Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Museus para aprender, relembrar ou bebericar em Curaçau

Das tristes memórias da escravidão ao festivo Curaçao Blue, um tour pelos ícones da história local

Thiago Momm, O Estado de S. Paulo

15 Junho 2015 | 19h56

Bem verdade que na chegada o visitante pode ter um sentimento misto. É que o excelente Kura Hulanda, um museu antropológico com a história do tráfico de escravos como maior destaque, é parte de uma aprimorada vila colonial com spa, jardins, café, 80 quartos de luxo e um zelo estético de set de novela. Tudo isso, aliás, em área que inclui uma praça onde os holandeses vendiam escravos. Resulta que o museu está cercado por uma atmosfera de eufemismo.

Basta conhecer melhor o Kura Hulanda, porém, para perceber a seriedade da proposta. O acervo partiu da coleção pessoal do filantropo holandês Jacob Gelt Dekker, autor de um livro que fala dos sonhos de crianças africanas e circula, como parte de uma iniciativa maior, em colégios da ilha. O tour virtual do museu (kurahulanda.com) oferece apenas textos, mas aborda 22 tópicos com ênfase e profundidade igualadas por poucas curadorias, focando inclusive lutas raciais pós-escravidão.

A visita em si faz refletir seriamente sobre a colonização holandesa. As primeiras salas partem de um contexto mais amplo. Itens remotos da Suméria, Babilônia, Assíria, Palestina, Israel e região remetem à origem humana comum. Outra seção se dedica à arte antilhana. O que mais chama a atenção, de qualquer modo, são as salas com artigos de reinos do oeste africano (passando por suas crenças e religiões), do mercado escravocrata transatlântico e da escravidão nos Estados Unidos (há de uniformes da Ku Klux Klan a jornais racistas do final do século 19, um deles apelando à “última chance de supremacia branca” no país). 

Duzentos anos de escravidão. A escravidão em Curaçau, especificamente, perdurou por duzentos anos – sob a direção da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, Willemstad foi um centro de comércio humano de 1662 até a abolição, em 1863. A independência conseguida no Haiti, na década de 1790, estimulara uma mobilização escrava frustrada pela liberdade em Curaçau, em 1795, tema de Tula – A revolta (2013). O filme mescla holandeses, norte-americanos e curaçauenses no elenco e é falado em inglês. Tula, hoje um herói local, foi o escravo à frente da mobilização. O filme não arrisca abstrações, mas o apelo direto, nesse caso, serve para colocar em primeiro plano o que evitamos imaginar.

Próximo do Kura Hulanda, o museu Marítimo (curacaomaritime.com) também merece visita. O interior do prédio remete ao formato de um navio. Maquetes de embarcações são o grande destaque e a loja da entrada, com vários livros relevantes sobre Curaçau, vale ao menos uma passadinha. 

Os três andares do museu narram da remota chegada de indígenas à ilha ao desembarque dos espanhóis, em 1499, para depois culminar na ocupação holandesa e no desenvolvimento de Willemstad como base naval e comércio de bens – em meados do século 20, muitos turistas já visitavam Curaçau para comprar joias, câmeras, perfumes e afins. 

Os cruzeiros, aliás, há mais de cem anos aportam por lá. O primeiro saiu de Nova York e visitou Curaçau em 1901. A diferença óbvia são os números – 5 mil cruzeiristas desembarcaram em 1950, contra mais de 400 mil anuais hoje.

Um brinde. Mais alcoólico que histórico, o museu Curaçao Liqueur (curacaoliqueur.com) é, na verdade, a fábrica da famosa bebida criada há 120 anos e bebericada pura, dessacralizada sobre sorvetes ou misturada em drinques tradicionais como Capitão América (com groselha e rum). Tem quem só lembre do licor na coloração azul-alto-mar, mas há versões em outros tons. Uma fruta cítrica não-nativa, Laraha, é a base da receita. A visita à fábrica é simples, mas inclui o mais importante: provar a bebida. 

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