Leonar de Serres/Atout France
Leonar de Serres/Atout France

Na França, pelos nobres caminhos do Vale do Loire

Duas horas de carro desde Paris são suficientes para chegar à região, que se esparrama no entorno do Rio Loire, o maior do país. De Orléans a Tours, foram oito castelos em cinco dias

Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2016 | 04h04

A monarquia terminou na França, no século 18. Mas suas marcas seguem bem vivas no Vale do Loire, região que vai do centro do país ao Oceano Atlântico. Reis, rainhas e suas cortes estão presentes em dezenas de castelos, em fortalezas medievais e em construções renascentistas.

Guias locais estimam que existam quase inacreditáveis mil castelos ao longo dos 800 quilômetros quadrados da região. Número que tem explicação: em uma época em que o poder era descentralizado, reis e suas cortes, com centenas de integrantes, viajavam pelo país para conhecer o povo e mostrar autoridade política. A cada mudança, a realeza e os nobres trocavam de cidade e também de palácio. E havia ainda os casos em que a troca de moradia se dava por guerra ou para fugir de doenças.

Diz-se, por exemplo, que o rei Francisco I (1494–1547), um dos personagens da monarquia francesa, nunca ficava mais de duas semanas num mesmo lugar. Passava 70% de seu tempo viajando. Uma de suas obras mais emblemáticas é o Castelo de Chambord, o mais estonteante da região. Em 1519, Francisco I mandou construí-lo para ser seu pavilhão de caça.

Rumo ao passado. “Vamos entrar na minha máquina do tempo”, brinca nossa motorista e guia na região, Stéphanie Ledonne. “Os reis e a nobreza escolheram construir castelos aqui por vários motivos. As cidades não são tão distantes de Paris, temos uma boa gastronomia, há muita floresta para caçar, e tem o Rio Loire, economicamente importante.”

O Loire já não é mais usado para navegação, apenas para passeios. Mas sua importância permanece, é sentimental. Há quase uma reverência às águas do rio, perceptível no orgulho com que os franceses da região falam sobre ele: com adjetivos como magnífico e espetacular. 

Parte dos castelos do Vale do Loire é de propriedade do Estado. Alguns mantiveram peças originais de suas épocas, mobiliário da realeza e obras de arte. Diversos são particulares – o roqueiro Mick Jagger tem o seu na charmosa cidade de Amboise –, outros foram transformados em museus ou hotéis – hospedar-se em castelos é muito comum na região.

Alguns dos mais importantes ficam próximos ao Rio Loire, o maior da França, com 1.013 quilômetros de extensão. É o caso do Amboise, do Royal de Blois e do Château de Chaumont. Outros estão ligados a rios menores. Chambord é vizinho ao Rio Cosson. Chenonceau, “o castelo das damas”, atravessa o Rio Cher.

Na estrada. Brasileiros usualmente chegam à França pelo aeroporto Charles de Gaulle, em Paris; não há trem que ligue o aeroporto diretamente ao Vale do Loire. Fomos de van, em uma viagem de 2 horas por uma rodovia de seis pistas praticamente em linha reta, com muitas placas para facilitar a localização e sem trânsito pesado. 

Stéphanie, a guia, conta que no tempo da realeza levava-se até 6 dias a cavalo no trajeto entre Paris e a cidade de Orléans, a 130 quilômetros.

Nosso roteiro abrange oito castelos em cinco dias, passando ainda por vilarejos e pelas cidades de Blois, Amboise e Tours. Paramos para dormir um dia em um hotel-castelo – onde quem dá as ordens é o rei-cão Othello –, em Contres.

Fizemos quase todo o percurso de carro, terminando em Tours. Em Saint-Pierre des Corps, a 4 quilômetros de Tours, pegamos um trem (a partir de 48 euros) de volta para o Charles de Gaulle.

O Vale do Loire tem praticamente a mesma temperatura de Paris, com variação de dois graus para mais ou menos. No inverno, o dia clareia por volta das 9 horas – e às 17 horas já está escuro. A primavera colore os jardins dos castelos e as florestas no caminho com flores de vários tons e gramados verdes; março a outubro costuma ser citado como o período mais bonito no Vale do Loire. Em determinados momentos, a paisagem se alterna com imensos campos, tão grandes que às vezes parecem se perder no horizonte. Não é à toa que o Vale do Loire é também conhecido como o jardim da França.

*A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ATOUT FRANCE E DA AIR FRANCE

 

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COMO CHEGAR AO VALE DO LOIRE

Air France em voos diretos diários saindo de São Paulo e do Rio  (desde R$ 2.273). A TAM (desde R$ 2.269) também tem frequências diárias saindo das duas cidades. De trem às cidades do Vale do Loire, saída do centro da capital francesa: entre 11 e 50 euros por trecho, dependendo da antecedência

 

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AMBOISE

Vamos começar Amboise pela boca. A pequena Patisserie Bigot, aberta em 1913, é imperdível pela comida e pela simpática Christiane Mason, neta do casal de fundadores. Sob seus olhos, são feitos, por exemplo, a tradicional e doce tarte tatin (9 euros), quiches lorraines (¤ 7), omeletes (¤ 8,80) e o campeão de pedidos, o chocolate quente com laranja (4,90 euros).

“Para mim, Amboise é o centro do mundo”, derrama-se a proprietária. “Falem bem da França, é o meu país.” Independentemente de ser ou não o centro do mundo, a cidade foi a base perfeita para visitar cinco castelos. 

A tarefa de falar bem do país, que já não é difícil, é facilitada pela boa gastronomia local. Compre uma das caixas de bombons diversos (com 12 unidades, sai por 15 euros) que ficam expostas na entrada da loja.

“Freezer não, fica seco”, ensina a vendedora. Pode confiar: a minha chegou ao Brasil inteira, quatro dias depois.

Amboise também foi o centro do mundo para o multifacetado Leonardo da Vinci. Em 1516, a convite do rei Francisco I, grande mecenas do Renascimento na França, o polímata da Vinci chegou à pequena cidade do Vale do Loire, onde viveu até 1519, quando morreu. A história conta que, então com 64 anos, ele saiu de Roma em abril de 1516 a bordo de uma mula de carga. Acompanhado de discípulos e de algumas obras, entre elas a Monalisa, chegou a Amboise em outubro do mesmo ano.

O amigo do rei morou em uma propriedade emprestada por Francisco I, o Castelo Clos Lucé, a 500 metros do Castelo de Amboise, onde ficava a realeza. Diz a lenda local que uma passagem subterrânea ligava os dois palácios.

Sem atalho, andando pelas pacatas ruas de Amboise, é possível visitar os castelos e conhecer a Bigot em um dia.

 

ORLÉANS

“É a cidade mais importante do Vale do Loire”, brinca a guia Stephannie ao falar de Orléans, onde mora. Mais importante ou não, o fato é que Orléans, onde nos hospedamos (no Hotel de l’Abeille, desde 120 euros) para visitar três castelos, tem um lugar de destaque na história da França. No século 15, a heroína Joana D’Arc libertou a cidade na fase final da Guerra dos Cem Anos, o maior conflito europeu da Idade Média. Padroeira da França, ela dá nome a rua, escola, clínicas e estátuas.

Em um passeio a pé, percebe-se que Orléans é uma cidade muito preservada. Na parte histórica há casas feitas com a técnica da colombagem, muito usada na Europa a partir da Idade Média, com grandes colunas de madeira desenhadas e coloridas.

Na cidade fica o restaurante de Eric Lecerf, por três décadas escudeiro de Joël Robuchon. Em Orléans, ele trabalha em uma cozinha aberta, eventualmente conversando com clientes. Menus de três passos custam 35 euros.

 

VEUIL

Se até os reis cultivaram o hábito de frequentar a região do Vale do Loire pela boa gastronomia, não seremos nós, plebeus, que deixaremos de aproveitar essa culinária inesquecível. Na pequena Veuil, vilarejo de 380 habitantes, a 7 quilômetros do Castelo de Valençay, está o restaurante Saint Fiacre, do chef Arnaud Gauthier. 

O estabelecimento , uma graciosa casinha branca de janelas vermelhas, existe desde 1971. Há 15 anos, Gauthier “guardou suas malas ali”, como ele mesmo diz, após passar por vários lugares da França.

No dia em que passamos por lá, o chef mostrou por que o restaurante é famoso em toda a região. O amuse bouche, aperitivo, era mousse de salmão com açafrão. Na entrada, creme de abóbora com espuma de lardo – tipo de gordura de porco – e sementes torradas. O prato principal era um peixe da estação à inspiração do momento – opção oferecida no mais em conta entre os três menus, que sai por ¤ 23 e inclui três passos. O nosso foi purê de batata e ketchup de berinjela. 

Na hora da sobremesa, ficou difícil resistir ao petit gateau com sorvete. Outra opção era a seleção de queijos de cabra, especialidade da região, com nozes ou damasco. E sorvete.

Arnaud Gauthier afirma que só trabalha com produtos locais frescos para preparar as receitas do menu, que são criações próprias. A opção mais cara custa ¤ 38, também com três passos, mais o aperitivo inicial. Como complemento, as apresentações impecáveis dos pratos.

 

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TOURS

Tours é uma cidade muito antiga, mas com jeito jovem. Tem universidades e uma vida noturna animada no fim de semana. Na Praça Plumereau, os bares ficam abertos até tarde. A Rua Colbert tem dezenas de restaurantes de diferentes nacionalidades: Etiópia, Índia, Grécia, Líbano, Itália – e até da própria França.

Não perca a incrível loja Delices Lamarque. Parece que você entrou numa fantástica fábrica de chocolates. Pirulitos, caramelos, biscoitos, tudo é uma delícia. A caixa com caramelos sortidos – café, laranja, framboesa, gengibre – sai por 12,50 euros. 

 Faça o tour a pé pelo centro histórico da cidade para descobrir pontos turísticos e passagens secretas da Idade Média. O escritório de turismo de Tours fica perto da prefeitura – agende com um dia de antecedência.

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