espanhol Juan Gris, que utilizou a curiosa técnica da colagem no cubismo para explorar as nuances da sociedade moderna, marcada pela informação e consumismo. 

É também neste segundo andar que estão obras de Salvador Dalí, repletas de significados e que representam diferentes fases de seu vasto conjunto artístico,mais amplo do que o surrealismo que lhe deu fama. Sua Natureza Morta, de 1923, ao lado de outros exemplares de natureza morta de pintores como Juan Gris, aumentou minha simpatia pelo estilo.

Descobri no Sofía a arte consequente dos laços de amor e cumplicidade artística que o pintor catalão manteve com o poeta Federico García Lorca. Algumas de suas obras, como a surrealista Enigma Sem Fim (1939), que mostra seis diferentes momentos numa só pintura e traz um quê de seu encontro com Freud um ano antes, retrata Lorca assassinado em 1936 - era o início da Guerra Civil Espanhola.  

Há ainda uma sala cuja coleção pertence à empresa espanhola Telefônica e traz nomes importantes de artistas sul-americanos. Entre eles, os uruguaios Joaquim Torres Garcia e Rafael Barradas e o pernambucano Vicente do Rego Monteiro, cuja única obra é justamente de uma natureza morta, Os Talheres, de 1925. Há, ainda, dois exemplares do belga René Magritte e de um outro espanhol imperdível, Juan Miró, com algumas obras na mais cobiçada das salas, a 206.

ESTRELA SEM FLASH

Foi só sacar meu celular para registrar os movimentos das dançarinas do Ballet Triádico, do alemão Oskar Schlemmer, importante nome da Escola de Bauhaus - sobre a qual, aliás, temos um especial por ocasião de seu centenário celebrado neste 2019 (bit.ly/100anosbauhaus)  -, para que a segurança me chamasse a atenção. Ali, no início das salas 206, nada de fotografias, com ou sem flash.

Não deixei de lamentar pela impossibilidade de trazer para casa registros de obras desta parte do museu, a mais inesquecível. Mas há nela tanto a se observar, refletir e se emocionar que, fotografar,  de fato, não é prioridade. 

PREMONIÇÕES DE UMA GUERRA

Como são dedicadas ao antes, durante e depois da Guerra Civil Espanhola, as divisórias da longa sala 206 recebem nomes como Sala Premonição da Guerra Civil e Sala Surrealismo no Exílio Espanhol. Logo no começo, fotografias de Alfonso Sanches Portela e uma pintura angustiante de Salvador Dalí, Estudo para a Premonição de Guerra Civil (1935), com um corpo desmontado em partes, já anunciam a emoção do que virá pela frente.

Me assustei, na sala seguinte, com a imagem de um quadro que, apesar do tamanho reduzido, muito tinha de Guernica. Na placa ao lado, compreendi: Madre com niño morto faz parte de uma sequência de desenhos preparatórios, produzidos em 1937, para o grande mural que é a obra-prima de Picasso

É uma imersão no processo criativo do pintor, permeada por outras obras e artistas que ajudam a entender o contexto espanhol e mundial da década de 1930 e de 1940. Pinturas como a de Horácio Ferrer; esculturas como de Alberto Sanches - que está em tamanho real na entrada do museu -; cartazes e quadros/fotografias que mesclam arte e propaganda republicana, com destaque para a classe operároa revolucionária de Josep Reanau; a reportagem cinematográfica de Jean Paul Dreyfus sobre a guerra e o filme de Luís Buñuel

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FINALMENTE, 'GUERNICA'

Tudo isso antecede a passagem para a sala ao lado, onde, de ponta a ponta de uma parede, Guernica se apresenta. O touro, a luz da modernidade, a mãe com o filho morto, rostos de desespero. Tons de preto, branco e cinza. Formas geométricas cuja direção é sempre a esquerda de quem olha. É impossível contemplar o mural de quase 8 metros de comprimento de uma só vez. 

A cada olhar, um novo aspecto é captado. Misto de dor e luta, Guernica é o “testemunho da população basca bombardeada por alemães e símbolo da luta contra a opressão”, como diz a voz do audioguia que me acompanhou. Expressão do simbolismo, cubismo e do surrealismo, a obra recupera a tradição do barroco espanhol e vai além do horror da guerra na cidade de Guernica. Ela é mesmo uma premonição - ou uma incrível análise conjuntural - dos horrores que viriam a seguir, com a Segunda Guerra Mundial. 

GUERNICA NO BRASIL

Ao redor dela, há fotografias e documentos que narram o processo de criação do quadro-mural e dos bastidores que envolvem sua história. Uma curiosidade é a carta do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) para o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) da década de 1950, quando Guernica estava sob custódia de Nova York a pedido de Picasso (o pintor só autorizou o retorno de sua principal criação para a Espanha em 1981, após a redemocratização do país). No documento, a instituição nova-iorquina tratava do empréstimo da obra para a 2ª Bienal de Arte de São Paulo e deixava claro que, caso algo ocorresse com a pintura, toda a enorme responsabilidade seria do Brasil. 

A sequência de espaços da sala 206 termina com as representações do ser humano animalizado pela guerra do artista André Masson e com fotografias e propagandas do movimento falangista, grupo político fascista que atuou na Guerra Civil Espanhola e que ajudou a instaurar, posteriormente, o regime fascista na Espanha, sob o comando do ditador Franco. 

A GUERRA ACABOU?

O quarto andar é o que reserva o maior número de salas - são 30 ao todo. Como gastei um longo tempo no segundo andar, foi uma surpresa a quantidade de obras que ainda encontraria pela frente. Se seu crush com a arte tiver um quê mais contemporâneo, pense em ficar mais minutos por aqui. 

“A guerra acabou?” dá nome à essa parte da coleção permanente, continuidade cronológica aos movimentos artísticos, contextos históricos e reflexões sobre a humanidade que começam no segundo andar. A distopia e a irracionalidade do pós-guerra e do pós-franquismo, a “reinvenção da modernidade” norte-americana, a abstração geométrica e a pop art. Tudo está reunido no quarto andar, com nomes como os dos franceses Alain Resnais, cineasta, e Marcel Duchamp, pintor e escultor, e o expressionista norte-americano Robert Rauschenberg

Cansada e faminta, quase passei despercebida pela coleção Patrícia Phelps de Cisneros, uma organização de arte latino-americana com origem na Venezuela. Na sala, encontrei exemplares dos brasileiros Hélio Oiticica, Lígia Clark, Willys de Castro e Ligia Papp. E tem até um Kandinsky, destoando da linha sul-americana. Na saída, um último quadro: Mulher sentada numa cadeira cinza (1883). Era Picasso fechando o roteiro que ele também começou. 

O que vem depois disso, claro, é o pós-modernismo, com representação em uma sala do primeiro andar, a 104. Ali também há obras que retratam nossos tempos e movimentos políticos, como a revolução feminista expressa nas obras de Ree Morton, artista norte-americana identificada com o pós-minimalismo. 

LER E COMER

Para saciar a fome, uma dica é descer ao último andar do museu e conferir o cardápio do restaurante Arzábal, com frutos do mar, mariscos, pescados, carnes e saladas. O local, rodeado por plantas e iluminado por luz natural do dia, é lindo e charmoso e os pratos custam, em média, de 10 a 20 euros; reserve em bit.ly/arzabalreinasofia. Outro restaurante e cafeteria dentro do museu é o NuBel, com opções que vão de café da manhã a coquetéis: bit.ly/nubelreinasofia

Para quem gosta de se perder em livros, há, além da tenda com produtos relacionados ao museu e suas obras, A Central, uma livraria especializada na área de humanas. 

Distância a partir do Museu do Prado:  1,1 quilômetros (14 minutos de caminhada).

O que ver: exposições temporárias e gratuitas do Reina Sofía.

Site: museoreinasofia.es

PALÁCIO VELÁZQUEZ E PALÁCIO DE CRISTAL

Dentro do Parque El Retiro, o Palácio Velázquez não tem qualquer relação com  o pintor espanhol. O nome do local é uma homenagem a seu arquiteto,  Ricardo Velázquez Bosco, que projetou o espaço no fim do século 19 junto ao Palácio de Cristal - outra construção do parque dedicada à arte, com exposições temporárias e gratuitas do Reina Sofía.

No Palácio Velázquez está uma das manifestações artísticas que mais me admirou nesta viagem a Madri. Até 8 de setembro, obras do pintor japonês Tetsuyo Ishida compõem seu enorme salão, branco e iluminado naturalmente graças a abóbadas de vidro do edifício oitocentista.

Autorretrato de outro é a primeira mostra retrospectiva fora do Japão do artista, morto em 2005. Em pinturas, desenhos e cadernos, Tetsuyo retrata com ironia ácida a alienação do sujeito contemporâneo no capitalismo das altas tecnologias. Como no clipe Another Brick in the wall, do Pink Floyd, o ser humano aparece, assim, como máquina padronizada e totalmente descartável, seguindo a lógica imposta da produção. Mebae (Despertar), de 1998, exemplifica a crítica social de Tetsuyo.

Pertinho do Palácio Velázquez, o Palácio de Cristal lembra o do Jardim Botânico de Curitiba. Construído em 1887, é todo de vidro e ferro, mas no lugar de plantas, é preenchido com arte: até 8 de setembro, a exposição Charles Ray - Cuatro moldes convida o visitante a interagir com esculturas humanas, em tamanho real e em diferentes ações, do artista norte-americano. No amplo espaço do palácio, iluminado por todos os lados, cada obra ganha destaque no seu canto e, ao circundá-las, cada observador é capaz de dar o seu sentido pessoal ao que vê.

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