Gustavo Coltri/Estadão
Gustavo Coltri/Estadão

Na beira do rio, todos os sabores de Belém

Dinâmica é algo caótica para não iniciados e os aromas podem incomodar. Mesmo assim, acompanhar as primeiras horas do dia no Ver-o-Peso é o jeito mais autêntico de começar a degustar a Amazônia

Gustavo Coltri, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2012 | 02h10

Belém não é uma cidade insone, mas acorda cedo. Antes do nascer do sol, sua orla banhada pelo Rio Guajará fervilha de gente. De um lado, turistas saem de barco pelas intrincadas rotas fluviais da região em busca das riquezas da mata. Do outro, embarcações locais chegam com o que há de melhor na floresta tropical.

Às 4h30, não há espaço vago no cais do mercado Ver-o-Peso, completamente tomado por barcos abarrotados de peixes frescos. Trabalhadores ocupam a rua, esvaziando os cascos e enchendo as calçadas com os produtos: há camarões vivos, pirarucus, tamuatás, filhotes e outras espécies semelhantes demais entre si para serem diferenciadas pelo olhar de um mero visitante.

Ainda de madrugada, é na rua que o comércio se desenrola, com chão molhado e odores nem sempre agradáveis. Situação que levou o governo federal a construir um novo cais para os peixeiros, agora longe do centro histórico, e que deve ficar pronto até o fim do ano. Por enquanto, há gente de todo tipo no mercado que já contabiliza 385 anos, e, na penumbra, fica difícil reconhecer quem é quem: balanceiros controlando a saída dos produtos, carregadores, comerciantes e até alguns turistas.

Barcos pequenos também chegam carregados de outro item costumeiro na região, o açaí. De mão em mão, cestos cheios do fruto in natura - que é quase insípido, com um toque amargo - são acumulados à beira do cais e ali mesmo comercializados. Tudo antes do primeiro sinal de luz do dia.

Segundo turno

Pela manhã, a dinâmica do Ver-o-Peso é outra. Barcos escasseiam no cais, assim como a oferta de açaí. O mercado de peixes, prédio de um azul desbotado, passa a abrigar os exemplares que não foram vendidos durante a noite e aqueles que já fecharam a jornada de trabalho relaxam nos bares do entorno. Caso de Nando, vendedor de açaí de 37 anos que exibia o copo de cerveja logo nas primeiras horas do dia. "Vendi R$ 50", disse, ao lado de um bolo de notas dispostas sobre a mesa.

Antes das 6 horas, os primeiros comerciantes de frutas chegam ao mercado e, pouco mais a frente, abastecem as barracas com outros produtos típicos, como bacuri, cupuaçu e a tradicional castanha-do-pará - que, pelo sabor, parece absorver a elevada umidade do local. Parte dos itens o visitante consegue degustar antes mesmo de comprar. Na tenda 23-A, Carmelita dos Passos Rocha, há 43 anos na feira, é uma das que conquista o cliente com o agrado. Sua barraca impressiona pela variedade e inclui iguarias de que boa parte dos brasileiros nunca nem ouviu falar.

Há também barracas só de farinha de mandioca. Muita e em variedades diversas: branca, amarela, de tapioca... Porque boa parte do que se come no Pará vem acompanhado da iguaria. A começar pelo próprio açaí, ou ainda o peixe preparado pelas boieiras do mercado, como são chamadas as cozinheiras da região.

Bancas de essências de ervas completam a lista de atrações do Ver-o-Peso. Anunciadas com diversas propriedades medicinais e afrodisíacas, são vendidas em frascos coloridos que levam nomes engraçados, como "Chega-te a Mim" e "Óleo da Bota".

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