Felipe Mortara|Estadão
Felipe Mortara|Estadão

Na mata, um saber além dos livros

"Cada viagem que eu faço é diferente. Isso me rejuvenesce. Tenho 60 anos e 43 nessa vida de barco, tudo ainda parece muito novo para mim", Comandante Tadeu, há 10 anos no leme do navio

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

O acento peculiar pode enganar, mas o guia Alex é brasileiro. Talvez até mais do que eu e você. Aprendeu a falar tucano, o idioma de sua tribo de origem, antes do português. Na Aldeia Caruru, que fica à margem do Rio Tiquié, pelos idos de São Gabriel da Cachoeira e na fronteira com a Colômbia, além da habilidade linguística, ele adquiriu a capacidade de interpretar e mimetizar a floresta – que fica muito clara durante a caminhada por um denso trecho de mata no igarapé de Jaraqui, com 1h30 de duração.

Tudo tem significado e utilidade na selva. Onde nós visitantes enxergamos mato, Alex vê casa. Munido apenas de um facão, mostra aos urbanos visitantes como construir, em cerca de 20 minutos, uma cabana com palha de bacaba, uma espécie de palmeira. Habituado a caçar e pescar desde pequeno, acostumou-se a passar dias entre as árvores em busca de alimentos. Isso foi antes de ser enviado por padres para um internato em Manaus, aos 16 anos. Inclusive foi lá que um professor o rebatizou Alex Marques, pois seu nome original, Ëremirh – que significa rouxinol na língua tucano – era “muito complicado de pronunciar”.

Apaixonado e didático, Alex explica como confeccionar uma corda com pau de envira, cortando e tecendo com esmero, até atingir um fio robusto que surpreende pela resistência. Tudo tem utilidade; uma folha de bacaba arrancada da cobertura da recém-construída cabana é transformada em uma flecha. Interessado em madeiras para canoas e remos, Amyr Klink chega mais perto para entender como transformar um galho de paxiúba em arco. “É o saber além dos livros, o conhecimento não literário”, divagou o navegador.

“Gosto de levar o grupo para sentir a floresta como eu sentia na minha infância”, disse Alex. “Adoro voltar para a minha aldeia, ajudar a manter as tradições e resgatar os rituais.” O olhar continua afiado: durante uma saída noturna para focagem de animais, apanhou com facilidade um pequeno jacaré. Depois, munido de uma lanterna potente, distinguiu a jiboia de um metro de comprimento toda enrolada, pronta para dar o bote, em um emaranhado no qual víamos apenas galhos.

"As pessoas se desarmam e o que sobra é tempo, a possibilidade de conversar. Isso faz as pessoas se sentirem em casa e fazerem revelações do fundo do coração", Samuel Seibel, diretor da Livraria da Vila​

OUTROS CRUZEIROS

Com seus 120 passageiros, o Iberostar Grand Amazon, que hospeda o cruzeiro Navegar É Preciso, tem porte médio para padrões amazônicos. Há outras opções de roteiros regulares, tanto em embarcações menores, para pouquíssimos navegantes, quanto para quem prefere mais companheiros a bordo e uma atmosfera luxuosa.

1. Pioneiras: as embarcações dessa família são pioneiras em cruzeiros regulares pela Amazônia – os roteiros cobrem o Rio Amazonas (3 dias), o Negro (4 dias) ou ambos (7 dias). O Amazon Clipper tem capacidade para 16 passageiros e é mais simples, com beliches nas cabines; a partir de US$ 620 por pessoa, com refeições e passeios incluídos. O Clipper Premium, mais elegante, tem cabines com camas e acomoda até 34 pessoas. De US$ 867 a US$ 1.744. Na Viverde.

2. Expedições: dois navios fazem expedições de 7 dias pelas águas amazônicas. No elegante iate Tucano, a Viagem ao Coração da Amazônia custa desde US$ 3.450 e vai até o Rio Jauaperi. Já a Expedição Katerre pode ser feita nos barcos de design regional Awapé (até 8 pessoas) e Jacaré Açu (até 16). Roteiros de 7 dias custam a partir de R$ 4.250 por pessoa. Também na Viverde.

3. Luxo só: o navio Seabourn Quest tem um roteiro de 41 noites que sai de Manaus em 9 de novembro, passa por Anavilhanas, Santarém, desce pelo litoral brasileiro, chega a Montevidéu, vai até Ushuaia, cruza o Estreito de Magalhães e termina em Valparaíso, no Chile. Na versão de 20 noites, os passageiros desembarcam em Buenos Aires. Preços desde US$ 4.639, mais US$ 2.344 em taxas. Para até 458 passageiros, na qualitours.com.br.

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